PARTE_ I
Algumas notas prévias: escrevo porque gosto; para me ajudar a mim próprio a arrumar ideias; porque gosto do “amadorismo” na escrita: de pegar em “materiais” já existentes e trabalhá-los e/ou recriá-los. E isso é um prazer, digamos assim. Escrevo, também, porque é uma forma, entre outras, de selecionar o que mais me interessa, de exercitar e afirmar o sentido crítico, procurando não me deixar amestrar por tudo que leio e/ou ouço. Escrevo, ainda, por outras razões…não importa.
Vamos lá, então.
Pedi emprestada, para título principal da minha pequena reflexão, a expressão usada por Milan Kundera. Procurarei explicar os motivos à medida que for discorrendo sobre o nosso projeto existencial.
Talvez faça algum sentido refletir sobre a nossa existência numa época em que se reclama cada vez mais por uma ética e valores que afirmem, protejam e defendam a dignidade do ser humano. A “era do vazio” como a apelida G. Lipovetsky, desventrada de valores fundamentais, assenta numa idolatria sem precedentes, numa lógica de deificação do supérfluo, da futilidade, da indiferença, do culto hedonista. Desvanecem-se referências morais, éticas e outras, ao mesmo tempo que nos sentimos impotentes para encontrar alternativas.
Há quem alegue que desde que o homem “matou” Deus, substituindo-o por outros deuses, perdeu a sua essência, a sua dimensão espiritual. Se olharmos para o mundo em geral, vemos como se instalou a indiferença perante o sofrimento do próximo; como a economia cresce e se “financeiriza” cada vez mais, enquanto a repartição equitativa da riqueza é uma miragem; como a cultura do descartável prejudica e menospreza os direitos inalienáveis do ser humano, contribuindo para injustiças sociais gravíssimas; como se planeia prioritariamente a guerra, em vez de se promover a paz; como se agride e espolia a natureza. No fundo, parece que a nossa existência é mesmo uma tragédia que nos traz, cumulativamente, a angústia da permanente incerteza quanto ao nosso fim último; quanto à desesperança na nossa capacidade de inverter o rumo dos acontecimentos. Parece, enfim, o colapso de uma cultura que anunciava, triunfante, a solução para tudo.
O chamado existencialismo humanista, de pendor ateísta, pretensamente defensor do primado do Homem e da consequente desvinculação absoluta de Deus, originou, permita-se-me a ilação (não consensual, com certeza), a desorientação e uma espécie de irracionalidade surpreendente. Tal como a narração bíblica de Adão e Eva, o Homem, querendo assumir o papel de Deus, perdeu-se. Mas teima em não perder a vergonha da sua nudez ético-moral.
Segundo alguns filósofos, a nossa existência é uma permanente angústia que mitigamos, habilidosamente (e ainda bem, digo eu), através de desejos, sentimentos e objetivos que consideramos nobres e, de um modo geral, determinantes para a nossa felicidade. Afinal, somos “viciados em felicidade”. Tudo fazemos para que a nossa existência valha a pena, escamoteando o mais possível, o determinismo inexorável da nossa finitude.
Estamos acorrentados à inevitabilidade e certeza de um fim, traduzido, como todos sabemos, na morte. E depois? Que fazer, então? Contrariá-la, afugentando-a como podemos, numa demanda desenfreada por aquilo que nos dê a ilusão da eternidade. Por isso, ouvimos com frequência dizer que o importante é viver o presente, como se dele não nos quiséssemos jamais separar; como se fosse o momento privilegiado da nossa existência; como se fosse a nossa pequena e desejável intemporalidade.
Mesmo quando apontamos para o futuro, temos a sensação de que logo, logo, o mesmo é convertido em presente. E este, por sua vez, remete sucessivamente, como por magia, para o passado. Somos, então, joguetes no tempo que nos dá inúmeras possibilidades, escolhas, mas que nos condena, simultaneamente, à condição irreversível de seres finitos. E esta autoconsciência que, por conveniência, tendemos a ignorar, torna- nos perpétuos prisioneiros de uma existência algo frágil, trágica mesmo.
A tragédia da nossa existência reside, pois, numa espécie de ansiedade que o tempo, especialmente o que anda de mãos dadas com o futuro, nos provoca. Nunca sabemos o que nos pode acontecer; nunca sabemos se aquilo que tanto almejamos se poderá realizar ou concretizar. O futuro dá-nos a esperança de realizarmos a felicidade, de concretizar os nossos projetos e/ou objetivos mas, simultaneamente, o mesmo futuro, adverte-nos que nos pode trair. Há aqui uma espécie de dialética existencial de quase amor/ódio que não nos deixa serenar. E esse é o nosso verdadeiro drama. Porque o tempo que tudo nos dá é o mesmo que, num ápice, de tudo nos priva.
A tensão existencial é, paradoxalmente, condição do significado que atribuímos à vida. O mesmo é dizer que, tal como Nietzsche defendia, aquilo que nos fragiliza (a finitude) deve ser, concomitantemente, a força, a condição que nos move para criarmos, para produzirmos, para nos afirmarmos através das nossas realizações: projetos, objetivos, ambições, desejos. O homem recria-se a si próprio, apelando à sua capacidade de transformar a sua natureza física, social e cultural. Quando nascemos vem acoplada a nós uma natureza que não escolhemos, que nos é dada. E a partir dela, como que numa espécie de bricolage, procuramos ultrapassar, recriar essas limitações.
A nossa condição de seres permanentemente insatisfeitos, mas sobretudo de seres conscientes de uma existência provisória, projeta-nos no mundo, prolonga-nos no tempo, dá-nos a ilusão de que permaneceremos para além do fim inevitável. É numa espécie de equação existencial (de infinito vs. finito, mas também de fascínio vs. temor) que se explicam e têm origem as diversas manifestações de cultura, como a ciência, a arte, a filosofia e a própria religião. O ser humano, contrariamente aos restantes animais, investe num significado para a vida mesmo que, por vezes, implique sacrifícios, angústias, desilusões e a ameaça permanente - qual espada de Dâmocles - da fatalidade de um fim.
Mark Rowlands, filósofo contemporâneo nascido no país de Gales, diz que “ os humanos têm mais a perder do que os animais quando morrem…”. Depreendo, a partir do próprio contexto da frase, que os animais não têm a preocupação de construir um significado para a sua vida; de continuamente procurarem realizar sonhos, projetos, desejos e, simultaneamente, temerem a sua “não realização”. Os outros animais são alheios a esta detestável angústia, a qual reside, basicamente, na vivência de uma equação existencial inultrapassável: parafraseando ainda o mesmo filósofo, somos “seres-para-um-futuro”, mas também “seres-para-a-morte”. Com efeito, ninguém imagina um cão a preparar a sua viagem de sonho e, ao mesmo tempo, com receio de não vir a concretizá-la; ou um elefante a cogitar a melhor forma de evitar a sua morte prematura precavendo a possibilidade de um caçador furtivo e sem escrúpulos querer aproveitar o seu cobiçado marfim. Muito menos concebemos uma gata entrar em stress, preocupada que está com o futuro a médio e longo prazo dos seus filhotes. Essa noção de futuro como possibilidade de realização e, ao mesmo tempo, como ameaça permanente da felicidade, não faz parte da essência dos animais que designamos, habitualmente, de irracionais. Não há, aqui, a equação existencial; não existe o temor do “não significado”, ou o “medo da insignificância”.
A consciência do significado da vida (ou autoconsciência) dá aos seres humanos, a sensação da nossa superioridade em relação aos outros animais. E parece absurdo como esta suposta superioridade se torna, de algum modo, quase uma maldição: o significado da vida arrasta consigo uma desesperante e intolerável fatalidade; a sempre eterna “angústia existencial”; a equação existencial intransponível, insolúvel. Ou seja: não parece existir significado da vida sem a concomitante e irritável concorrência do horizonte execrável do fim. Mesmo que, alguns de nós, acreditemos que para além da morte existe um outro mundo, a equação existencial é soberana, não dando hipótese de qualquer solução. É como se todos os nossos projetos estivessem condenados ao desmoronamento, a uma espécie de implosão previsivelmente implacável. No nosso projeto existencial somos confrontados com a ansiedade e angústia da ausência regular de prazer nas nossas vidas, de que tudo é demasiado fugaz, da precaridade das nossas estratégias, da sensação de que existe um fim, e de que tudo, um dia, desaba de forma cruel e abrupta.
Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo existencialista, traduz a essência da natureza humana num simples título de um dos seus mais famosos livros: “ O Ser e o Nada”. E é isto: não podemos fugir à tensão de uma existência que nos confere liberdade (possibilidade (s) de atribuirmos um significado à nossa vida) e que, ao mesmo tempo, nos condena ao indeterminado, ao imprevisível, a limitações que não escolhemos, que repudiamos, sendo a maior delas, insuperável (a morte), o “nada”. Claro que a filosofia sartriana tem outras repercussões, designadamente ao nível da negação da existência de Deus; da desesperança num ser superior que nos é anterior e que nos acolheria depois da nossa trágica e breve passagem pela Terra. Para Sartre, Deus não existe. A principal explicação está no facto de, como o próprio afirma, a existência preceder a essência; não somos propriamente seres acabados, criados à imagem e semelhança de Deus, mas seres em projeto existencial que não dependem de um ser divino. Entregues a nós próprios, vamos construindo, numa angústia soberanamente pegajosa, a nossa própria existência; segundo Sartre, criamo-nos a nós próprios, não havendo nada que preexista à nossa existência. Ou seja: isso da natureza humana como conceito metafísico, não faz sentido. Também não significa que Sartre faça a apologia do niilismo. Afinal, a “guerra” permanente entre o que somos e o que desejamos e/ou aspiramos ser, projeta-nos numa multitude de realizações que, em última instância, dão à nossa existência o verdadeiro significado.
Deus, ainda segundo o existencialismo sartriano, não criou ou concebeu o homem; criamo-nos, num processo ininterruptamente trágico, porque sujeitos às inevitáveis opções. O homem é o projeto que ele próprio constrói, entregue a si mesmo e na relação com os outros. No fundo, não tem (porque não existe) de prestar contas a nenhum ser superior (Deus), a não ser a si e, naturalmente, aos que lhe são próximos. A responsabilidade de tudo o que faz ou não faz, é apenas sua. Não há apoio divino. Ele é autor e ator do seu destino; está, fatal e irremediavelmente, condenado a ser livre. Existência, responsabilidade e liberdade são, assim, caraterísticas indissociavelmente únicas de cada ser humano. O sentido último de cada ser humano é ele mesmo e não Deus. Outro livro de Sartre, igualmente conhecido, resume a sua conceção de ser humano: “O existencialismo é um humanismo”, assim se chama. Sartre afirma, aqui, o primado do homem como único autor do seu processo de construção, negando, tout court, a interferência de Deus.
Podemos concluir que só há o chamado existencialismo ateu? Não poderemos falar de um existencialismo cristão, por exemplo? O que os une e o que os separa? Oportunamente, veremos. Poderemos, ainda, admitir uma terceira via para darmos um significado à nossa vida, para atenuarmos, pelo menos, a nossa angústia?
Há outras perguntas que legitimamente nos podem ocorrer: qual é o significado, afinal, das nossas vidas?! Ou, ainda, quem somos (só matéria, ou temos alma também…? somos tendencialmente bons, ou por natureza, maus? as duas coisas?). De onde vimos (fomos criados por um Ser Superior ou somos mais um elemento da Natureza?) Para onde vamos (que faremos de nós, dos outros e do mundo? para onde caminhamos? seremos capazes de construir um mundo melhor ou caminharemos para nossa própria destruição?)
As questões de natureza antropológica afirmam a dimensão espiritual do ser humano e foram já sensatamente colocadas na antiguidade grega, sendo profundamente atuais. A conceção do mundo, da vida, da nossa conduta, depende da pertinência e/ou da importância que dermos a essas interrogações. Queiramos ou não, a ética, os valores, a moral, são a consequência do modo como assimilamos e, na prática, vivemos essas questões. Já Kant (1724-1804), filósofo alemão, considerava que, na filosofia, havia três questões fundamentais: (i) Que posso saber? (ii) Que devo eu fazer? (iii) Que me é permitido esperar? (iv) Que é o homem? A última questão é nuclear e incluiu todas as outras. Abandonar e/ou fugir a interrogações desta natureza é descentrarmo-nos do que é essencial em nós, resvalando perigosamente para outras dimensões que nos descaracterizam cada vez mais. Falamos, por exemplo, da obsessão com aquilo que nos dá prazer imediato, com a aparência, com as sedutoras soluções (vindas, por exemplo da “espiritualidade pop”) para os nossos problemas, com o consumismo que sabiamente nos encanta e nos reduz à estrita condição de homo economicus ou, ainda, com o apelo ao “you just do it” que nos cria a ilusão de que tudo é possível e, pior, de forma fácil. Demitindo-nos daquelas questões, tendemos para a passividade e para a impaciência com níveis de exigência que nos tirem do nosso conforto, da nossa tendência cada vez mais narcísica de existir.
Infere-se do que ficou atrás refletido, especialmente em relação ao existencialismo ateu enquanto conceção do ser humano, que estamos perante uma visão tendencialmente pessimista da nossa existência. Mas isso é só aparentemente. Na verdade, e embora tenhamos, segundo a corrente filosófica existencialista não-crente, de aceitar a inevitabilidade da nossa finitude, isso não nos impede de termos uma existência feliz.
O que se disse anteriormente foi apenas um intróito provocatório que é necessário explorar, extraindo outras ilações sobre a nossa existência que, conforme determinados pressupostos científicos, filosóficos e religiosos, pode ser vista com maior ou menor otimismo; com maior ou menor significado.
Logo que seja possível, continuaremos este assunto.
Jota Eme