Como ponto prévio, começaríamos por recordar que a palavra “polis”, na sua origem latina significa “cidade”. Na antiguidade grega a polis, também designada de “cidade-estado”, gozava de autonomia socioeconómica e política, tendo um governo próprio constituído pelos cidadãos livres.
A pretensão da Arábia Saudita em construir, de raiz, uma cidade megalómana, dotada de, entre outras aspetos, alta tecnologia, suscitou-nos alguma curiosidade. Razões? Vamos ver.
A megalópolis saudita também aspira a ser um pouco uma espécie de cidade independente no reino saudita; uma versão “digitalizada” do modelo da cidade-estado grega. Talvez algo análogo (com nuances, naturalmente) ao que já vemos, hoje, na China: um país, dois sistemas!
Neom, assim se irá chamar a putativa cidade, será, pois, a nova metrópole do futuro, situada no Reino da Arábia Saudita. De acordo com as pesquisas que fomos fazendo, trata-se de um megaprojeto que albergará um milhão de “almas” e terá 170 km de comprimento. É trinta e tal vezes maior que Nova York e tem uma dimensão idêntica ao território da Bélgica.
A Arábia Saudita é um dos principais exportadores de petróleo a nível mundial. Todavia, como se sabe, o petróleo pode vir, a médio prazo, a perder fulgor no desenvolvimento da economia global, que se quer cada vez mais “amiga” do ambiente e, por isso, menos dependente de combustíveis fósseis.
Consciente da sua dependência económica do petróleo, o reino da Arábia Saudita pretende, com o megaprojeto, diminuir a sua dependência económica daquele combustível e, consequentemente, diversificar as suas fontes de receita. Mas não só.
A futura cidade saudita erguer-se-á numa zona do reino cujos recursos são, essencialmente, o mar, a montanha, o vento e o sol. A temperatura, dizem, é, em média, 10.ºC inferior ao que acontece no resto do país. Menos mau!
A ambição para esta cidade é tão grande que se espera vir a suplantar outras cidades ou regiões conhecidas pela sua especial magnitude em determinadas áreas, nomeadamente no turismo, no lazer/entretenimento e nas áreas digital e tecnológica. Neste último caso, ultrapassará, assim o vaticinam, os que estão ligados ao projeto, outra grande metrópole - Silicon Valley, nos EUA.
Os grandes especialistas mundiais, individualmente considerados ou a nível dos grupos empresariais, serão os convidados responsáveis por erguer a urbe! Estarão representados os experts nas diversas áreas da ciência, das tecnologias, da construção e da arquitetura, da indústria alimentar, da justiça, da energia, do lazer, da saúde. Tudo para que nada falte aos eleitos - os “neomians”, futuros habitantes de Neom, e também aos turistas, que depois de passar a pandemia, hão de lá chegar! E não vai ser para qualquer turista! Não o disse o príncipe do reino, mas dizemos nós!
A imagem de marca da cidade será, em última instância, a sua áurea futurista, inteligente, a ubiquidade e autonomia das tecnologias; onde tudo e todos estarão digitalmente conectados; onde cada um dos habitantes terá o seu comportamento monitorizado; todos terão uma espécie de irmão gémeo digital que assumirá o comando da conduta de cada um; faz, inclusivamente, a monitorização regular das tarefas domésticas, do desporto que se pratica, do sono, da dieta alimentar, do estado de saúde, como se o fim o último fosse fazer-nos acreditar na imortalidade.
Pretensiosamente pioneiros nas mais diversas áreas do saber, da ciência e da tecnologia, os sauditas pretendem que Neom seja, provavelmente, uma cidade de inovação para vender ao mundo; será uma cidade onde as empresas das novas tecnologias terão campo aberto, sem limite, para progredirem e se exibirem no seu campo de investigação; para promoverem os artefactos da vigilância. Também pretendem estar na vanguarda da engenharia genética, uma área com inúmeras potencialidades.
Na “cidade-estado” de Neom, a máxima parece ser apenas uma: na vida não há lugar ao mistério! Não há incertezas! Tudo é visível e previsível. O mesmo é dizer que o lucro imediato não é compatível com a espera, com a paciência, com zonas dúbias. Tudo o que não seja superficial e imediatamente compreendido deixa de ter interesse e sentido. Constatamos já isso nas tendências do “like” nas redes sociais; é manifesta a pouca paciência para o diferente, para o que nos convide a pensar um pouco! É tão evidente! Também é expectável, na grande cidade, que não haja lugar para emoções negativas: inveja, ódio, angústia, tédio, nostalgia, tristeza. A felicidade é, aqui, sinónimo de hedonismo e utilitarismo. As nossas escolhas titubeantes e participação refletida podem ser um obstáculo ao capitalismo da vigilância. A autonomia, a que consideramos intrinsecamente humana, perder-se-á, implacavelmente, na colmeia digital; como se uma outra autonomia (tecnológica) se sobrepusesse e assumisse o comando das nossas vidas.
O “capitalismo digital” encontrará em Neom o terreno fértil para, através das novas tecnologias, fazer experiências de um controlo e vigilância cada vez mais eficazes do nosso comportamento; para saber tudo sobre nós. Talvez o livro “1984”de George Orwell, nunca estivesse tão perto, em Neom, de deixar de ser ficção. Vale a pena reler a narrativa de Orwell para o confirmar! Estamos, definitivamente, na era do capitalismo da vigilância. Os nossos comportamentos transformar-se-ão em dados que, por seu turno, serão vendidos a múltiplos serviços: seguros (automóvel, de vida), bancos, empresas, etc.
A partir dos comportamentos convertíveis em dados, os habitantes da cidade de Neom terão direito a assistência digital; terão a garantia, por essa via, de que as suas tarefas serão facilitadas, a sua saúde será permanentemente vigiada, as suas preocupações quotidianas serão minimizadas e, por isso, mesmo monitorizados e controlados, sentir-se-ão, acredita-se, mais felizes!
O príncipe herdeiro do reino, Mohammad bin Salman (MBS) anunciou, orgulhosamente, o seu megaprojeto como se fosse o novo futuro: uma região sem poluição (0% de CO2), o recurso pleno a energias renováveis, com planos para a “dessalinização” da água, sem estradas e sem automóveis, com excelentes centros de investigação; uma megacidade com normas jurídicas e regras próprias, na sua essência, semelhantes às do mundo ocidental; onde, em última instância, os seres humanos serão servidos (ou governados?) por uma “inteligência tecnológica” (sensores, câmaras de vigilância, drones, GPS, reconhecimento facial, entre outros “artefactos”, em prol, já se sabe, do capitalismo da vigilância).
Claro que o investimento numa cidade que tem a pretensão de vir a ser o berço de uma “revolução civilizacional”, cujo foco e motor do seu desenvolvimento são as tecnologias da inteligência artificial, só pode ter um custo avaliado em biliões de dólares. Há a promessa de que o megaprojeto implicará alguns milhares de empregos. Resta saber se, como aconteceu no Catar com a construção de Estádios e de outras infraestruturas para o campeonato do mundo de futebol a realizar em 2022, os trabalhadores (oriundos de outros países da região) não serão despudoradamente explorados e privados de direitos fundamentais (saúde e habitação, por exemplo).
Mas estaremos perante a urgência e a inevitabilidade de um megaprojeto que a Arábia Saudita quer pôr em marcha? A nossa resposta é negativa.
Este megaprojeto demonstra, acima de tudo, que se trata de um projeto elitista e para elitistas; que visa criar uma indústria da felicidade! Depois, ajuda a confirmar uma tendência global de relegar para último plano os mais carenciados (sejam as pessoas individualmente consideradas, ou os países com mais dificuldades no seu desenvolvimento). Tardamos em ultrapassar a globalização da indiferença perante os espoliados de direitos fundamentais; entrámos numa espiral de quase negacionismo da pobreza que continua a grassar por esse mundo fora, do desperdício descarado, da falta de equidade, das pessoas que são cruel e injustamente perseguidas, do sofrimento de todo o género de que alguns são recorrentemente vítimas, especialmente as minorias étnicas e religiosas, as crianças e as pessoas de idade.
A Arábia Saudita está, há algum tempo, presente na guerra do Iémen, contribuindo, com as armas que lhe vendem os seus principais aliados ocidentais, para a destruição das principais infraestruturas daquele pobre país; para a subnutrição e morte da sua população, com maior repercussão nas crianças e nas pessoas de idade. O Iémen vive, aliás, uma situação globalmente caótica. Teme-se, inclusivamente, fome massiva naquele país, agravada, nos últimos tempos, com a Covid-19. E, entretanto, a Arábia Saudita pensa e prioriza, tranquilamente, o seu megaprojeto! Com a conveniência e solidariedade de quem?! Dos países ocidentais, dos que se dizem democráticos e defensores dos direitos humanos, mas que adoram dólares!
A Arábia Saudita, um país de regime fundamentalista e teocrático, apesar de ter introduzido, recentemente, algumas alterações positivas no âmbito dos direitos das mulheres, continua, na essência, a ter uma postura manifestamente misógina. Segundo a Amnistia Internacional, existem pessoas presas e torturadas por defenderem os direitos humanos, designadamente mulheres. Não existem as liberdades de expressão, política ou religiosa. Ainda não há muito tempo, os governates do país foram acusados de serem responsáveis pelo assassínio, na embaixada saudita em Istambul, de um jornalista seu concidadão a residir nos EUA. Apesar das evidências daquela responsabilidade, não se conheceu qualquer tipo de sanção imposta ao “Reino”, concretamente por iniciativa dos autoproclamados países defensores das liberdades e dos direitos humanos.
Em suma, o megaprojeto saudita, com o apoio de alguns países ocidentais, é o exemplo da indiferença perante as grandes injustiças que grassam pelo mundo; é o exemplo paradigmático da falta de megaprojetos que priorizem soluções capazes de promover a “ideologia” e práticas de valores como a justiça, a igualdade e a liberdade de todas as pessoas e nações; da ausência de um compromisso transnacional, cujo objetivo principal seja a defesa dos mais vulneráveis, a promoção do desenvolvimento e respeito pela pessoa integral. Será este um projeto exequível?! Sabemos das dificuldades, naturalmente.
Julgámos ter encontrado, a propósito da imperiosidade de um projeto global de cariz radicalmente humano, na Carta Encíclica- Fratelli Tutti, do Papa Francisco, algo com o qual nos identificamos. Diz, então, Sua Santidade, notando-se-lhe nas suas palavras algum pesar: “Hoje, um projeto com grandes objetivos para o desenvolvimento de toda a Humanidade soa como um delírio.” Embora se perceba o significado e alcance das palavras do Papa, pensamos que o delírio está, justamente, do lado daqueles que programam projetos megalómanos cujo foco está exclusiva e egoisticamente no lucro; que se fundamentam numa lógica puramente cumulativa; cuja meta, pela via do algoritmo, é a implantação do totalitarismo, especialmente consubstanciado num cada vez maior controlo e vigilância. Compete-nos a nós contrariar esta tendência. Ainda vamos a tempo.
JOTA EME