ALGUMAS NOTAS REFLEXIVAS
O QUE SE DIZ POR AÍ
Sobre a Experiência Chinesa: ratos grávidos
Diz-se que dois cientistas, sem avaliação dos seus pares, pré-publicaram um artigo sob o título: “Um modelo de gravidez de rato masculino.”
Em termos simples e globais, os cientistas uniram, cirurgicamente, por métodos draconianos, dois animais (um rato macho castrado e uma fêmea grávida) que “partilham a mesma circulação sanguínea” (parabiose). Acresce que o útero é enxertado no macho e, posteriormente, serão para lá transportados embriões…. É dito que a taxa de sucesso de reprodução, por cesariana, no macho, não foi grande, e taxa de sobrevivência das suas crias bastante reduzida. Por outro lado, os ratos machos envolvidos na experiência, embora tivessem sobrevivido por algum tempo, tiveram de ser eutanasiados.
Esta alegada experiência suscita, naturalmente, questões de natureza essencialmente ética, mas também de índole epistemológica. A própria comunidade científica, na sua generalidade, parece não ter acolhido, pacificamente, esta ousadia “científica.”
Há questões, naturalmente, que se colocam. Que interesse (científico ou outro) tem, afinal, este tipo de experiência e/ou projeto? Valerá a pena o sacrifício dos animais? Não farão mais sentido outras investigações que visem, objetivamente, o progresso do conhecimento em áreas fundamentais para a humanidade, nomeadamente de âmbito social, ambiental…?
A divulgação deste acontecimento pseudocientífico (não obedece, ainda, a todos os critérios científicos), pode levar-nos a pensar que, para os cientistas, não há limites.
Desta experiência, inferimos, também, que talvez haja cientistas que necessitam de protagonismo e que, para o efeito, recorram à “ciência-espetáculo”. Esse é um aspeto a considerar, quando somos confrontados com estas “novidades”! A propósito, na história da ciência, houve alegadas descobertas científicas (umas mais recentes, outras menos) que foram, mais tarde, consideradas um verdadeiro logro. Por mera vaidade pessoal, por motivos de pressão económica e/ou social e política são, por vezes, divulgadas “verdades” científicas, que carecem de fundamentos credíveis e rigorosos.
Apesar de tudo, não há motivo, naturalmente, para questionar a importância e fiabilidade do conhecimento científico nos seus diferentes objetos de estudo.
Para terminar, diríamos, ainda, que a experiência em causa (ratos grávidos) não tem, segundo inúmeros especialistas, qualquer viabilidade ou implicação nos seres humanos. E isso dá-nos alguma tranquilidade. Por outro lado, é importante desmistificar a ideia de que a ciência é um conhecimento único, perfeito e absoluto.
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Das Multinacionais a Gerir Lares de Terceira Idade
Por mera coincidência, por altura da reflexão que fazia sobre a solidão, sobretudo como condição existencial que causa desespero e angústia, um flagelo do século XXI, li um artigo que reportava a avidez lucrativa das multinacionais sobre os lares de idosos.
Certamente que a solidão, quando se torna sofrimento, não é propriamente apenas apanágio de pessoas de terceira idade; á extensiva a todas as faixas etárias.
Mas ver nos lares de idosos uma oportunidade de ganhar milhões, um puro negócio, pode potenciar o sentimento da solidão em pessoas, já por si, por vários motivos, vulneráveis. Ou seja, o lucro não é, geralmente, compaginável com a valorização de atitudes e de valores que combatem a solidão: a empatia, a amabilidade, a solidariedade, a amizade. Os cuidadores a quem se exige atitudes humanistas não são, globalmente, recompensados do ponto de vista financeiro.
Tenhamos esperança que não se generalize, em Portugal, um negócio que é mais comum (por enquanto) noutros países da Europa.
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Missas em Latim?!
O Papa Francisco decidiu pôr cobro às missas em latim, uma prática da qual uma minoria de clérigos parece não querer abdicar.
Se, como se espera da religião católica, a palavra de Deus deve ser acessível a todos, não se percebe que alguns ultraconservadores da Igreja Católica queiram fazer da missa um ritual elitista e ininteligível para a esmagadora maioria das pessoas.
Pelo que julgo saber, a missa é a atualização de um momento de especial significado e alcance para os que professam a religião católica: no essencial, trata-se de um encontro único dos apóstolos com Cristo, onde Ele deixa expressa a vontade de que a palavra de Deus seja anunciada a todos os povos da Terra. Não vejo, logo por aqui, que o latim (com todo o respeito por esta língua) possa responder ao desafio que Jesus deixou aos seus apóstolos.
“Sepulcros caiados” chamou Jesus àqueles que valorizavam mais a aparência, neste caso, mais a palavra do que a obra, a prática do bem. Neste caso, os ultraconservadores que defendem o latim como via privilegiada de divulgação dos evangelhos não passam de sepulcros caiados que, no seu interior, escondem a vaidade, a arrogância, a soberba; que estão mais interessados na vaidade linguística (exterior) do que em valorizar a ação exemplarmente pautada por valores cristãos, a única forma não só de viver em Cristo, como a de tornar mais compreensível, junto de todos, a mensagem de Deus. Querem agir como falsos artistas, "pintando" de latim a palavra de Deus, mas agindo como “fétidos” por dentro. Caso para lhes dizer: deixem-se de práticas inúteis e estéreis! Como é vã a vossa fé!
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Covid 19- No Reino da Dinamarca
Enquanto por cá e noutros países da Europa se anunciam, em cada dia que passa, medidas e mais medidas para, supostamente, combater o novo coronavírus e as suas variantes, na Dinamarca, a preocupação é, essencialmente preventiva, testando o maior número de pessoas (vários postos de testagem na cidade) e controlando, com a maior eficácia possível, as cadeias de contágio. Só quem possui o certificado Covid pode desfrutar de uma vida normal. A Dinamarca não anda enredada, como Portugal, em confinamentos ou na redução de contactos, como estratégias pretensiosamente únicas de combate ao novo coronavírus. Pelo contrário: graças à sua política rigorosa de prevenção da Covid 19, a Dinamarca vai paulatina e progressivamente aliviando as medidas restritivas. Por esta altura, os dinamarqueses, excetuando algumas situações muito específicas, já não usam máscara.
Lembrando o filósofo francês Descartes, do que precisamos, nomeadamente dos principais responsáveis políticos, é de ideias claras e distintas que não suscitem dúvidas, mas, sobretudo, digo agora eu, que inspirem confiança e esperança. O que se pretende é que a pandemia não seja pretexto, como por vezes parece, para oportunismos e guerras político-partidárias. O que deve nortear a ação política, à semelhança do que acontece na Dinamarca, é o bem-comum.
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A Normalização do Narcisismo – Bilionários no Espaço
Aí vão eles, os bilionários, cumprir mais um dos seus grandes sonhos: ir, em modo de turismo, ao espaço. Não consigo perceber como num mundo onde as injustiças são gritantes, onde vivemos problemas ambientais particularmente graves e capazes de fazer perigar a humanidade, se priorizam férias no espaço ou se projetam cidades digitais megalómanas como na Arábia Saudita! São ambições de uma minoria de pessoas que concentra em si uma riqueza despudoradamente grande, enquanto tanta gente perece de fome, como é o caso, entre outros, dos povos do sul de Angola, no Iémen e em tantos outros lugares.
Existem bilionários, que são, muitas vezes, os mesmos que enriquecem graças à usurpação, sem pudor, dos recursos naturais que pertencem, frequentemente, a alguns dos povos que vivem na miséria. E, assim, são duplamente espoliados: dos seus recursos e da sua dignidade.
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Sobre as Secas Severas Nalgumas Regiões do Mundo
As secas severas, mas também outras catástrofes naturais como as grandes cheias que estão a acontecer, cada vez mais frequentes e mais duradouras em várias regiões do globo, são a manifestação da ganância desmedida do homem; são uma consequência inequívoca das agressões irresponsáveis do ser humano à natureza.
Sabe-se que, alguns governos, nem sempre ajudam atempada e convenientemente os seus concidadãos que, por motivos climáticos, passam grandes privações, sendo algumas vezes, obrigados a fugir de lugares onde viveram a maior parte das suas vidas. São uma espécie migrantes climáticos.
São as organizações não governamentais (ONG) que, a maior parte das vezes, vão respondendo ao desafio de minimizar os efeitos das grandes catástrofes naturais, acudindo especialmente as populações social e economicamente mais vulneráveis.
Se é certo que devemos ser solidários perante os que mais sofrem, concretamente em situações e/ou contextos imprevisíveis e particularmente adversos, os governos devem também ser, cada vez mais, pressionados a nível interno e internacionalmente, para prestar todo o apoio às suas populações.
Há políticos que, tendo a obrigação legal e moral de proteger, defender e apoiar a sua população se demitem, por incúria, ou por interesses económicos ou outros motivos, de exercer as suas responsabilidades sociais e humanas.
Isso leva-nos, legitimamente, a interrogar-nos se, quando ajudamos os mais desfavorecidos, vítimas essencialmente dos seus próprios governantes, não estaremos a ser, paradoxalmente, solidários com déspotas, contribuindo para os perpetuar no poder e alimentar modos de vida consubstanciados na corrupção, na ostentação e/ou na opulência.
Sem firmeza contra os políticos arrogantes, cruéis, obcecados com o poder, corremos o risco de, com a nossa solidariedade para com os mais necessitados, ser, simultaneamente, “solidários” com quem, afinal, despreza os direitos inalienáveis da pessoa humana, ajudando, por isso, a manter a crueldade e a desumanidade de alguns governantes.
Jota Eme