Por uma ecologia espiritual
É admirável como autores dos dois séculos que nos precederam, como por exemplo, Lev Tolstoi (1828-1910), ainda hoje são tão atuais. A sua escrita é, para além de notável quanto ao estilo, profundamente pedagógica, em especial nos domínios sociocultural, político e, também, na educação.
No caso concreto de Tolstoi, depurando-o um pouco da sua veia “anarquista cristã”, encontramos algumas mensagens que bem podiam servir-nos para perceber melhor o estado de estupidificação e de hipnose de que a sociedade tem vindo a “sofrer” ao longo da história, agravando-se, quanto a nós, nos nossos dias. E todos temos, nesse aspeto, a nossa quota-parte de responsabilidade.
Tolstoi acreditava num Deus imanente que se reflete em nós quando agimos segundo um princípio básico e simples: “não fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós”. Parece simples, mas não deixa de ser exigente. Para ele, não fazia sentido pensarmos na religião como um conjunto de dogmas e de rituais que, na sua perspetiva, são apenas pretexto para uma elite manter o poder, as mordomias, e para subjugar os outros. Mas aquele princípio reflete, segundo Tolstoi, o verdadeiro amor; a base para uma sociedade justa, igualitária, solidária e de bem-estar.
Toda a organização socioeconómica, política e cultural de qualquer sociedade assenta, segundo Tolstoi, no poder coercivo sobre o outro, na sua orientação nas várias dimensões da vida, e até, na “legalização” da violência. A organização da sociedade, resulta de uma espécie de aliança entre alguns poderes, designadamente político, económico, militar e religioso, fragilizando, estratégica e intencionalmente, a prática do princípio que convictamente o escritor assume como determinante para a construção de uma sociedade onde prevaleça o respeito pela dignidade humana como valor universal.
Sob a égide do princípio de não fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós, constrói-se, na perspetiva do escritor russo, uma moral e uma ética suficientemente fortes para uma ação que faz tremer os alicerces dos poderes instituídos, libertando-nos da estupidificação a que os mesmos nos querem submeter. Ou seja: para Tolstoi, a prática generalizada deste princípio, dispensava, em última análise, a existência de governos. Se esta perspetiva nos parece, pelo menos à primeira vista, exagerado, não deixa de ter, também, alguma pertinência. Os governos parecem ser, cada vez mais, um eufemismo para escamotear a realidade de um grupo de indivíduos que se juntam para defender interesses económicos. As políticas sociais são sempre adiáveis para o mês seguinte, para o próximo ano, como se nos quisessem adormecer numa esperança sempre protelada. As prioridades de teor económico são sempre mais prementes, mais urgentes; faz parte da estratégia de sobrevivência do neoliberalismo exacerbado. Claro que tudo isto se afigura, para a generalidade das pessoas, uma realidade “natural”. Por isso, sempre que alguém pensa ou reflete ideias para além daquilo que consideramos genericamente aceite e inquestionável pela maioria, há tendência para as menosprezar e, até, considerá-las idiotas. Mas “ fazer-se idiota”, significa, em muitos casos, “romper com o predominante…” para utilizar os termos de Byung-Chul Han, filósofo contemporâneo sul coreano, radicado na Alemanha. Secundando o pensamento do autor, romper com o predominante pode significar, em última análise, dizer não à pretensão de quem nos quer impor um pensamento domesticado e acrítico.
Se olharmos para alguns exemplos da sociedade contemporânea, o princípio defendido por Tolstoi, está muito longe de ser uma prática que oriente a nossa existência. E a razão deve-se, sobretudo, à atuação dos governos (de direita, da esquerda ou do centro!), mas também ao crescente egocentrismo de todos nós. Na perspetiva de Tolstoi deve-se, ainda, à adulteração dos princípios que enformam a religião, designadamente a de raiz cristã. De facto, mesmo nos nossos dias, é difícil perceber como há tanta insensatez em glorificar aqueles políticos que se arvoram de acérrimos defensores de princípios cristãos, fazendo, simultaneamente, apelo ao uso de armas, estimulando a prática da violência. A incoerência é grande! Uma pura irracionalidade! Escancara-se, assim, as portas à normalização da intolerância, da insensatez, do delírio insano, do radicalismo, da discórdia, do totalitarismo.
Agir em conformidade com o princípio de não fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós, abre as portas à prática de valores fundamentais como a solidariedade, a compaixão, a disponibilidade, o acolhimento, o altruísmo; redireciona-nos para a dimensão espiritual em detrimento da obsessão materialista e narcísica. Qual, então, a razão da dificuldade em praticar um princípio tão simples, mas determinante para a construção do humanismo e da abertura a uma ecologia espiritual?
Se temos - porque habitamos uma casa comum - a obrigação de estimular e proteger a ecologia ambiental, não devemos menosprezar uma espécie de ecologia espiritual. Como podemos, de forma sapiencial, preservar o que nos é exterior, se descuramos a nossa essência; se abandonamos, por comodismo, a sede de nos conhecermos melhor; se em vez de atendermos à nossa realização como seres em busca de nós mesmos e de comprometimento com o outro, preferimos realizarmo-nos como incorrigiveis materialistas?
Preocupamo-nos (pelo menos, teoricamente) com a poluição atmosférica, mas esquecemo-nos da poluição antropológica consubstanciada na indiferença solidária, na hipocrisia, na obstinação pela performance laboral, mas também no poder, na mesquinhez, no prazer desmesurado pela interconexão digital, no narcisismo doentio, como se quiséssemos estar à janela para (orgulhosamente) nos vermos passar na rua!
Por outro lado, ao esquecermo-nos, frequentemente, da nossa vulnerabilidade humana, pretendemos afugentar o perigo, a dor, a desesperança, a frustração, refugiando-nos numa pseudossolução: fazer de conta que isso não existe e rejeitando o paradoxo da vida. Claudicamos à mínima contrariedade, não conseguindo fazer desta uma oportunidade de mudança das nossas atitudes, dos nossos comportamentos. Preferimos, muitas vezes, atirar para cima do próximo, a causa dos nossos insucessos, das nossas frustrações. Como muito bem diz Tolentino Mendonça, “ A humanidade em nós precisa de ser abraçada sempre, mas com muita mais razão quando ela está ferida, quando ela se sente como se estivesse leprosa, diminuída, sufocada pela exclusão e o estigma, feita em cacos sem saber reconstruir-se, isolada como uma ilha de dor.”
Sem referências, e na ausência de algo que se nos apresente duradoiro, surge a tendência para a valorização desmedida do trabalho, provocando a autoexploração. Byung-Chul Han, no seu livro “ A Sociedade do Cansaço”, alude ao “imperativo da produtividade”, como a causa da depressão, a doença que aflige a sociedade atual. O homem vive para o trabalho, sob a ilusão da liberdade e da responsabilidade. Não tem consciência de que o trabalho, quando reduzido à mera produtividade, é a causa da sua “autoalienação”.
A sociedade do cansaço, deprimida, é a consequência de outros excessos. O mesmo filósofo, noutra obra, “A Expulsão do Outro”, diz a propósito: “ … a produção já não é produtiva, mas destrutiva; a informação já não é informativa, mas deformadora; a comunicação já não é comunicativa, mas meramente cumulativa.”
Cansados, também, porque buscamos desalmadamente algo que nos dê a sensação de felicidade, enveredando pelo caminho da procura da satisfação de desejos que teimosamente se multiplicam até ao infinito, deixando-nos os nervos em franja, e causando-nos, muitas vezes, a angústia e o desespero, o vazio existencial. Portanto, o contrário do que almejaríamos. Ou seja: a sede do supérfluo é permanente, fazendo-nos sentir cansados, exaustos, como se estivéssemos a percorrer um caminho que mais parece um deserto incorrigivelmente agreste e propositadamente seco. E o que ilusória e pretensamente se esperava que pudesse constituir fonte de satisfação torna-se, afinal, pelo seu carater eminentemente efémero, ocasião de frustração e de luta inglória. A agitação existencial é tanto maior, quanto mais cresce - como muito bem expõe Tolentino Mendonça -, a “desvitalização interior”, que se traduz na “falta de investimento espiritual”, na “desafeição do essencial”.
Temos de aprender a saciar outro tipo de sede: a sede multidimensional, aquela que é mais consentânea com a nossa essência, com a nossa natureza. Aquilo que podíamos designar de desidratação existencial, estado profundo em que se encontra a sociedade atual, só pode ser ultrapassado se sentirmos uma “sede espiritual” que vá para além da procura obstinada de satisfações transitórias e fugazes; que priorize o desejo permanente de busca de nós próprios, e de disponibilidade para o outro. Trata-se de uma disponibilidade que privilegia a relação interpessoal baseada numa escuta ativa e presencial, na empatia, na aceitação positiva e incondicional do outro.
O cansaço da sociedade atual só pode ser aliviado se zelarmos pela “hidratação espiritual”; se formos capazes de tomar como um dos princípios inspiradores da ecologia espiritual, a máxima que propunha Tolstoi E o caminho, entre outros, pressupõe que nos questionemos sobre a nossa conduta. Ousemos, então, interrogarmo-nos.
Quem somos nós, que cultivamos cada vez mais as conexões digitais, descartando, paulatinamente, a relação tátil, o diálogo presencial? Gosto particularmente do modo como Byung-Chul Han se refere criticamente a esta realidade: “Hoje, o mundo é muito pobre em olhares (…) o Windows é uma janela sem olhar…” No fundo, caminhamos para o que o filósofo designa de “descorporalização crescente” da comunicação entre as pessoas, para uma espécie de “hipercomunicação” que atropela a relação personalizada da escuta ativa, da voz, do olhar, da atenção. A comunicação digital, ainda segundo o mesmo autor, “ carece de mistério, de enigma e de poesia…”
Continuando na senda do autoquestionamento, é legítimo que nos interroguemos sobre o que fizemos de nós, simples terráqueos, cuja esperança de vida - com muito otimismo -, anda pelos 30.000 dias de existência (mais ou menos), nos atolarmos na inveja, na ganância, na intolerância, na maledicência, na violência, na vaidade exacerbada, na arrogância profissional e intelectual?
Se quisermos saciar a sede espiritual, não podemos proceder como alienígenas de nós próprios. Sim, alienígenas de nós próprios! Quem somos nós, ousemos perguntarmo-nos, para quase nos resignarmos perante tantas situações de xenofobia, de perseguições religiosas, étnicas, políticas…? Quem somos nós, para permitir o exercício político por parte de ditadores manifestamente imbecis, desmesurada e descaradamente pretensos donos de tudo? Quem somos nós, que nos tornamos quase insensíveis às guerras propositadamente desencadeadas para salvaguardar interesses económicos, estratégicos, políticos e outros? Quem somos nós, que parecemos indiferentes perante a fome, dizimando, sem dó nem piedade, quase populações inteiras, sendo as crianças e os mais idosos, as vítimas principais? Lembremos o exemplo do Iémen, palco de uma guerra que é desavergonhadamente esquecida, que condena milhões de pessoas à fome, e que, segundo notícias credíveis, já não se via há cem anos! Quem somos nós, que cantamos hinos aos avanços tecnológicos e científicos e, paradoxalmente, aperfeiçoamos cada vez mais os meios de destruição da própria humanidade, pondo de lado princípios éticos fundamentais? Quem somos nós, para nos tornarmos tão relutantes em aceitar o outro, quando é perseguido, espoliado da sua liberdade e da sua dignidade? Veja-se o exemplo paradigmático dos “refugiados”. Adentrando, mais uma vez, numa das obras de Byung-Chul Han, pode ler-se: “O grau de civilização de uma sociedade pode medir-se (…) em função da sua hospitalidade, ou melhor, em função da sua amabilidade…”.
Estas questões exprimem, no seu derradeiro significado, a demonstração da nossa ignorância perante nós próprios; são o corolário da falta de inquietude perante a solidariedade, a tolerância, a compaixão pelo outro; representam a falta da busca de um sentido mais profundo para a nossa existência, a ausência de uma preocupação com uma ecologia espiritual.
Existir não é apenas “Ter”; é, acima de tudo, “Ser”: abrir-se ao significado último da nossa existência; capaz de fazer da fragilidade e vulnerabilidade humanas, uma oportunidade de construção de si, do mundo e da vida; abraçar o mistério da vida como condição de aceitação positiva e incondicional de si e do outro. E, para tanto, é necessário serenidade, tempo para a contemplação, em detrimento da hiperatividade antropológica. O autor de “A Sociedade do Cansaço” remete-nos, a propósito, para Nietzsche: “ A falta de serenidade conduz a nossa civilização a uma nova barbárie (…) Uma das correções que urge, pois, fazer ao caráter da humanidade é desenvolver, e em grande medida, o seu lado contemplativo.” Mas este “lado contemplativo” não deve ser confundido com o nada fazer. Bem pelo contrário: é um princípio ativo que pressupõe a busca, o desejo insaciável de aprofundar o sentido da nossa existência. Talvez percebamos melhor o significado deste desejo se prestarmos atenção às sábias palavras de T. Mendonça: “ Enquanto desejamos objetos, quaisquer que eles sejam; enquanto nos deixarmos mover no encalce das coisas, carreiras, títulos, honorificências o nosso desejar não é ainda um desejar verdadeiro. O puro desejo principia quando se formula, sem mais, como nua abertura ao outro.” Um pouco mais à frente, o mesmo autor diz também: “… quando o gozo, a paixão, a alegria se esgotam no consumismo desenfreado (…) a vida perde horizonte.”
O Natal aproxima-se. Pode ser uma oportunidade para realizar o desiderato de uma ecologia espiritual. Por diferentes vias, a profusão de mensagens de saúde, paz, fraternidade, amor…, coexistirá com o consumo desenfreado de uma panóplia de produtos, alguns deles resultantes de mão-de-obra escrava e infantil. Entretanto, umas vezes perto de nós, outras bem longe, as crianças famintas já nem têm forças para chorar, os refugiados continuam a ser objeto de negócio e a morrer no alto mar; nalguns países continuarão a faltar bens de primeira necessidade, enquanto noutros se perseguem, com violência e por motivos fúteis, pessoas e comunidades. E nós, aconchegadinhos no lar, quase ignoramos todas estas atrocidades à dignidade humana; como se não fosse connosco; como se isso fosse adiável, ou para resolver mais tarde; como se também isso fizesse apenas parte da nossa incorrigível tendência para o visionamento bulímico. E pretendendo-se expressar um sentimento de comiseração, dizemos tão-somente: “coitados, é uma injustiça”. Na melhor das hipóteses, acrescentamos: “isto não pode acontecer”! “Este mundo é cruel”! Até somos capazes de, nas redes sociais, postar umas frases alusivas à solidariedade, muito interessantes e retumbantes. E, entretanto, degustamos despreocupada e risonhamente as iguarias do Natal. Questionamo-nos, por acaso, que podíamos estar, ou ainda poderemos vir a estar, no lugar daqueles “infelizes”? Perguntamo-nos se, nas mesmas circunstâncias, não desejaríamos que alguém nos acolhesse, se disponibilizasse para nos socorrer ou ajudar?
A favor dos mais espoliados e carenciados no mundo, é necessário criar movimentos de dimensão internacional em que todos nós nos sintamos envolvidos. Como já se faz a favor de outras causas. Imaginemos, que cada um de nós, na quadra natalícia, decide contribuir para um autêntico bloqueio às grandes multinacionais, não adquirindo os seus produtos supérfluos, enquanto não contribuíssem com os seus lucros despudoradamente ofensivos para melhorar as condições de vida dos mais necessitados, e estancar a fome de milhões de pessoas por todo o mundo. Utópico, dir-se-á. Penso que não. É, aliás, um princípio de ação. Sempre teria maior impacto do que os discursos altissonantes e improfícuos.
Jota Eme