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Bricolage da Escrita

Bricolage da Escrita

Ainda a propósito dos Pokémons. O perigo da globalização do eunuco.

Depois de consultar a origem etimológica da palavra “eunuco”, verifiquei que tem a ver com o termo grego  eunoukhos, o qual, ao que parece, deverá ser traduzido por “guardião da cama”.

 

Em tempos recuados existiam uns privilegiados que detinham haréns para animar festas e revigorar o seu prazer sexual. Para acautelar eventuais desvarios daqueles que se ocupavam de tal mordomia eram estrategicamente castrados. O harém, muitas vezes constituído de esposas e concubinas reais, dispunha, portanto, de uma “guarda de honra”. Esta era formada por um conjunto de indivíduos que, amputados dos testículos e pénis ficavam, alegadamente, mais dóceis e inofensivos. Estava, deste modo, garantida a exclusividade e preservação da “propriedade”. Isto aconteceu na Grécia e China antigas e no império Romano, por exemplo.

 

Vivemos tempos em que nos estão, subtil e de forma indolor, a castrar: não o pénis e os testículos (se calhar, até isso!) mas, sobretudo, o pensamento. Estão a tornar-nos uma espécie de eunucos da capacidade de pensar; a promover-nos a guardiões da idiotice, da passividade, da frivolidade, do individualismo exacerbado, do deslumbramento incapacitante e estupidificante.

O êxito mundial dos Pokémons é apenas um exemplo do contributo para a globalização da castração do pensamento. Objeto de mediatização, a novidade dos monstrinhos suscitou a corrida a milhões de downloads da aplicação; um passo de gigante da Nintendo (empresa rainha de uma panóplia de gadgets de entretenimento interativo) rumo à globalização do eunuco do pensamento.

 

Os Pokémons constituem-se como mais uma extensão da tecnologia que privilegia a interatividade virtual em detrimento da sociabilidade do ser humano; representam sismos que vão abalando a essência do ser humano, a sua dimensão racional. E, enquanto procuramos os Pokémons, damo-nos cada vez menos a oportunidade de nos procurarmos a nós próprios e aos outros; vivemos seduzidos pela insignificância de uma demanda destituída de sentido; inebriados por uma espécie de “ópio pokémosiano”, que nos tolda os sentidos e, sobretudo, a capacidade de pensar e o prazer de nos relacionarmos com os outros.

 

De forma manifestamente crescente temos vindo a assistir ao desinvestimento no pensamento crítico, reflexivo, interrogativo. E isso acontece, de um modo geral, em todo lado: na escola, na família e na sociedade. Descartes, um filósofo francês do séc. XVII, não deixa qualquer dúvida, quando, na célebre máxima da sua filosofia afirma categórica e inequivocamente o homem como ser pensante: “penso, logo existo”. Claro que outros filósofos o fizeram antes dele, mas o seu enunciado é ímpar e portentoso. Tinha encontrado um princípio para a sua filosofia, o único, afirmava ele, de que não podia duvidar. Infelizmente, a tendência parece ser cada vez mais a destruição e/ou inversão da verdadeira natureza humana. Estamos cada vez mais perto de nos identificarmos com os Pokémons, do que com a nossa essência de seres pensantes; no fundo, mais interessados em priorizar a existência passiva, do prazer imediato e da superficialidade, em detrimento de uma existência guiada pelo pensamento crítico. O pensamento, aliás, tornou-se uma inutilidade. E quando assim é, corremos riscos de sermos dominados por uma suposta casta superior.

 

Vem-me à memória o que acontece na alegoria contada em “ A Revolução dos Bichos”, por George Orwell. Transposta para os dias de hoje, parece que há por aí uns “porcos”, que iguais entre iguais, se assumem como sábios e superiores a todos os outros e a quem devemos obediência e reconhecemos privilégios; que mesmo sabendo que nos ludibriam, que usurpam desmedida e desmesuradamente as riquezas que são de todos nós, pretendem que acreditemos que devemos aceitar tudo como se fosse natural e pacificamente incontornável. E quando alguém tem a veleidade de, em contracorrente, levantar a sua voz dissonante, é maltratado, espezinhado, ameaçado e, até, tal como aconteceu com Sócrates na Grécia antiga, condenado à morte. Este pensador da filosofia antiga insurgiu-se e protestou, no seu tempo, contra a verdade imposta e pretensiosamente única, contra o desprezo pela justiça e pelo bem, contra a decadência ética e moral: os únicos crimes de que foi acusado e pelos quais foi condenado. Desde esse tempo, evoluiu assim tanto a humanidade? Não. Os exemplos para o comprovar poderiam ser muitos, quiséssemos nós enumerá-los.

 

Não podemos continuar a permitir, que a pretexto da irreversibilidade do progresso, não haja espaço nem tempo para a procura de “Pokémons” de outra dimensão: do diálogo, de uma cultura que cultive a abertura às necessidades, sentimentos e emoções das pessoas. Precisamos de procurar Pokémons que se insurjam contra uma cultura dominante desprovida de valores fundamentais. Carecemos de encontrar Pokémons que ajudem a encontrar soluções para tantos problemas que ainda afligem a humanidade: o terrorismo, a xenofobia, a promiscuidade descarada entre a política e a economia, as guerras fratricidas e constantes nalguns países, a carência de alimentos básicos para milhões de pessoas, as doenças para as quais ainda não há cura, as continuadas agressões ao ambiente, etc. Urge, simultaneamente, revisitar questões vitais para todos nós, e que têm sido estrategicamente postergadas, tais como: quem somos? donde vimos? para onde vamos? E os Pokémons que vagueiam por cidades, montes e vales, não respondem, definitivamente, a estas questões. Pelo contrário: representam mais um contributo para nos afastarem de nós próprios e dos outros, perpetuando a lógica desumanizante. Parafraseando o atual Papa, vivemos uma espécie de “globalização da indiferença”. E porque será? Talvez porque andamos demasiado distraídos com diversos Pokémons: do dinheiro, da vaidade, da arrogância, do egoísmo, do materialismo. E enquanto assim for, não passamos de eunucos privados da nossa essência, ou seja, da nossa natureza pensante.

 

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do séc. XIX,  revoltou-se contra a cultura vigente do seu tempo que, segundo ele, estava demasiado impregnada de valores de origem judaico-cristã. Em termos muito genéricos, escreveu Nietzsche, que a religião era um obstáculo à realização do ser humano; uma espécie de Pokémon - dizemos nós - sustentada na crença num além inexistente, que impedia a criatividade e o livre pensamento humanos. Quase absorto em agradar a Deus, o Homem, segundo o filósofo, esquecia-se dele próprio, atrofiando as suas capacidades e potencialidades. Mesmo não concordando com Nietzsche, especialmente no que concerne ao papel da religião na vida do ser humano, reconheço que me serviu para estabelecer uma analogia: a distração excessiva com futilidades, a obsessão com o mundo virtual e tudo que lhe está associado faz perigar, sem dúvida, a verdadeira natureza humana.

 

Li há pouco tempo que havia algumas multinacionais que obrigavam os seus funcionários a usar fralda geriátrica, para evitar perda de tempo nas saídas à casa de banho. Com certeza que não seria à procura de Pokémons! Isto é a mais vil escravatura; uma atitude simplesmente abjeta. Entretanto, ao que parece, algumas dessas grandes empresas são patrocinadoras de grandes eventos desportivos, como os jogos olímpicos. E quem se importa com isso? Há quem tenha a missão de nos distrair com diversos Pokémons deste e de outros assuntos ignóbeis. Diz-se, e eu acredito, que as redes sociais servem também para estudar o nosso perfil para posteriormente ser vendido a empresas que tentam ir ao encontro dos nossos interesses e gostos. Uma estratégia, entre outras, de reduzirem a natureza humana à dimensão económica, ou seja, confinar o Homem a um “Pokéconomicus”. Vergados, quase de joelhos perante o endeusamento do “ter”, é cada vez mais difícil a metamorfose libertadora do Homem, capaz de priorizar a dimensão do “ser”.

 

Especialmente nalguns países continua-se a perseguir – por vezes, de forma ostensivamente violenta - o livre pensamento, a prender pessoas em nome de uma verdade alegadamente única e superior (uma espécie de Pokémon exclusivo, só ao alcance de alguns!), ao mesmo tempo que chefes de estado enriquecem descarada e escandalosamente, menosprezando o povo que vive abaixo do limiar da pobreza. Entretanto, enredados no nosso mundo virtual, vamos permitindo que isto aconteça. Interessam mais, talvez, outras pseudonotícias (Pokémons das massas), como as férias paradisíacas, as conquistas amorosas e o jato do Ronaldo, a atriz que na cerimónia da entrega dos óscares, alegadamente se descuidou e deixou ver uma das mamas, a celebridade que assumiu, publicamente, a sua homossexualidade…e por aí fora.

 

O importante é que assumamos uma postura mais problematizadora e interventiva, expressão da nossa verdadeira natureza, para que diminuam as possibilidades de nos espoliarem daquilo que nos define como seres humanos, mas também para nos tornarmos agentes de mudança. Não deixemos que façam de nós os eunucos do século XXI. Não queremos, com certeza, que nos reduzam à condição de um bando de inúteis e de idiotas; de eunucos sem a capacidade de refletir crítica e construtivamente, estupidamente amestrados para cuidarmos dos haréns políticos, económicos e financeiros de uma minoria. Já agora, pensemos nisso.

 

 

Jota Eme

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