Fake News OU…?
Fake news. Eis um estrangeirismo que, por força do mundo globalizado em que vivemos, ganhou particular destaque.
Pois bem, na nossa língua podíamos associar aquela expressão às palavras - “mentira”, “falso”. Ou seja: quando dizemos, a propósito de determinadas notícias, de que não passam de fake news, queremos afirmar que se trata de notícias falsas. De uma forma simples, diríamos que são mentiras, falsidades, travestidas de verdade. Até aqui, nada de mais, portanto. Toda a gente sabe. No entanto, pela similitude fonética podemos, distraídos, ou por não dominarmos a língua inglesa, correr o risco de pronunciar algo parecido como, por exemplo: “F**k news”, colocando no lugar dos asteriscos o “u” e o “c”! E a “coisa”, assim, muda completamente de “figura”! Mas também podemos, exaustos de fake news, e num dia particularmente mau, ser um pouquinho indecorosos e, em jeito de desabafo, optar por um sonante “ f**k the fake news”!
Voltando às Fake news. Estas perseguem, como é óbvio, objetivos: distrair-nos, num determinado contexto temporal, daquilo que é importante ou prioritário; convencer-nos de algo em prol de interesses esconsos ou de conveniências difusas; como se de forma estratégica e intencional alguém nos quisesse propositadamente enganar, ou influenciar numa determinada direção, levar-nos a tomar uma determinada opção, ou provocar um determinado comportamento. Esta situação acontece muito, regra geral, nas redes sociais, mas também nos órgãos de comunicação.
Quer a nível nacional, quer internacional, percebemos que as fake news são especialmente frequentes nalguns domínios: político, social, económico. Não excluímos outros como o religioso, desportivo, etc.
As fake news, seja qual for a sua natureza, têm a particularidade de, em primeiro lugar, desprezar assumida e desavergonhadamente a verdade. Em segundo lugar, desrespeitam os destinatários, considerando-os incautos e desprovidos de capacidade crítica; como se fosse fácil enganá-los, ludibriá-los, confundi-los; é essa a sua marca distintiva. No fundo, pretende-se, com as notícias falsas, elevar a mentira a um patamar sacrossanto, fazendo dela um “entretenimento informativo”, dissimulando ou vilipendiando a verdade.
A referência à expressão fake news mereceu especial destaque por altura da eleição do atual presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Alegadamente, as notícias a propósito da sua oponente (Hillary Clinton) teriam sido estrategicamente manipuladas e, consequentemente, favorecido a eleição de Donald Trump. Ou seja: Donald Trump foi eleito por ter conseguido “montar” uma máquina de fake news contra a sua principal rival, influenciando, assim, os resultados finais das eleições.
As fake news são fabricadas por uma pessoa, grupos de pessoas, ou por empresas especializadas para o efeito. No caso das redes sociais não é fácil, segundo se diz, detetar os responsáveis. Atuam como hackers, numa rede oculta, que os especialistas designam de deep web.
Tentemos, agora, a propósito de fake news, fazer uma visita relâmpago pela História.
Ao longo da História da humanidade podemos ver diversos exemplos de fake news. Não é um fenómeno recente, naturalmente. Na chamada Idade Antiga, concretamente na Grécia, também proliferavam as fake news relacionadas com os mais diversos assuntos: desde os mais comezinhos a outros de maior relevância social, política ou militar. As notícias falsas, por vezes, estão impregnadas de ambiguidade: um pouco de verdade misturada com uma maior percentagem de mentira. Ora, nessa época, proliferavam os oráculos. Sumariamente, estes funcionavam em pequenos santuários habitados por sábios ou adivinhos, que numa linguagem a maior parte das vezes ambígua, carregada de enigmas, davam conselhos e vaticinavam acontecimentos quase sempre favoráveis aos putativos interessados. Mas, por vezes, não era fácil decifrar as mensagens! Como acontece, hoje! Os “sábios” são apenas outros, e os “santuários” sumptuosos também não faltam. E não estou a pensar nos religiosos.
Voltemos à Idade Antiga. Por volta dos séculos VII e VI a.C., com os primeiros filósofos, foi emergindo o espirito crítico, e os oráculos foram caindo em descrédito; aquele suposto poder divino dos sacerdotes e sacerdotisas que habitavam os oráculos foi-se desvanecendo, porque as pessoas foram questionando a alegada verdade ou rigor das suas mensagens; começaram a perceber que os oráculos se sustentavam numa espécie de invenção, de mentira. Quem não ouviu falar do Oráculo de Delfos, ainda hoje um templo de atração turística, na Grécia? Tal como nalgumas fake news, as “informações” prestadas pelos experts dos oráculos suscitavam sempre várias ou possíveis interpretações (eram ambíguas, carregadas de subjetividade), com o intuito de salvaguardar sempre a reputação do “emissor”. Portanto, resumindo, a mentira, paradoxalmente, resultava inevitavelmente em verdade, sobretudo pela forte carga de ambiguidade que a própria “informação” ou profecia continha; era a única forma de garantir o êxito da “informação” veiculada. É o método que privilegia o cartomante, entre outros, do nosso tempo, que costumam aproveitar-se da fragilidade psicológica das pessoas.
Se espreitarmos o tempo de Jesus Cristo, por exemplo, talvez as fake news tivessem contribuído para a sua condenação. Na época, foi propagandeado - narra-nos a Bíblia - que Jesus pretendia usurpar o “reino dos homens”, e que queria subverter a ordem vigente; que não passava, então, de um perturbador da sociedade e da moral vigente; ávido de poder político. Isto sem falar dos inúmeros falsos profetas (hoje também existem), que nessa época eram, à sua maneira, o que hoje designaríamos de hackers fabricadores de mentiras. Só que eram mais visíveis; as deep web eram, ainda, primitivas, claro! E já que estamos nos tempos bíblicos, acrescentaríamos, ainda, que há quem veja nas tábuas da Lei de Moisés - os dez mandamentos - uma forma de combater as fake news; uma resposta contra a mentira e, consequentemente, a favor da elevação da verdade. Neste particular, talvez o mandamento mais acutilante seja o 8.º: “não levantar falsos testemunhos”! Em última instância, as fake news do nosso tempo não passam disso mesmo. É como se houvesse, também nos dias de hoje, um despudor absoluto pelo “falso testemunho”, digamos assim. Por vezes, temos a sensação que vivemos num mundo onde proliferam, em vários contextos, os aduladores da mentira.
Se adentrarmos, agora, na Idade Média (Séc. V – Séc. XIV), as fake news são o instrumento privilegiado de uma Igreja Católica que, durante esse período, especialmente na europa, é dominante (detinha o poder político, cultural e económico). Os seus representantes, para manter esse poder, garantir as inúmeras mordomias, justificar a sua imprescindibilidade social e a superioridade moral, difundem o medo, ameaçavam com a mentira do castigo divino; que este seria implacável para quem ousasse pôr em causa a sua autoridade e não tivesse, perante eles, um comportamento de servilismo e de absoluta obediência. Difundiam, sobretudo por conveniência própria, a imagem de um Deus castigador e vingativo. E para os que prevaricam ou põem em causa a doutrina da mentira (suposta verdade para os ilustres representantes de Deus), está reservada a punição, a tortura, a perseguição, a morte. As vítimas foram muitas, e alguns casos são sobejamente conhecidos. O dogmatismo absoluto, fundamentado numa enviesada e egoísta interpretação da lei divina, era a arma privilegiada para punir, mas também para sustentar e difundir a mentira. Nem sequer é preciso falar das famigeradas cruzadas: um promíscuo, execrável e inconcebível vínculo entre a espada e a cruz. Nos nossos dias, esta irracional aliança continua a ser uma prática defendida por outros credos religiosos. Na política também temos quem propague essa insana aliança.
Embora tenhamos de salvaguardar sempre as pessoas que, mesmo na altura, pugnavam pela verdade, a Idade Média foi particularmente pródiga na propagação da mentira (uma época atulhada em fake news).
Chegamos ao Renascimento (sensivelmente entre os séculos XIV e XVI). Esta época desperta para uma cultura de esplendor cultural nas suas diferentes formas, designadamente nos domínios da arte, da filosofia e do conhecimento científico; há uma rutura epistemológica com o período precedente; as vias da razão e da experiência na procura da verdade assumem particular relevância, tendo natural impacto na conceção da sociedade, da religião, da economia e do próprio conhecimento. Por outro lado, o centro do universo deixou de ser Deus e passou a ser o próprio homem, razão pela qual este período é apodado também de humanista. Por isso se diz, que se passou do teocentrismo (na Idade Medieval) para o antropocentrismo (no Renascimento). É uma época de otimismo antropológico, de confiança no homem, enquanto ser criativo e capaz de construir o seu percurso. Uma época que recupera a filosofia clássica como determinante para o desenvolvimento integral do ser humano; é o despontar de outra dimensão espiritual que está longe do espiritualismo atávico da Idade Medieval. Esta pequeníssima e simbólica referência ao Renascimento serve apenas para termos uma ideia de como é possível lutar contra as fake news, desde que tenhamos a ousadia de pôr em prática o espírito crítico; se acreditarmos no progresso da humanidade. Só dessa forma podemos construir uma vida mais consentânea com a dignidade do homem. A afirmação do pensamento crítico e a convicção de que a verdade é um valor que se deve sobrepor à mentira, condicionam, decisivamente, a propagação de fake news.
Um pouco mais tarde, surgirá o Iluminismo (a partir do Séc. XVII), marcado especialmente pela influência do conhecimento científico que vem do período anterior (o Renascimento), bem como pela filosofia e pela assunção de ideias determinantes, como a liberdade, a fraternidade, a igualdade. Um período, portanto, que acalenta a esperança num mundo melhor e na descoberta da verdade como um caminho assumidamente humano. Ou seja: um tempo que continua a dificultar a produção de fake news, pois a preocupação era desbravar caminho para a construção de uma sociedade mais justa, lutando contra qualquer tipo de preconceito que pudesse obstruir a liberdade, o conhecimento crítico, a diversidade cultural, a defesa da dignidade do ser humano.
Sem nos alongarmos muito na História, vamos dar um salto para os finais do Séc. XIX, princípios do Séc. XX, vindo mesmo até aos nossos dias, sobretudo para constatarmos que as luzes se apagaram, e se desceu a um mundo cavernoso. No período que antecede a II Guerra Mundial, foram as fake news, concretamente na Alemanha, que contribuíram decisivamente para a ascensão de Hitler ao poder.
As razões históricas, ligadas especialmente à saída fragilizada da Alemanha da I Guerra Mundial, nomeadamente no plano económico, não explicam totalmente a subida de Hitler ao poder. Esta ficou marcada, de facto, pela difusão de notícias ou informações falsas sobre um povo que estava integrado naquele país, e que apesar da conjuntura económica pouco favorável, conseguiu algum êxito.
Hitler, através de uma propaganda antissemita, contribui para infundir ódio, inveja e medo no povo alemão, em relação aos judeus. Isso, aliado à sua visão obstinadamente expansionista, como forma de catapultar a Alemanha para uma supremacia mundial, devolveu-lhe o que ele mais almejava: o poder absoluto outorgado pelo próprio povo. No fundo, a fragilidade, a desorientação, a inquietação, o medo de um povo, são fertilizantes poderosos para que alguns desencadeiem, estrategicamente, um “ataque” de fake news. A Alemanha, naquele tempo, foi um exemplo paradigmático de como as notícias ou informações falsas podem ter grande impacto nas decisões e nos comportamentos das pessoas, mas também na ascensão do fundamentalismo.
E hoje?
Trago aqui, para começar, a escritora norte-americana Michiko Kakutani que, numa das páginas do seu livro, A Morte da Verdade, cita Joker, no filme o Cavaleiro das Trevas: “Introduzir um pouco de anarquia. Perturbar a ordem vigente e tudo se torna um caos. Sou um agente do caos.”
A grande marca da contemporaneidade não deixa de ser, de facto, um certo caos. Com efeito, as instituições democráticas que deviam garantir a ordem, a justiça, o bem-estar, estão desacreditadas, fragilizadas e, grosso modo, as pessoas deixaram de depositar confiança ou esperança nelas.
O Estado de Direito parece ruir, incapaz de contornar a onda do populismo crescente e dos radicalismos ou fundamentalismos de direita e de esquerda que se vão impondo, em grande parte, pela via de fake news: o caos facilita a difusão do medo injustificado, a profusão de anúncios visando mudanças radicais que, de forma capciosa, parecem ir ao encontro das expetativas das pessoas. Mas, para evitar os fundamentalismos, urge que a democracia reassuma a sua verdadeira essência humanista, pelejando pela defesa acérrima e incondicional da dignidade humana; que restaure a confiança das pessoas nas instituições que devem garantir, sem equívocos, a justiça, bem como os direitos e os deveres de cada cidadão.
Por enquanto, a realidade, hoje, é esta: as pessoas sentem-se inseguras, pressionadas, inquietas, ansiosas, perdidas e com medo. O processo de aceleração da vida é alucinante não dando espaço para a reflexão, para a pausa, para a libertação do trabalho que assume uma prepotente presença nas nossas vidas. Todos vamos deambulando minados por um ceticismo que nos inibe de sonhar, de olhar para o futuro com confiança. Exatamente o mesmo ceticismo que nos impede de, com serenidade, sentir o aroma da amizade, da escuta ativa de nós próprios, da escuta “hospitaleira”, da convivência tátil; de dar importância ao essencial em detrimento do acessório; de vaguear com tranquilidade; de desenvolver e consolidar “laços de compromissos”; de nos tornarmos, enfim, peregrinos ou atores de objetivos e de tarefas significativas e perduráveis; de gozarmos a dimensão contemplativa da vida: “À falta de sossego, a nossa civilização desemboca numa nova barbárie: Em nenhuma época foram mais cotados os ativos – quer dizer, os desassossegados. Entre as correções necessárias que devem introduzir-se no caráter da humanidade, conta-se, (…) uma ampla medida de fortalecimento do elemento contemplativo.” (F. Nietzsche, citado por BYung – Chul Han).
Num mundo apressado e desassossegado a probabilidade de êxito das fake news é grande. Também o excesso de informação, via online, contribui para nos causar embaraço na sua seleção e análise crítica, dificultando-nos a distinção entre o que é falso e o que é verdadeiro. O grande caudal de informação leva a que muitas fake news sejam por nós mais facilmente acolhidas como verdadeiras, influenciando-nos em várias dimensões da vida.
O perigo da “desinformação online” (por vezes bem aformoseada) é, efetivamente, altíssimo. Paralelamente, nas redes sociais, assiste-se, com frequência, ao exaltar de paixões que descambam, não raras vezes, em insultos e em grosseria verbal gratuita, minando qualquer possibilidade de uma cultura de diálogo assente na ponderação racional e no respeito pela opinião do outro. A este respeito, gostaria, para ajudar a corroborar o que se acaba de dizer, de recorrer a Byung- Chul Han, que designa aquele tipo de discussão, de shitstorms! O tradutor, em nota de rodapé, interpreta literalmente a expressão como “tempestades de merda”. Todos sabemos que este tipo de “tempestades” ocorre também noutros meios de comunicação como, por exemplo, na TV. Quem nunca viu alguns programas de televisão sobre desporto, ou até, no âmbito da política? Para mim, e sem querer questionar a legitimidade da expressão do autor, essas discussões parecem-me, por vezes, uma versão menos ortodoxa de fake news; resultam de um “ego patologicamente hipertrofiado”, outra expressão utilizada pelo mesmo autor no seu livro - “A Expulsão do Outro”.
Também nos últimos tempos emerge, como natural, o relativismo exacerbado que vai gerando uma tendência para a “normatização” do anormal, para a relativização de valores fundamentais, contribuindo para uma maior desestabilização e desorientação existenciais. E sem âncoras éticas, sem balizas morais, ficamos mais expostos à influência das fake news. De facto, desregulam-se, estrategicamente, fronteiras morais e éticas, suavizam-se hierarquias e conceitos de géneros, desmantelam-se limites.
As redes sociais têm sido, no nosso tempo, um veículo privilegiado de propagação de fake news: é o seu vomitório preferencial. São, sem dúvida, um instrumento que facilita a rapidez desse tipo de informação ou notícia, atinge um número infinito de pessoas em todo o mundo, tendo ainda a vantagem de poder contar com cada um de nós para as replicar. Ou seja: se não tivermos o cuidado de fazer a triagem das notícias que nos levantam suspeitas, podemos, através da réplica da partilha, estar a contribuir para as tornar “credíveis”. Esse é, aliás, um dos efeitos esperados de quem fabrica as fake news. Claro que nem sempre é fácil perceber se se trata, ou não, de fake news; só a nossa permanente vigilância pode ajudar a evitar que sejamos enganados, ludibriados; que sejamos vítimas da clara intenção de narcotizar a nossa capacidade de reflexão crítica.
Quem lê o livro – “1984”, de G. Orwell, percebe que as redes sociais têm o now how para, sub-repticiamente, replicar o mundo descrito nessa obra: aqui, o homem, para além de ser permanentemente vigiado, é vítima do pensamento único, barbaramente subjugado, esvaziado da sua essência, da sua liberdade: “ … escravos absolutamente dedicados, incapazes de pôr em causa o que quer que fosse." As fake news instalam-se como se de verdades absolutas se tratasse. A inversão de valores é uma realidade passiva e acriticamente aceite: “Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão”, “ Ignorância é Força”. E os que tinham a ousadia de pôr em causa aquelas máximas eram ignominiosamente perseguidos e condenados à tortura ou à morte; eram considerados “crimepensantes”! Pensar-se-á que é um exagero, ou até um pessimismo infundado, mas na atualidade, o perigo que acabámos de descrever, está ao virar da esquina.
Finalmente, não esqueçamos que cada um de nós pode sentir-se tentado, por motivos fúteis, a disseminar falsas informações ou, então, ser vítima delas. Em diferentes contextos do nosso quotidiano há sempre o perigo de alguém, por desespero, inveja, ambição, ou simplesmente pelo prazer de nos prejudicar, tornar-nos um alvo apetecível de fake news.
Na esperança de que os mais sensíveis não se sintam ofendidos, permita-se-me que termine com a pequena obscenidade inicial. Sem descurar a atenção permanente que as fake news exigem, há alturas que talvez devamos optar por desabafar, preferencialmente, baixinho: f**k the fake news! São apenas trocadilhos do meu contentamento! Só do meu?!
Jota Eme