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Bricolage da Escrita

Bricolage da Escrita

O blá-blá-blá do costume

Tentei, para mim,  fazer um breve exercício mental do que diria sobre estas eleições. Quis dar-lhe, no entanto,  expressão escrita.  Resultou no que se segue. 

Munidos de micro, sob a luz da câmara, aí estão os nossos jornalistas para dar início a um ritual que se repete ciclicamente. É vê-los, quase frenéticos, junto às filas dos que civicamente cumprem o seu direito, para perguntarem, quase sempre, o óbvio; perseguem, até à entrada da sua casa, o candidato que ganhou (previsivelmente) estas eleições. É-lhe perguntado, inclusivamente, o que jantou! Por amor de Deus! Nem tudo vale para se ser lider de audiências!

Entretanto, vão desfilando, na TV, quais manequins habituados aos palcos, os que foram candidatos ao mais alto cargo da Nação. Os discursos de circunstância sucedem-se; os indefetíveis apoiantes também têm direito a palco, aplaudindo, a maior parte das vezes, entusiasticamente, os seus candidatos. Nesta altura - também já estamos habituados - todos, sem exceção, apresentam pretensos argumentos, quase sempre confrangedores, para justificarem a sua indiscutível e estrondosa vitória. Querem-nos fazer crer que derrota é sinónimo de vitória! Também começa a esgotar-se a paciência para esta falta de honestidade política.

Na TV, em catadupa, sucedem-se os gráficos, os mapas pintados a cores, as reflexões apressadas, os comentários exageradamente repetidos. Em todos os canais da TV, o cenário é o mesmo: tudo nos soa a uma cacofonia interminável, da qual, por bem que nos esforcemos, não conseguimos extrair nada de particularmente relevante; apenas se vai depreendendo que o André Ventura - aquele que repudiamos, com exceção do tal meio milhão de votantes -, monopoliza, em absoluto e absurdamente, os debates (ou pseudodebates?) pós-eleição.

Andamos durante ciclos de quatro ou de cinco anos a criticar a inabilidade da ação política e socioeconómica   de quem tem responsabilidades na gestão do país. Insurgimo-nos contra a corrupção, a má gestão dos dinheiros públicos, a crise na justiça, na saúde, na educação, a falta de equidade social, o excesso dos impostos, etc. No entanto, no dia pós-eleições, o problema fulcral resume-se, pasme-se, a André Ventura!

Todos os debates e preocupações giram em torno do “homenzinho”: a obtenção do seu terceiro lugar, por exemplo. Ou, então, debate-se a falta de apoios daqui e de acolá, deste ou daquele, como se a visibilidade política de Ventura dependesse desse motivo.  E tudo foi ofuscando, um dos temas que, esse sim, nos deveria merecer especial atenção: a elevada percentagem da abstenção. Absurda. Mesmo tendo em consideração os condicionalismos impostos pela Covid-19.

Não podemos, nem devemos deixar que continuem, seja quem for,  a ludibriar-nos. A constante descredibilização dos políticos e a podridão do sistema a que temos vindo a assistir, só podem descambar no aparecimento de oportunistas como André Ventura. Esse é o problema de agora e de sempre. Lamentavelmente, claro.  E era isto que deveríamos, todos, estar a discutir. Não só agora, mas regularmente. Devíamos, inclusivamente, estar a refletir as razões pelas quais os candidatos, em geral, não ousaram apresentar caminhos assertivamente concretos, prioridades e alternativas (dentro das suas competências, claro) capazes de esmagar os populistas como  André Ventura.

Sejamos honestos: os motivos do aparecimento dos “messias populistas” são da nossa inteira e exclusiva responsabilidade; resultam da nossa demissão em, de forma regular, monitorizar a ação política; da carência de uma oposição política interventiva e intencionalmente construtiva; da partidarização das soluções, em vez de consensos alargados em prol do bem comum e do país.

Mais do que girar em torno do Ventura, é imperioso que todas as forças políticas democráticas (da esquerda e de direita), através de uma séria e honesta autocritica permanentes, se tornem, aos olhos dos cidadãos, cada vez mais, como opções verdadeiramente credíveis. Esse pode ser um dos caminhos para diminuir a abstenção e travar o avanço dos extremismos. Caso contrário, nas próximas eleições legislativas, cá estaremos a debater o mesmo, com os mesmos argumentos e os protagonistas de sempre. Ou, ainda, pior: surpreendidos com o governo de direita viabilizado pela participação do CHEGA.

 

JOTA EME

 

A Megalópolis Saudita

Como ponto prévio, começaríamos por recordar que a palavra “polis”, na sua origem latina significa “cidade”. Na antiguidade grega a polis, também designada de “cidade-estado”, gozava de autonomia socioeconómica e política, tendo um governo próprio constituído pelos cidadãos livres.

A pretensão da Arábia Saudita em construir, de raiz, uma cidade megalómana, dotada de, entre outras aspetos, alta tecnologia, suscitou-nos alguma curiosidade. Razões? Vamos ver. 

A megalópolis saudita também aspira a ser um pouco uma espécie de cidade independente no reino saudita; uma versão “digitalizada” do modelo da cidade-estado grega. Talvez algo análogo (com nuances, naturalmente) ao que já vemos, hoje, na China: um país, dois sistemas!

Neom, assim se irá chamar a putativa cidade, será, pois, a nova metrópole do futuro, situada no Reino da Arábia Saudita. De acordo com as pesquisas que fomos fazendo, trata-se de um megaprojeto que albergará um milhão de “almas” e terá 170 km de comprimento. É trinta e tal vezes maior que Nova York e tem uma dimensão idêntica ao território da Bélgica.

 A Arábia Saudita é um dos principais exportadores de petróleo a nível mundial. Todavia, como se sabe, o petróleo pode vir, a médio prazo, a perder fulgor no desenvolvimento da economia global, que se quer cada vez mais “amiga” do ambiente e, por isso, menos dependente de combustíveis fósseis.

Consciente da sua dependência económica do petróleo, o reino da Arábia Saudita pretende, com o megaprojeto, diminuir a sua dependência económica daquele combustível e, consequentemente, diversificar as suas fontes de receita. Mas não só.

A futura cidade saudita erguer-se-á numa zona do reino cujos recursos são, essencialmente, o mar, a montanha, o vento e o sol. A temperatura, dizem, é, em média, 10.ºC inferior ao que acontece no resto do país. Menos mau!

A ambição para esta cidade é tão grande que se espera vir a suplantar outras cidades ou regiões conhecidas pela sua especial magnitude em determinadas áreas, nomeadamente no turismo, no lazer/entretenimento e nas áreas digital e tecnológica. Neste último caso, ultrapassará, assim o vaticinam, os que estão ligados ao projeto, outra grande metrópole - Silicon Valley, nos EUA.

Os grandes especialistas mundiais, individualmente considerados ou a nível dos grupos empresariais, serão os convidados responsáveis por erguer a urbe! Estarão representados os experts nas diversas áreas da ciência, das tecnologias, da construção e da arquitetura, da indústria alimentar, da justiça, da energia, do lazer, da saúde. Tudo para que nada falte aos eleitos - os “neomians”, futuros habitantes de Neom, e também aos turistas, que depois de passar a pandemia, hão de lá chegar! E não vai ser para qualquer turista! Não o disse o príncipe do reino, mas dizemos nós!

A imagem de marca da cidade será, em última instância, a sua áurea futurista, inteligente, a ubiquidade e autonomia das tecnologias; onde tudo e todos estarão digitalmente conectados; onde cada um dos habitantes terá o seu comportamento monitorizado; todos terão uma espécie de irmão gémeo digital que assumirá o comando da conduta de cada um; faz, inclusivamente, a monitorização regular das tarefas domésticas, do desporto que se pratica, do sono, da dieta alimentar, do estado de saúde, como se o fim o último fosse fazer-nos acreditar na imortalidade.  

Pretensiosamente pioneiros nas mais diversas áreas do saber, da ciência e da tecnologia, os sauditas pretendem que Neom seja, provavelmente, uma cidade de inovação para vender ao mundo; será uma cidade onde as empresas das novas tecnologias terão campo aberto, sem limite, para progredirem e se exibirem no seu campo de investigação; para promoverem os artefactos da vigilância. Também pretendem estar na vanguarda da engenharia genética, uma área com inúmeras potencialidades.  

Na “cidade-estado” de Neom, a máxima parece ser apenas uma: na vida não há lugar ao mistério! Não há incertezas! Tudo é visível e previsível. O mesmo é dizer que o lucro imediato não é compatível com a espera, com a paciência, com zonas dúbias. Tudo o que não seja superficial e imediatamente compreendido deixa de ter interesse e sentido.  Constatamos já isso nas tendências do “like” nas redes sociais; é manifesta a pouca paciência para o diferente, para o que nos convide a pensar um pouco! É tão evidente!  Também é expectável, na grande cidade, que não haja lugar para emoções negativas: inveja, ódio, angústia, tédio, nostalgia, tristeza. A felicidade é, aqui, sinónimo de hedonismo e utilitarismo. As nossas escolhas titubeantes e participação refletida podem ser um obstáculo ao capitalismo da vigilância. A autonomia, a que consideramos intrinsecamente humana, perder-se-á, implacavelmente, na colmeia digital; como se uma outra autonomia (tecnológica) se sobrepusesse e assumisse o comando das nossas vidas.

 O “capitalismo digital” encontrará em Neom o terreno fértil para, através das novas tecnologias, fazer experiências de um controlo e vigilância cada vez mais eficazes do nosso comportamento; para saber tudo sobre nós. Talvez o livro “1984”de George Orwell, nunca estivesse tão perto, em Neom, de deixar de ser ficção. Vale a pena reler a narrativa de Orwell para o confirmar! Estamos, definitivamente, na era do capitalismo da vigilância. Os nossos comportamentos transformar-se-ão em dados que, por seu turno, serão vendidos a múltiplos serviços: seguros (automóvel, de vida), bancos, empresas, etc.

A partir dos comportamentos convertíveis em dados, os habitantes da cidade de Neom terão direito a assistência digital; terão a garantia, por essa via, de que as suas tarefas serão facilitadas, a sua saúde será permanentemente vigiada, as suas preocupações quotidianas serão minimizadas e, por isso, mesmo monitorizados e controlados, sentir-se-ão, acredita-se, mais felizes!

O príncipe herdeiro do reino, Mohammad bin Salman (MBS) anunciou, orgulhosamente, o seu megaprojeto como se fosse o novo futuro: uma região sem poluição (0% de CO2), o recurso pleno a energias renováveis, com planos para a “dessalinização” da água, sem estradas e sem automóveis, com excelentes centros de investigação;  uma megacidade com normas jurídicas e regras próprias, na sua essência, semelhantes às do mundo ocidental;  onde, em última instância, os seres humanos serão servidos (ou governados?) por uma “inteligência tecnológica” (sensores, câmaras de vigilância, drones, GPS, reconhecimento facial, entre outros “artefactos”, em prol, já se sabe, do capitalismo da vigilância).

Claro que o investimento numa cidade que tem a pretensão de vir a ser o berço de uma “revolução civilizacional”, cujo foco e motor do seu desenvolvimento são as tecnologias da inteligência artificial, só pode ter um custo avaliado em biliões de dólares.  Há a promessa de que o megaprojeto implicará alguns milhares de empregos. Resta saber se, como aconteceu no Catar com a construção de Estádios e de outras infraestruturas para o campeonato do mundo de futebol a realizar em 2022, os trabalhadores (oriundos de outros países da região) não serão despudoradamente explorados e privados de direitos fundamentais (saúde e habitação, por exemplo). 

Mas estaremos perante a urgência e a inevitabilidade de um megaprojeto que a Arábia Saudita quer pôr em marcha? A nossa resposta é negativa.

Este megaprojeto demonstra, acima de tudo, que se trata de um projeto elitista e para elitistas; que visa criar uma indústria da felicidade! Depois, ajuda a confirmar uma tendência global de relegar para último plano os mais carenciados (sejam as pessoas individualmente consideradas, ou os países com mais dificuldades no seu desenvolvimento). Tardamos em ultrapassar a globalização da indiferença perante os espoliados de direitos fundamentais; entrámos numa espiral de quase negacionismo da pobreza que continua a grassar por esse mundo fora, do desperdício descarado, da falta de equidade, das pessoas que são cruel e injustamente perseguidas, do sofrimento de todo o género de que alguns são recorrentemente vítimas, especialmente as minorias étnicas e religiosas, as crianças e as pessoas de idade.

A Arábia Saudita está, há algum tempo, presente na guerra do Iémen, contribuindo, com as armas que lhe vendem os seus principais aliados ocidentais, para a destruição das principais infraestruturas daquele pobre país; para a subnutrição e morte da sua população, com maior repercussão nas crianças e nas pessoas de idade. O Iémen vive, aliás, uma situação globalmente caótica. Teme-se, inclusivamente, fome massiva naquele país, agravada, nos últimos tempos, com a Covid-19. E, entretanto, a Arábia Saudita pensa e prioriza, tranquilamente, o seu megaprojeto! Com a conveniência e solidariedade de quem?! Dos países ocidentais, dos que se dizem democráticos e defensores dos direitos humanos, mas que adoram dólares!

A Arábia Saudita, um país de regime fundamentalista e teocrático, apesar de ter introduzido, recentemente, algumas alterações positivas no âmbito dos direitos das mulheres, continua, na essência, a ter uma postura manifestamente misógina. Segundo a Amnistia Internacional, existem pessoas presas e torturadas por defenderem os direitos humanos, designadamente mulheres. Não existem as liberdades de expressão, política ou religiosa. Ainda não há muito tempo, os governates do país foram acusados de serem responsáveis pelo assassínio, na embaixada saudita em Istambul, de um jornalista seu concidadão a residir nos EUA. Apesar das evidências daquela responsabilidade, não se conheceu qualquer tipo de sanção imposta ao “Reino”, concretamente por iniciativa dos autoproclamados países defensores das liberdades e dos direitos humanos.

Em suma, o megaprojeto saudita, com o apoio de alguns países ocidentais, é o exemplo da indiferença perante as grandes injustiças que grassam pelo mundo; é o exemplo paradigmático da falta de megaprojetos que priorizem soluções capazes de promover a “ideologia” e práticas de valores como a justiça, a igualdade e a liberdade de todas as pessoas e nações; da ausência de um compromisso transnacional, cujo objetivo principal seja a defesa dos mais vulneráveis,  a  promoção do desenvolvimento e respeito pela pessoa integral. Será este um projeto exequível?! Sabemos das dificuldades, naturalmente.

Julgámos ter encontrado, a propósito da imperiosidade de um projeto global de cariz radicalmente humano, na Carta Encíclica- Fratelli Tutti, do Papa Francisco, algo com o qual nos identificamos. Diz, então, Sua Santidade, notando-se-lhe nas suas palavras algum pesar: “Hoje, um projeto com grandes objetivos para o desenvolvimento de toda a Humanidade soa como um delírio.” Embora se perceba o significado e alcance das palavras do Papa, pensamos que o delírio está, justamente, do lado daqueles que programam projetos megalómanos cujo foco está exclusiva e egoisticamente no lucro; que se fundamentam numa lógica puramente cumulativa; cuja meta, pela via do algoritmo, é a implantação do totalitarismo, especialmente consubstanciado num cada vez maior controlo e vigilância. Compete-nos a nós contrariar esta tendência. Ainda vamos a tempo.

 

JOTA EME

 

O DESPOTISMO DIGITAL

Por altura dos acontecimentos relacionados com o ataque inqualificável e sem precedentes, ao coração dos representantes da democracia dos EUA, mais propriamente dito ao sobejamente conhecido Capitólio, aconteceu, paralelamente, um “fenómeno” especialmente preocupante, merecendo, quanto a nós, uma maior reflexão. Inclusivamete, houve vozes a nível europeu que se pronunciaram publicamente, e bem, sobre o assunto. No entanto, julgamos que o mesmo deveria ser objeto, também, de maior divulgação. Mas como o novo coronavírus monopoliza as preocupações do momento, secundariza-se (por vezes, consciente e estrategicamente), outros assuntos de relevância e interesse para cada um de nós, e, em geral, para a sociedade.   

A que fenómeno, afinal, perguntar-se-á, nos reportamos?!

Todos se recordarão de, por altura da invasão do Capitólio por parte de um bando de energúmenos, o presidente dos EUA, Donald Trump, ter sido bloqueado pelo Twitter, sob o pretexto de que estaria, nessa rede social, a incitar à violência. Parece que o Youtube, com o mesmo pretexto do Twitter, também teria suspendido, por alguns dias, um qualquer vídeo do Presidente. O Facebook teve também a mesma atuação. De qualquer modo, o Twiter por ter sido sempre uma via e/ou meio privilegiado de “atuação” do ainda Presidente dos EUA, merece particular atenção.

Certamente que todos aqueles que preconizam e defendem ideais democráticos, que condenam qualquer tipo de autoritarismo e de populismo tacanho, se indignaram com a postura e ação política de Donald Trump, ao longo de todo o seu mandato. Isso não está em causa. Definitivamente. Trump foi um péssimo exemplo político e, apesar disso, segundo a opinião de alguns analistas políticos, o seu impacto vai, infelizmente, perdurar.

Trump foi considerado, pela adoção de um certo discurso, um dos principais responsáveis pelo incitamento não só à violência expressa, por exemplo, no ataque perpetrado ao Capitólio, como pelo desprezo e desrespeito pela verdade e pelas instituições democráticas. Por isso, a sua conduta é política e eticamente censurável e passível de, em instituições próprias, ser julgada.

Até aqui, não nos parece que haja grandes dúvidas. Já o facto de, na sequência daquele acontecimento, o Twitter ter bloqueado Trump, se nos afigura como um procedimento com laivos de alguma irrazoabilidade.  Diríamos mesmo, que a atitude do Twitter perante Trump, é, até certo ponto, assustadora.  Uma visão mais clarividente, leva-nos a inferir que estas redes funcionam na base de uma lógica de controlo (individual e social) sem qualquer oposição legal ou outra. Quanto a nós, deve ficar claro o seguinte: não é às redes sociais que compete impor limitações à liberdade dos cidadãos: definir o que se pode dizer ou não dizer, o que se pode fazer ou não fazer. 

Se nos deixarmos guiar apenas pelo lado emocional, talvez a tendência imediata seja para concordarmos, sem qualquer hesitação, com a decisão daquelas redes digitais e, até, aplaudir a sua determinação.  Mas teria sido a melhor atitude?  Não teria o Twitter com a sua ação, manifestado inusitado poder e, consequentemente, uma atitude prepotente? Não pode a atuação do Twitter transmitir a sensação de estar acima do poder judicial do próprio país? De que detém, como outras redes sociais, o poder de decidir, sem quaqluer limitação, a conduta de cada um de nós? A resposta, quanto a nós, é afirmativa.

Por outras palavras, diríamos que, à primeira vista, o bloqueio a Trump pode parecer uma ação louvável do Twitter. Contudo, pelo menos quanto a nós, há também, em redor da atuação da rede social, uma nítida operação de "charme", dissimulando a vigilância desmesurada a que todos estamos sujeitos; afinal, tornou-se manifesta, por via daquela ação do Twitter, a facilidade de invasão da nossa privacidade e, essencialmente, a afirmação do poder despótico das redes digitais.  E é isso que está em causa. Mesmo que no nosso íntimo louvemos e apoiemos, no caso de Trump, a atuação do Twitter. 

Associado ao que acabámos de dizer, inferimos que podemos estar perante uma realidade das redes sociais que atuam, cada vez mais, à margem de regras jurídicas de um país; como se houvesse um vazio legal propositadamente facilitador da sua ação. Com efeito, é reconhecida por políticos e especialistas na área do direito, a necessidade urgente de acautelar e defender juridicamente os abusos, designadamente no âmbito da privacidade, que as redes sociais vão impunemente cometendo.

Objetar-se-á que ninguém é obrigado a fazer a adesão ao Twitter ou a outra qualquer rede social. Sim, é verdade. Dir-se-á, ainda, que quando aderimos a qualquer dessas redes, comprometemo-nos e aceitamos, contratualmente, as regras que nos são propostas. Sim, também é verdade. A conclusão, então, pensar-se-á, é simples:  a ação de bloqueio a Trump é perfeitamente legítima. Mas, estaremos nós a fazer uma análise justa e profunda? Arriscaríamos a dizer que talvez não.

A adesão às redes sociais faz-se através daquilo que os juristas designam de “contratos de adesão”. Por serem online, há  quem os apelide de “Click -wrap” (clica-e-adere) ou “ browse-wrap” (passa-os-olhos e adere)! Ora, a rapidez com que assinamos o contrato, sugere, à partida, que não lemos na íntegra as respetivas clausulas, porque a intencionalidade por detrás de tais contratos é mesmo, por conveniência das redes sociais, o desencorajamento da sua leitura. Estamos perante uma atitude de má-fé, então?  Provavelmente, sim. Mas são, ou não, legais esses contratos? Vamos ver.

Responder a esta última questão leva-nos, com efeito, a um outro conceito que surge no livro - "A Era do Capitalismo da Vigilância", de Shoshana Zuboff, o chamado “consentimento relevante”. Recorrendo uma vez mais aos especialistas na área jurídica, e tendo em consideração o que explanámos anteriormente sobre os contratos de adesão às redes sociais, falta-lhes, efetivamente, o tal consentimento relevante. Na ausência deste consentimento colocam-se sérias dúvidas sobre a legalidade e/ou legitimidade de tais contratos.  E se assim é, torna-se questionável, a legalidade e/ou legitimidade de determinadas ações das redes sociais sobre cada um de nós, incluindo a ação perpetrada contra Trump, mesmo tendo sido a conduta do ainda presidente, a todos os títulos, repudiável.

O que pretendemos destacar aqui, é a urgência de os diversos países, de preferência numa ação concertada, instituírem normas jurídicas que protejam a privacidade de cada um de nós, e, simultaneamente, impeçam as redes sociais de fazer “justiça digital” pelas suas próprias mãos. Ninguém deve estar acima da lei, incluindo, naturalmente, as pessoas com altas responsabilidades na atuação das redes sociais.

Permita-se-nos, agora, outras considerações ligadas, de certa forma, ao assunto.

As redes sociais emergem cada vez mais como instrumentos daquilo que a autora americana já referida, Shoshana Zuboff, chama de “capitalismo da vigilância”.

O capitalismo da vigilância afirma-se e confunde-se com as grandes empresas digitais (Google, Facebook, Microsoft, Apple, entre outras). Estas são, cada vez mais, o instrumento privilegiado ao serviço exclusivamente do lucro, sustentado em dados que traduzem os nos nossos comportamentos, a nossa conduta.

Caminhamos a passos largos, para que aquelas empresas aperfeiçoem os mecanismos de previsão dos nossos comportamentos e da sua modificação, sempre em função de interesses exclusivamente económicos. Em muitas situações, o manancial de publicidade que recebemos, sem o solicitarmos, ajuda a fundamentar o imperativo do controlo e a lógica tirânica e gulosa do mercado. A máxima é: prever e modificar os comportamentos para monopolizar, para dominar, para vender! E, curiosamente, somos nós que oferecemos (pela “taxa de cliques”?), a preço de saldo, a matéria-prima ao capitalismo da vigilância que, despoticamente, nos vai dominando a seu bel-prazer.

O recurso, nos humanos, a “tecnologias envergáveis”, como se faz há já algum tempo para estudar, prever e modificar os comportamentos dos animais no habitat natural, será o próximo passo. Tudo em prol do lucro! Há quem vaticine que, por via da construção de uma quase “personalidade digital”, possamos perder a autonomia enquanto seres humanos; possamos perder, enfim, a nossa essência de seres pensantes.

Na apreciação ao livro de Zuboff, na contracapa, é dito, de forma acutilante, que na opinião da autora “estamos numa conjuntura crítica do confronto entre o enorme poder das empresas de alta tecnologia, reforçado pela atual crise pandémica, e as sociedades e os governos democráticos. A questão reside em saber se controlaremos a informação e as máquinas ou se nos deixaremos dominar por elas.”

Shoshana Zuboff, no seu livro, faz alusão, logo no início, a uma pergunta que, numa determinada altura, um jovem gestor lhe teria colocado: “Iremos todos trabalhar para as máquinas inteligentes, ou as máquinas precisarão de pessoas inteligentes para funcionar?”.  A pergunta suscitou-lhe, como a própria reconhece, outras questões às quais procurará, de forma magistral, dar resposta no seu livro. 

Gostaríamos de, até pela sua ubiquidade nas nossas vidas (para o melhor e para o pior), continuar a refletir um pouco mais sobre a temática do mundo digital.  Iremos tentar.

JOTA EME

ASSALTO À VERDADE E À RAZÃO

A campanha para as eleições presidenciais a que temos vindo a assistir, concretamente através dos debates televisivos (entretanto já terminados) entre os diferentes candidatos, tem sido objeto de inúmeras análises em todo o tipo de imprensa (falada e escrita).

Considero que, em geral, as análises que os experts da comunicação social vão produzindo por aí acerca dos debates entre os candidatos são, de algum modo, a consequência de um pensamento dominante que teima em colocar, tendencialmente, o “problema André Ventura” a jusante, quando se deveria colocar o foco na origem, ou seja, nas causas que levam ao aparecimento dos “Andrés Venturas”!

André Ventura consegue protagonismo inusitado porque, entre outros motivos, é produto de um sistema que, por culpa própria, vem perdendo credibilidade e, consequentemente, promovendo a aberração política que ganha já, de certo modo, estatuto pandémico.

Somos, hoje, cada vez mais, confrontados com ondas de posições políticas extremadas (de direita ou de esquerda), proporcionais, talvez, à incapacidade e/ou incompetência dos putativos representantes dos regimes democráticos para responder, sobretudo, aos grandes desafios sociais e económicos.

Sejamos honestos: os Andrés Venturas de Portugal e de outros países são o corolário de uma democracia doente, que privilegia a retórica, egoísta, de acentuado pendor economicista, com muita dificuldade em priorizar o bem comum, em construir e estimular o acolhimento social igualitário, solidário, justo; por vezes, também órfã da verdade.  

Conhecedora da realidade atual, vem emergindo, há algum tempo, em vários países no mundo, uma minoria que, à luz do dia, tem vindo a fazer um autêntico saque à verdade e à razão com a pretensão de se agigantar e de dominar a sociedade nas suas múltiplas vertentes.

Como escrevi noutro pequeno texto, em 2018, vivemos tempos de crise de identidade da democracia. A democracia aburguesou-se redundando na financeirização despudorada da economia, na ganância pelo lucro.  São, deste modo, relegadas para um plano secundário, as soluções e/ou respostas para questões socialmente prementes: o desemprego, a exclusão dos mais desfavorecidos, o fosso, por vezes escandaloso, entre ricos e pobres, a falta de respeito pelas condições básicas de sobrevivência dos povos em diversos pontos do mundo, o atropelamento de direitos humanos essenciais, a promiscuidade crescente entre economia e política.

Se queremos travar o avanço dos extremismos, a estratégia passará, necessariamente, por, entre outros procedimentos: (i) robustecer e defender a transparência das instituições democráticas, levando os cidadãos a confiar nelas; (ii) fomentar, através da “educação”, o espirito crítico, de modo a que, cada vez mais, saibamos distinguir o verdadeiro do falso, para que não nos deixemos manipular, para que não cresça em nós um sentimento de resignação e de derrotismo que os extremismos aproveitam para crescerem; (iii) melhorar, na prática, o desempenho da democracia na defesa intransigente e na garantia dos direitos essenciais dos cidadãos, mas também no cumprimento dos seus deveres.

Temos de acreditar que a democracia é capaz de travar os avanços dos extremismos. Para tal, torna-se imperioso que, através de cada um de nós e, especialmente, através daqueles que politicamente nos representam, a democracia continue empenhada na defesa acérrima de um Estado de Direito, aprimorando, simultaneamente, os mecanismos de defesa da verdade, tendo como principal escopo, a procura, proteção e construção permanentes do bem comum.  Parece simples, mas é uma tarefa exigente.

 

JOTA EME

 

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