PARTE - II - ACHATAR A CURVA DA SOLIDÃO – UM DESAFIO PERMANENTE
REFLEXÃO EM TORNO DE POSSÍVEIS SOLUÇÕES
Que desafios se nos colocam para combatermos a solidão? Quais as soluções?
Vou tentar, como prometi no texto anterior, responder a essas questões, consciente de que as respostas não são definitivas, nem únicas. Estas têm, naturalmente, a influência de algumas leituras sobre o assunto, sempre numa perspetiva crítica, designadamente do livro, O Século da Solidão - Como Restaurar as Ligações Humanas, de Noreena Hertz.
Combater a solidão: um esforço de todos
Talvez devamos partir, antes de mais, de um pressuposto básico: o combate à solidão exige esforços e vontades intencionalmente assumidas por cada um de nós, mas também por parte das mais diversas entidades, instituições e governos. Ao mesmo tempo, devemos interiorizar, convictamente, que lutar contra a solidão é contribuir para melhorar não só a qualidade de vida daqueles que diretamente a sofrem, como a de todos nós. E nesse sentido, devemos ajudar a construir um mundo mais solidário.
O sentido de pertença e de integração numa comunidade
É imperioso que, em qualquer circunstância, cada um de nós se sinta parte integrante de uma comunidade onde é chamado a participar ativamente, onde se sente respeitado e onde é reconhecido e apoiado. E a comunidade tem, aqui, o sentido mais amplo que lhe queiramos atribuir: na família, no seu grupo de amigos, na cidade, vila ou aldeia onde se vive, na associação de que se faz parte, no mundo laboral, na sociedade em geral.
A imperiosidade das interdependências
Aliás, todas estas pequenas comunidades só fazem sentido, numa comunidade mais ampla que as acolhe e integra numa relação de interdependência(s). Se me sinto, por exemplo, solitário no meu trabalho, porque o meu superior hierárquico não me respeita, não me ausculta, não me incentiva, não me dá um feedback regular do meu desempenho, se é injusto na minha avaliação, é provável (não será sempre assim), que isso tenha reflexos negativos na minha relação com os colegas de trabalho, no meu círculo de amigos, na família e em todas as pequenas comunidades de que faça eventualmente parte; talvez essa situação possa, pela sua violência psicológica, contribuir para me sentir isolado socialmente.
Repensar a organização física e social das cidades
As nossas cidades deverão ser repensadas, de modo que facilitem o convívio entre as pessoas, valorizando os espaços físicos, quer em termos de áreas “ajardinadas” (parques públicos, por exemplo), quer investindo em espaços promotores da atividade física ou outras iniciativas e/ou estratégias (bibliotecas, Universidade Sénior, hortas comunitárias, clubes…) que levem à interação entre as pessoas e fomentem, naturalmente, o sentimento de comunidade, sem esquecer, nesse âmbito, a importância do convívio intergeracional. Qualquer arquitetura que negligencie estas dimensões, é uma “arquitetura hostil” da dimensão social do ser humano e, consequentemente, de costas voltadas para o problema da solidão.
As urbes não têm de, fatalmente, ser lugares hostis à relação entre as pessoas; não é forçoso que sejam lugares de exclusão, espaços vazios de solidariedade e de acolhimento humano, como acontece, demasiadas vezes, com os imigrantes ou com outros grupos sociais geralmente mais vulneráveis. Partilha de espaços comuns, valorização de uma arquitetura virada para a interação social e para a inclusão, eis mais uma forma de combater a solidão.
Pensar as cidades, priorizando o contacto físico entre as pessoas é um fator determinante para que todos nós nos sintamos menos sós. Tem de ser um projeto onde possamos, ativamente, participar. Não é suficiente entregar esse ambicioso desafio apenas nas mãos dos especialistas e dos políticos. Como cidadãos, temos o direito de ser auscultados e o dever de dar o nosso imprescindível contributo. É, até, uma forma de estarmos mais frequentemente frente a frente e de, assim, interagirmos fisicamente.
Claro que as cidades, particularmente, as grandes, sempre associadas a agitação, correrias, ruído, poluição, não são, estruturalmente, na sua essência, promotoras da sociabilidade, da interação física. Acresce, ainda, um fator determinante que impede a criação de vínculos sociais duradoiros ou de criação do sentido de comunidade: o arrendamento das casas em detrimento da sua aquisição. Quem não é proprietário estará, de certo modo, mais predisposto para a mudança do que o arrendatário.
Noreena Hertz, a autora que já mencionámos anteriormente no outro texto, confirma, justamente, que a grande transitoriedade das pessoas nas cidades se deve, em grande parte, à facilidade do próprio arrendamento das casas. Inclusivamente, dá o exemplo de grandes metrópoles como Nova Iorque, “…onde a grande maioria das pessoas arrenda casa, quase um terço da população em 2014 tinha mudado de casa nos últimos três anos.”
Certamente, é uma opinião que não será unânime, mas que me parece pertinente, e que reunirá, eventualmente, na minha opinião, algum consenso. Também não explica, por si só, como já se percebeu, o sentimento desesperante da solidão, mas poderá ser mais um dos motivos explicativos desse fenómeno, especialmente nas grandes cidades. Por isso, este fator deverá, em articulação com outros, ser repensado a fim de minimizar os seus impactos na solidão.
O impacto das novas tecnologias
Voltemos, como prometi, ao mundo tecnológico e o seu impacto na solidão.
Outro caminho que temos de percorrer com maior convicção, e sem questionar a importância da evolução tecnológica, é a desalienação em relação ao mundo digital. Enquanto nos focarmos neste mundo virtual, dificilmente estaremos mais disponíveis (física e mentalmente presentes) para aqueles que, de uma maneira ou de outra, precisam de nós; que se sentem sós. Pelo contrário: focando-nos em demasia em nós pela via digital, alienamo-nos não só dos outros, nomeadamente dos que nos são próximos, como de nós próprios. E, a uma determinada altura, já nem damos por isso.
Normatizámos a nossa exposição pública, renunciando à nossa privacidade. As fronteiras entre o que é público e o que deveria ser apenas da esfera privada tornou-se, por nossa culpa, demasiado poroso; quase indistinto. Aliás, na própria política, nunca foi tão evidente, graças ao mundo digital, inverter o que, quanto a mim, não deveria acontecer: o que é público (ou do que designamos de interesse público) tornou-se privado, e o que é privado, tornou-se público (ver o que se passa, por exemplo, com a banalização, em diversas circunstâncias, do segredo de justiça).
É altura de questionarmos se os dispositivos eletrónicos que usamos não estarão a condicionar, abusivamente, o desenvolvimento e construção daquilo que designaríamos de maior “proximidade” com os amigos, familiares, colegas de trabalho…etc. Estarmos conectados não é estarmos obcecadamente unidos pelo mundo digital, mas sim dar preferência à interação física (à interação de corpo e alma, quero dizer!).
Nada supera a interação física; a relação digital está, apesar das suas virtudes, num patamar inferior; fica ao nível da “imitação” do que só o espaço físico proporciona. Quanto mais distraídos no espaço digital, mais aumentamos as probabilidades de gerar no outro a triste sensação de invisibilidade; contribuímos para que se radicalize ainda mais o sofrimento provocado pela solidão. De facto, a solidão é particularmente sentida, quando aos olhos dos que nos rodeiam (inclusivamente dos alegados amigos) nos tornamos invisíveis.
A importância da conversa na comunicação
Por outro lado, tornamo-nos cada vez menos conversadores, menos capazes de ouvir o outro. Como dizia, há pouco tempo, Miguel E. Cardoso, no jornal “Público”: “Noto, por exemplo, que se está a perder a arte da conversação. As pessoas já não sabem conversar […]” ora, digo eu, a conversa é, com certeza, uma das melhores estratégias para mitigar a solidão; permite-nos, com maior facilidade, compreender as vulnerabilidades de quem está próximo e, consequentemente, disponibilizar lhe solidariedade e ajuda.
A comunicação, quando encontra na conversa (não apenas a das micro-interações consubstanciadas em saudações e relações circunstanciais e/ou de contextos ocasionais), a estratégia privilegiada de relacionamento com os que nos rodeiam, humaniza-nos e torna-nos mais próximos uns dos outros; gera vínculos sociais mais consistentes do que aquela, por exemplo, que estabelecemos nas redes socias.
Está cientificamente demonstrado que, nas crianças, por exemplo, o recurso abusivo ao mundo digital promove a distração, condicionando o desenvolvimento não só das competências de comunicação, como atrasos na motricidade. Se, a par deste problema, os próprios progenitores recorrerem, também, ao uso indiscriminado do espaço digital, teremos reunidas as condições para agravar os riscos de solidão quer nos jovens, quer nos menos jovens.
Para combater a solidão temos de exercitar a empatia, a qual, para florescer, requer a fertilidade do “terreno” ou de um espaço da interação física e/ou presencial. Devemos, pois, “autoeducar-nos” nesta convicção, caminharmos rumo a uma comunicação mais humana e humanizadora.
Na Revista do Expresso (Edição 2545, de 21.08.2021), no seu texto, José Tolentino Mendonça diz que, “Comunicar é entrar em relação. É tocar a comum humanidade. É acolher a subjetividade tal como ela se manifesta.”
Apesar de se dizer que vivemos numa sociedade da comunicação, sabemos que, em inúmeras circunstâncias e contextos, lhe falta qualidade. Paradoxalmente, o excesso de comunicação resvala, parafraseando ainda Tolentino Mendonça, num défice de comunicação. Esta deve ser, acima de tudo, o encontro que permite, sem rodeios, a manifestação mútua dos sentimentos, das emoções, do próprio silêncio. E quanto a este último, não estou a reportar me ao “silêncio cool” ou qualquer estado de plenitude que, alegadamente, algumas correntes espirituais(?), muitas vezes designadas de “New age”, têm o condão de tornar acessível!
Tolentino Mendonça faz um reparo crítico à comunicação que, de um modo geral, grassa na nossa sociedade, especialmente no espaço digital: “O fluxo interminável de mensagens e de imagens em sobreposição é um expediente para camuflar o vazio, a fragmentação, o desencontro.” Como eu o entendo! É mesmo preocupante! Atrever-me-ia a dizer que, infelizmente, vejo isso mesmo em pessoas que nem sequer têm consciência de que estão em processo acelerado de desencontro; estão, infelizmente, amarga e desesperadamente solitárias.
Também Byung-Chul Han, filósofo contemporâneo que eu estimo e admiro particularmente, não anda muito longe da perspetiva de Tolentino Mendonça sobre a dependência digital e do seu impacto no exacerbamento do individualismo.
Neste assunto, não consigo resistir à transcrição (algo que tenho feito algumas vezes noutros textos), do seu pensamento, neste caso, no livro, “Do Desaparecimento dos Rituais”, quando se pronuncia da seguinte forma: “Hoje produzimo-nos em todo lado e forçosamente, por exemplo, nas redes sociais. O social está completamente submetido ao autoproduzir-se. Todos se produzem para gerar mais atenção. A coação para autoproduzir-se induz uma crise de comunidade”. E, um pouco mais à frente, de forma especialmente exímia, acrescenta: “O mundo hoje não é um teatro em que se desempenham papéis e se trocam gestos rituais, mas um mercado onde as pessoas se desnudam e se exibem. A representação teatral submete-se à exibição pornográfica do privado.” Dificilmente alguém interpretaria melhor esta tendência. O pior é que há pessoas que já consideram isso normal! Mais: há outras que, mesmo com todas as evidências de que estão a seguir esse caminho, se autoconvencem de que isso não é com elas. Eu diria que, neste caso, a ignorância (arrogante) se apoderou delas! A postura narcísica é já, infelizmente, para muitos, irreversível.
De facto, a visibilidade do eu, especialmente materializada na exposição sem limites da vida privada, não promove a verdadeira comunicação, o encontro “corporizado”, a verdadeira sociabilidade. Ou, parafraseando Byung-Chul Han, sempre inimitável nas suas abordagens a vários assuntos, a solidão cresce na justa medida em que cada um de nós se encapsula, como se, “narcisicamente”, estivesse apenas voltado para sua performance sempre angustiadamente incompleta. E, assim, o sentido de comunidade vai-se desmoronando.
Acresce que existe uma espécie de solidão que se camufla no stress daqueles que tudo querem experimentar numa sofreguidão que os impede de apreciar e degustar o sabor da duração. Pela atitude narcísica e egoísta que os carateriza, permanecem num estado de sensação inquietante e de incompletude, como se fossem implacavelmente alimentados por um vazio existencial insuportavelmente patológico e desgastante. Não cultivam, a não ser por interesse pessoal, a empatia com o outro; tudo está focado no próprio eu, na cega submissão à autoprodução.
Mas o meu amigo, Byung-Chul Han (espero que não se importe que use desta atrevida “intimidade”), esclarece melhor a ideia que acabo de expor: “A persistência do eu, a incompletude e a impossibilidade de finalizar emoções são uma caraterística essencial do narcisismo” (in Do Desaparecimento dos Rituais, pág. 34). Aliás, um pouco antes, o filósofo diz também: “O novo banaliza-se rapidamente em rotina. É uma mercadoria que se consome e que volta a desencadear a necessidade do novo. A compulsão a rejeitar a rotina gera mais rotina” (págs. 18-19).
Voltando à supremacia da cultura digital nos nossos dias, talvez seja sempre salutar invocar autores, como a própria Noreena Hertz, sobretudo para convencer os mais céticos que duvidam de que a utilização abusiva das redes sociais pode contribuir para a vivência de estados de solidão. Diz ela, então: “[…] inúmeros estudos realizados na última década determinaram uma associação direta entre a utilização das redes sociais e a solidão. Um estudo concluiu, por exemplo, que os adolescentes com uma utilização mais elevada das redes sociais referiram mais a solidão do que os seus pares.” Ou seja: uma das formas de prevenir a solidão, a sensação de “vazio relacional”, é dar prioridade à regularidade da comunicação “face to face”.
Sem pretender abusar do recurso a Tolentino, comungo, em absoluto, da sua conceção simples e, ao mesmo tempo, profunda de comunicação, quando a propósito refere: “Para comunicar bem é, sem dúvida, necessário escutar bem.” Esta noção de comunicação, digamos assim, é uma estratégia de combate à solidão.
A empatia, uma palavra que tem sido invocada até à exaustão, radica, sem dúvida, na escuta ativa do outro. E essa não é compatível, segundo Noreena Hertz, com o mundo digital: “Parece que, quanto à eficiência do envolvimento emocional da empatia e da compreensão, as novas formas digitais do nosso século apresentam graves falhas e insuficiências que debilitam a qualidade do nosso diálogo e, consequentemente, a qualidade das nossas relações […]”. Comunicar com eficácia é desenvolver competências, como a empatia, ou a interpretação de expressões faciais, dificilmente experimentadas no ecrã táctil.
E, já agora, coloca-se, ainda, a questão: quem não gosta de ser escutado sem julgamentos, muitas vezes eivados de preconceitos e de falsas moralidades?! Há pessoas que se sentem desesperadamente solitárias porque não têm quem as saiba escutar; colocar-se no lugar delas, como se fossem elas próprias, é esse o verdadeiro sentido da escuta, da escuta ativa, da empatia, reiteraria, ainda, eu.
Outros meios de combate à solidão
Combater a solidão é cultivar, no encontro com o outro, virtudes, como a generosidade, a disponibilidade, a amabilidade, a franqueza, a abnegação. Em última instância, são essas que, de certo modo, como já antes tinha referido, não têm, numa sociedade genericamente materialista, narcísica e individualista, recompensa social e financeira. A solução passará por opções políticas que valorizem nas vertentes referidas, concretamente nalgumas práticas profissionais, aquelas virtudes.
Theresa May, antiga primeira-ministra do Reino Unido, decretou, em 2018, que a solidão fosse um assunto de Estado. Muito bem. Que o mesmo seja decretado noutros países (no Japão também assim aconteceu), de forma que sejam pensadas e viabilizadas práticas de combate ao isolamento social. Os agentes políticos têm a obrigação não só de identificar os problemas, como de encontrar as soluções e/ou estratégias mais adequadas para os resolver.
Contra a corrente individualista, assumamos que a felicidade não é uma conquista exclusivamente individual, uma “tarefa” que depende exclusivamente de cada um de nós, mas antes um processo de interações e de interdependências.
Combater a sensação de solidão é apreciar, cada vez mais, as interações sociais, fomentar e reforçar os sentimentos comunitários, em detrimento da obsessão com a performance (autoprodução) individualista nas mais diversas dimensões da nossa vida.
Não nos sintamos inferiorizados, ou com sentimentos de autoculpabilização quando, voluntaria ou involuntariamente, nos comparamos com outros que exibem e/ou exalam, por todos os poros, felicidade; não permitamos que esse exibicionismo nos entristeça, nos isole, ou nos faça sentir estúpidos. Gosto, de forma muito especial, a propósito de estupidez, do que dizia Marco Aurélio: “Estupidez é esperar figos no inverno, ou ter filhos na velhice.” Penso que apesar dos avanços da ciência, a frase tem, ainda, significado pedagógico e permanece atual!!
Como já mencionei anteriormente, não há salvação autónoma. Todos estamos dependentes uns dos outros; a salvação de cada um de nós, ou, se preferirmos, a felicidade, bem como o próprio combate à solidão, dá-se, constrói-se na interdependência, na interação, em comunidade.
Lutar contra o isolamento social exige que não nos deixemos arrastar pelo “inferno do igual”, especialmente consubstanciado no narcisismo esteticizado, nos exibicionismos virtuais, na tendência para a normalização da nudez que expõe, sem pudor, a nossa privacidade nas malhas da rede digital, na criação de um “eu digital” e inautêntico.
Obcecados com o nosso eu digital, fechamo-nos cada vez mais dentro de nós, isolando-nos de nós mesmos e dos outros, crescendo a sensação de alienação e de distanciamento daquilo que é a nossa essência.
Síntese de algumas ideias no combate à solidão
Há soluções que podem ajudar a mitigar a solidão. E nesse sentido, apresentam-se algumas, agora de forma mais simples e sintética, e que, de certa forma, já foram referenciadas anteriormente, tais como:
- Valorizar processos e caminhos que estimulem, na interação social, a presença pessoal, física, em detrimento da ubiquidade digital e tecnológica, tendencialmente potenciadora de sentimentos de infelicidade e de solidão;
- Criar espaços e tempos de partilha presencial, designadamente de experiências, histórias e ideias múltiplas que robusteçam o sentido de comunidade, proporcionando o diálogo, a reflexão, o exercício da cidadania democrática, mas também o experienciar da interajuda, da inclusão e da autonomia solidária;
- Admitir a possibilidade de, com peso e medida, pôr ao serviço do combate à solidão, os robôs (sociais) e a inteligência artificial (IA) com o intuito de atenuar ou minimizar a carência, por força de vários fatores, do afeto e da disponibilidade humana;
- Pensar nos recursos tecnológicos e digitais como instrumentos auxiliares de cuidados a prestar, sobretudo a quem tem condicionalismos que resultam de doença, da idade ou da ausência temporária de familiares. Noreena Hertz conta-nos que15% dos homens idosos japoneses passam semanas sem falar com ninguém, sendo os robôs considerados como solícitos e heroicos, liderando o Japão a sua utilização para efeitos de companhia, especialmente para os idosos;
- Evitar que por motivos meramente financeiros e/ou económicos, se prolongue no tempo a presença de robôs nas tarefas de auxílio aos mais solitários, sob pena de causar habituação e dependência dessa relação com os robôs, em detrimento das interações humanas e do desenvolvimento de atitudes radicalmente humanas: atenção, disponibilidade, reciprocidade, generosidade;
- Criar regras e/ou procedimentos (usando algoritmos para o efeito) que promovam a civilidade digital, ou seja, que condenem a toxicidade de qualquer tipo de desinformação, de qualquer forma de bullying ou de violência, e, ao mesmo tempo, promovam e gratifiquem, nas publicações online, atitudes e comportamentos humanistas;
- Organizar formas de trabalho anti miópicas que, sem descurar a eficiência e a produtividade, possam criar a oportunidade de ligação e/ou de interação cooperativa e colaborativa; que abram a possibilidade à interajuda desinteressada e promovam os sentimentos de amabilidade e de amizade entre os trabalhadores; que possibilitem a criação de outras estratégias de interação próxima e de inclusão, evitando -se, a todo o custo, a sensação de solidão, da vigilância constante, de insegurança e da sensação negativa de invisibilidade;
- Fomentar a ação sindical, mas também a criação de legislação, em ordem a dar voz e poder àqueles trabalhadores que, especialmente no contexto das novas formas de trabalho e das profissões emergentes, têm menos voz e são particularmente explorados e privados dos seus direitos ( veja-se, como nos relata a escritora Noreena Hertz, o caso de empresas que obrigam os seus trabalhadores a terem, por exemplo, microchips nas mãos, de modo a poderem a usar as mesmas como cartões de identificação sem contacto!;
- Refletir e ponderar estratégias de equilíbrio entre as tarefas que podem ser realizadas pelos humanos e a robotização e/ou automação no desempenho em diversas áreas de trabalho. Se o desequilíbrio entre estas duas componentes aumentar, é possível que cresça também a solidão e a alienação. Há casos, inclusivamente, em que os robôs são já quase um recurso único. Numa fábrica de telemóveis, na China, 90% da mão de obra humana foi substituída por robôs que trabalham ininterruptamente. As vantagens da utilização dos robôs, num mundo extremamente competitivo e especialmente obcecado com o lucro, são inúmeras, desde logo porque não reivindicam, por exemplo, melhores condições de natureza laboral.
- Antecipar, do ponto de vista político, tanto quanto possível, a identificação de problemas de natureza social, nomeadamente de exclusão e de solidão, de modo a, de forma atempada, encontrar as melhores e mais diversas soluções, de preferência numa perspetiva holística, contemplando, sempre, a valorização daqueles que podem cuidar dos mais vulneráveis, nomeadamente dos mais idosos;
- Pensar projetos (a nível político e de instituições) que contrariem o egocentrismo e o individualismo que caraterizam, globalmente, o neoliberalismo atual, e que priorizem os valores e/ou princípios da solidariedade, de comunidade, de cooperação, de união, da amabilidade, da gentileza, da empatia e da “confiança social”;
- Apoiar, incentivar e reconhecer a importância dos profissionais que estão especialmente vocacionados para aliviar a solidão das pessoas, ou que prestam cuidados específicos quer aos jovens, quer aos idosos.
Não estando, de modo algum, esgotadas as soluções, as que acabei de expor são apenas possibilidades que necessitam, naturalmente, de ser critica e fundamentadamente aprofundadas.
Por fim, gostara de deixar, aqui, no âmbito da reflexão sobre a solidão, mais algumas palavras de Noreena Hertz: “Precisamos de nos converter: de consumidores em cidadãos, do receber para o dar, de observadores casuais para participantes ativos[…]Precisamos de nos libertar das nossas autoasfixiantes bolhas de privacidade digitais e relacionarmo-nos com as pessoas à nossa volta[…] O antídoto para o Século da Solidão […] é apenas estarmos sempre disponíveis para o outro […] para nos unirmos num mundo que se está a desintegrar, não se pode exigir menos do que isso.” (in O Século da Solidão- Como Restaurar as Ligações Humanas, págs.303-304).
Jota Eme
Principal bibliografia consultada no âmbito deste texto:
- O Século da Solidão - Como Restaurar as Ligações Humanas, 2021, Noreena Hertz
- Do Desaparecimento dos Rituais, 2020, Byung - Chul Han