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Bricolage da Escrita

Bricolage da Escrita

SOB O DOMÍNIO DA INFODEMIA E OS SEUS IMPACTOS

Não dominamos a informação, a informação é que nos domina a nós”!  Byung- Chul Han

O termo “infodemia” é utilizado por um dos incontornáveis filósofos da atualidade, Byung- Chul-Han, no seu livro intitulado, Infocracia.  Julguei que o conceito de “infodemia”, poderia ajudar a refletir e a compreender não só a complexidade da era digital, mas também o fenómeno da comunicação que lhe está associado.

O objetivo deste texto é, pois, refletir sobre a “era da informação digital” e nalguns dos seus impactos. Não é propriamente uma visão pessimista da era digital. É, sobretudo, uma simples reflexão (o mais realista possível) sobre a influência da informação digital no nosso quotidiano.

Também sabemos que, à semelhança de outras realidades, as “ferramentas digitais são simultaneamente instrumentos de liberdade e instrumentos de servidão” (Edgar Morin 2020, 63).

A informação, hoje, funciona como um vírus, como uma infodemia (“… grande fluxo de informações que se espalham pela internet sobre um assunto específico, que se multiplicam de uma forma muito acelerada” - in wikipédia), que nos “consome” sob diversas formas, como se a tarefa de impedir os seus efeitos de contaminação estivesse fora do nosso alcance; como se não houvesse antídoto para fazer cessar uma determinada “malignidade” sobre nós.

O que parece dar-nos a sensação de liberdade na procura de informação, torna-nos, afinal, de forma sub-reptícia, em dominados, em subjugados. Assertivo, como sempre, Byung-Han esclarece-nos: “Quem é verdadeiramente livre não são os indivíduos, mas a informação. O paradoxo da sociedade da informação reside no facto de os seres humanos serem prisioneiros da informação” (2022, 13).

Estamos, assim, na era da informação, perante uma outra espécie de domínio que não se faz através de proibições, de coação física ou de outras formas mais musculadas, mas antes através da sedução. Sim, somos subtil e eficazmente convidados a consumir informação como se, em última instância, isso significasse a nossa redenção, a imperiosa necessidade de participar numa “liturgia” comunitária que nos dá, simultaneamente, a sensação (falsa) de liberdade, mas que apenas nos entorpece cada vez mais.

A ilusão de que dominamos a informação através, por exemplo, de instrumentos como o touchscreen inteligente, torna-nos, paradoxalmente, seres cada vez mais vigiados e controlados, colocando-nos, também, ao serviço do consumo (do capitalismo da vigilância) ou seja, fazendo de nós vítimas de uma espécie do totalitarismo consumista.

Estamos perante uma conceção de informação que pretende ser hegemónica, total, com margem de liberdade para quem a consome, absolutamente mínima ou nenhuma. Não temos quase espaço para atuar, para criar, para refletir. Estamos, cada vez mais confinados às migalhas do “clicar”, do “gostar” e do “postar”.

Determinadas por uma complexa teia de algoritmos, as notícias vão sendo dadas em quantidade infernal, como se o objetivo fosse, justamente, eliminar qualquer hipótese de contingência, de incerteza, de dúvida; o importante é confinar a explicação de tudo ao reino do quantificável, criando uma realidade sustentada em dados, sem “narrativa”. Quantificar para melhor dominar, parece ser o lema. Talvez, como refere Edgar Morin, tenhamos de contrariar esta tendência substituindo “a hegemonia da quantidade pela hegemonia da qualidade; a obsessão do mais, pela obsessão do melhor" (2020, 97).

O domínio, refere Chul Han, “oculta-se atrás do que há de mais agradável nas redes sociais, da comodidade dos motores de busca, do timbre embalador dos assistentes de voz ou da solicitude obsequiosa das smarter apps” (2022,14). Detendo os nossos dados, preveem os nossos comportamentos, ficam conhecedores dos nossos gostos e das nossas tendências, construindo sobre nós um determinado perfil de que se apoderam e, consequentemente, dominam.

A criação de um “perfil” pode dar a ilusão de que nos distinguimos no meio da multidão, das “massas” anónimas. O “perfil” torna-nos “gente importante” e não um “zé-ninguém”! O “perfil” foi recategorizado, já que, noutros tempos, “só os criminosos é que tinham perfil.” Agora somos todos detentores de um perfil comportamental!

Ora, esta problemática da informação leva-nos a uma outra questão particularmente importante relacionada com o poder: quem detém, hoje, o poder, designadamente o político? A resposta prevê-se fácil e damo-la na convicção de que os que nos acompanham já a têm na ponta da língua: sim, é isso, são os que dominam a informação!

Aqui chegados, e sem querer abusar de Chul Han, introduziríamos aqui outro conceito bem interessante: o de “infocracia”!

A democracia, doravante, fica também ela prisioneira da ditadura da informação, sua refém; “degenera em infocracia”, assim se expressa o nosso autor.

A democracia que deveria crescer e consolidar-se numa base social de participação ativa dos cidadãos, informados, sobretudo, pelos livros, redunda, afinal, na mediacracia, na sua submissão aos meios de comunicação social digitais. Temos muitos exemplos, quer a nível nacional, quer internacional. Ou seja: temos evidências desta conversão da democracia em mediacracia!

E para mal dos nossos pecados, a democracia emerge, cada vez mais, como espetáculo, como entretenimento, fazendo-nos distrair, propositada e estrategicamente, do essencial, da preocupação com o bem comum. 

diversão é o meio privilegiado de afirmação da democracia! Também poderíamos dar exemplos bem elucidativos do que estamos a afirmar. Não resisto, neste âmbito, ao recurso a mais uma citação do meu “amigo” Chul Han, e que é absolutamente esclarecedora: “A mediacracia é ao mesmo tempo uma teatrocracia”! (2022, 21). Pela sua assertividade, é daquelas frases que gostava de ser eu o autor!

Ainda no âmbito da democracia na sua forma privilegiada de encenação ou de teatralização, basta vermos os debates televisivos, onde podemos assistir à fuga a temas importantes, à falta de um discurso racional sóbrio e explicativo sobre as fragilidades, as prioridades e as soluções para resolver os problemas do país e do mundo.  

Tudo, no poder político, enforma da tendência para privilegiar a performance, o estilo, em detrimento do conteúdo, daquilo que verdadeiramente tem interesse; o vazio de ideias tanto para o presente, como para o futuro é confrangedor, sobrepondo-se, de forma descarada, uma “política telecrática de imagens” que parece escarnecer da verdade! Repare-se nas explicações dos políticos, a propósito das últimas cheias. Parece que tudo redundava, numa explicação simplista e única: as alterações climáticas. Tendo a sua influência, a explicação é manifestamente insuficiente, simplista. Afastar responsabilidades políticas também faz parte de mais uma estratégia para a “fuga” à verdade!

Na telecracia, não há lugar para a “democracia complexa”, como a designa D. Innerarity. Para este filósofo espanhol a democracia complexa não é compaginável com “[…] o curtoprazismo, miopia política, presentismo, governança antecipatória pobre”. A democracia na sua forma de telecracia, está consubstanciada numa governança onde, recorrendo, ainda, àquele filósofo, “Não se antecipam os cenários futuros, não se dá suficiente atenção aos riscos, persiste-se nas políticas manifestamente insustentáveis do ponto de vista social, económico ou ambiental. Descuram-se os problemas emergentes, os riscos futuros, as necessidades e oportunidades futuras, os benefícios distantes” (2021, 185-186).

Sem querermos, neste contexto, aprofundar esta noção de democracia complexa, sempre se adiantará que ela se configura como uma estratégia sustentada e sustentável, contra as simplificações tecnocráticas e populistas, visando, prioritariamente, a abordagem holística dos grandes problemas e das suas soluções, quer no presente, quer no futuro, resistindo à política do entretenimento, das emoções exacerbadas, das encenações, da pressão imediata, da sedução capciosa e da atenção mediática.

Em vez de cidadãos verdadeiramente esclarecidos, capazes de participar ativamente nos assuntos de interesse público, a mediacracia como via de afirmação da infocracia, tende a reduzir-nos à condição empobrecedora de espetadores passivos de uma encenação política, mais visível em épocas de eleições, onde quase sempre vemos afundar-se a verdade, os grandes temas e a autenticidade dos “representantes”!

Em eleições de maior projeção internacional, como as dos EUA, é manifesta a tendência para os discursos simplistas e fragmentados no Twiter, para utilização dos social bots na disseminação das fake news e para a proliferação de teorias da conspiração, sem que os protagonistas tenham um real interesse nas verdadeiras causas sociais, económicas, culturais, ambientais, entre outras. Ou seja: a infodemia, entendida como “propaganda viral”, prejudica seriamente a democracia e promove o populismo e outros radicalismos políticos.

E se, nalgumas situações, a comunicação digital e as redes sociais, em geral, podem contribuir para promover e apoiar grupos de contestação, nomeadamente a regimes ditatoriais, surgindo como instrumentos de exercício de cidadania, como parece ter acontecido mais recent noemente no Irão ou na China, na maioria dos casos “os enxames digitais não formam um coletivo responsável e politicamente atuante” (Byung-Chul Han 2022, 31)

A comunicação digital, na opinião de Chul Han, não promove “cidadãos emancipados”, uma vez que a informação que daí advém é baseada em algoritmos, “não é livre nem democrática”, difunde-se sem ser filtrada pelo espaço público, ainda que produzida na esfera do privado e “enviada para espaços privados”.  Ou seja: para Byung – Chul, na comunicação digital, não há propriamente comunidades públicas, no sentido político, ou seja, capazes de refletirem e defenderem causas comuns, do interesse público. Byung chega mesmo a afirmar que as “redes sociais intensificam esta comunicação sem comunidade”. Aliás, nesta matéria, é ainda mais assertivo, quando afirma: “A partir dos influencers e followers não se forma um público político. As communities digitais são uma forma de comunidade enquanto mercadoria. Na realidade, são commodities. Não são capazes de ação política” (2022, 32). Há, aqui, latente a ideia de que nada pode ser consolidado nestas comunidades, onde tudo é efémero e sem o suporte de qualquer vínculo.  

A democracia não pode, pois, resultar de uma comunicação unívoca, da tribalização digital, da ausência do ato político do escutar. Ela exige a interação dialética que fundamenta e alimenta o discurso, o diálogo, a narrativa, a construção da mundividência.

Na comunicação digital, em última instância, a opinião do outro não existe; o outro, como interlocutor privilegiado, não está presente. Quando são as máquinas a criar a informação adequada ao nosso perfil, gera, simultaneamente, em nós, convicções cada vez mais arreigadas e dogmáticas, reduzindo-nos à condição de “autodoutrinados” e, consequentemente, a um posicionamento autista perante o outro.  Sempre com algum receio do recurso abusivo a Byung- Chul Han, aqui deixamos, uma vez mais, a sua a voz: “a crise da democracia é, antes de mais, uma crise do escutar {…] o que provoca a crise da democracia não é a personalização algorítmica da internet, mas o desaparecimento do outro, a incapacidade de escutar” (2022, 34)

O que tem contribuído para a “desconsolidação” da democracia é a tendência crescente para a substituição da racionalidade sustentada no discurso, na argumentação, na narrativa, na escuta do “outro” para uma racionalidade digital apoiada por dados, pelo quantitativo, onde os algoritmos são, doravante, os novos “argumentos”, a “novilíngua”.

A Inteligência Artificial através de uma "visão dataísta do mundo" tem, seguramente, a pretensão de não só dispensar o discurso humano, como dispensar qualquer forma de autonomia e de liberdade, enquanto qualidades intrinsecamente humanas.

Doravante, com a crescente racionalidade digital, será a IA a determinar tudo: o nosso presente e o nosso futuro, dispensando, inclusivamente, as conceções políticas enquanto visões do mundo e da vida. Para quê, perguntam os “dataístas”, a liberdade individual, se a IA é capaz de nos dar as soluções para tudo; capaz, enfim, de um conhecimento total.  

Seremos, pois, cada vez mais, controlados por um saber que determinará toda a nossa ação, manipulados e manipuláveis pelo neototalitarismo digital. Para os crentes dataístas, não há lugar para a autonomia e liberdade humanas, para quem essas qualidades são uma invenção, pertencem ao domínio da “metafísica”.  

A comunicação digital arrastou consigo, também, uma crise da verdade, contribuindo, por essa via, para a crise da democracia. Esta está, visceralmente ligada à verdade. Ora, quando a comunicação entra no reino do aditivo, do cumulativo, do quantificável, perde-se todo o mundo da narrativa, do sentido, da identidade das coisas, da orientação, da segurança. Em última instância, perde-se, e isso é o mais importante em democracia, a verdade, ou a sua noção. Por si só, a informação não tem capacidade orientadora, nem confere coesão à sociedade. Só a verdade encerra em si essas potencialidades. Byung-Chul Han não pode, na nossa opinião, deixar de ser convocado mais uma vez. Diz ele: “A crise da verdade difunde-se quando a sociedade se desintegra em grupos ou tribos, entre os quais já não é possível qualquer entendimento, qualquer designação vinculativa das coisas […]” (2022, 52).

Quando, no mundo da informação digital, julgamos ter, de forma simples, tudo à nossa disposição, para quê pensar, procurar, interrogar, indagar, etc. Nada disso faz sentido, quando temos na ponta dos dedos o “mundo” ao nosso alcance. Este encantamento produz em nós, estrategicamente, viciação, dependência e, consequentemente, a erosão e/ou atrofiamento da nossa autonomia, da nossa liberdade, da nossa condição de seres pensantes, de cidadão ativos. E isto é tudo que o neototalitarismo digital pretende: substituir o regime da democracia pelo totalitarismo da informação, dar-nos a sensação de que somos livres, sem o sermos, substituir a verdade pela mercantilização geral das relações humanas e da sociedade em geral; impor uma “verdade” que, alegadamente, servirá para resolver todos os nossos problemas e nos levará à felicidade suprema. Será?!

A terminar, apenas acrescentaria que a melhor forma de resistir ao “neoautoritarismo digital” é não nos deixemos submeter aos “simplismos”, aos “unilateralismos” e aos “dogmatismos”; não abdicarmos, à boa maneira kantiana, das perguntas vitais e radicalmente humanas, tais como: “o que eu posso saber?”, “o que eu devo fazer?”, “o que eu posso esperar?” Só aceitando, na prática, este desafio, estaremos a respeitar e a reconhecer a riqueza da complexidade humana. É uma via privilegiada para a valorização da narrativa, para a construção da verdade e consequente coesão social, para a valorização da autonomia e livre-arbítrio, processos incontornáveis na consolidação da democracia e na afirmação do Homo complexus.

Edgar Morin pode, muito bem, traduzir, de forma exímia, o desafio que acabámos de descrever, quando refere a emergência do humanismo regenerado como aquele que […] Reconhece a complexidade humana feita de contradições […] a nossa animalidade e a nossa ligação umbilical com a natureza, mas reconhece a nossa especificidade espiritual e cultural […] a nossa fragilidade, a nossa instabilidade […] os nossos delírios, a ignomínia das matanças, torturas, esclavagismos, a lucidez e a cegueira do pensamento, a sublimidade das obras-primas de todas as artes, as obras prodigiosas da técnica e as destruições operadas por meio dessa mesma técnica” ( 2020, 110-111).  

 

Jota Eme  

 

Bibliografia de referência:

Infocracia, de Byung-Chul Han, Relógio D`Água, 2022

Mudemos de Via – As lições do Coronavírus, de Edgar Morin, Edições Piaget, 2020

Uma Teoria da Democracia Complexa, de Daniel Innerarity, Ideias de Ler, 2021

SOBRE A RETÓRICA DA MERITOCRACIA

 

“O ideal da meritocracia não é a igualdade, mas justificar a desigualdade” (Michael J. Sandel)

 

Nem sempre o mérito andou, como hoje, associado ao esforço e/ou empenho individuais.

Nos nossos dias, o mérito tende a emergir como garantia de sucesso e como fator determinante de alavanca social. Ao fazermos depender o mérito da responsabilidade individual e do trabalho árduo de cada um, estamos a admitir, pelo menos implicitamente, que está salvaguardada a igualdade de oportunidades na ascensão social e na consequente obtenção de sucesso.

Claro que a par da responsabilidade individual, do trabalho árduo, ainda temos de contar, complementarmente, com a fortuna de sermos, eventualmente, detentores de faculdades naturais de caráter excecional. Não basta, portanto, trabalhar afincadamente para atingir o sucesso. É necessário mais qualquer coisa que, por sorte, alguns têm mais do que outros: determinadas competências quase inatas, digamos assim. Em todo o caso, o que prevalece, hoje, é a ideia de que o mérito resulta, essencialmente, do esforço de cada um e do seu empenho e não tanto da sorte!

Se virmos no mérito apenas um instrumento de elevador social, talvez estejamos a assumir uma perspetiva reducionista e, até certo ponto, elitista. Pode parecer contraditório o que estamos a afirmar, mas não é. O mérito e o sucesso que “produz” não deve estar confinado a uma visão escatológica, como se o único e último objetivo do mérito fosse a ascensão social.

A partir do momento que o mérito não depende só do trabalho, mas também de determinadas capacidades, e se, além disso, ainda tivermos em consideração que ele é, inteiramente, da responsabilidade individual, talvez a meritocracia possa resvalar para uma dimensão pouco democrática. Como mais à frente também se dirá, é bem possível, até, que estejamos perto de uma visão arrogante de mérito.

Se olharmos um pouco para trás, não há muito tempo, o mérito andava de mãos dadas com uma certa “hereditariedade”, com privilégios adquiridos quer através de tradição familiar, quer através do poder económico. O mérito estava indissociavelmente ligado a uma herança social e económica; não era conquistado, mas adquirido, um legado familiar quase sempre inviolável, inquestionável e exibido de forma inusitadamente arrogante.  

Entretanto, as sociedades foram evoluindo, complexificando-se, e a noção de mérito também foi ganhando outro significado e alcance.

Pretensamente mais democrático e visto como possibilidade de alavanca social acessível a todos, independentemente das suas origens sociais culturais e/ou económicas, o mérito migrou para outro tipo de categoria. Ou se preferirmos, foi recategorizado.

Doravante, sobretudo com as correntes neoliberais, especialmente a partir dos anos 80, mais ou menos, o mérito tornou-se uma qualidade ao alcance de qualquer um. Alegadamente, ter-se-ia, inclusive, democratizado, vamos preferir dizer deste modo.

O mérito, sobretudo enquanto exercício de responsabilidade individual, traz como corolário alguns perigos, nomeadamente a tendência para o converter numa atitude narcísica e anti empática, ou espoletar sentimentos de grande frustração e de castigo e/ou de punição pessoal, para os que se sentem como perdedores, para os que, apesar de trabalharem afincadamente, não logram atingir o sucesso ou, ainda pior, não são socialmente reconhecidos. É quase caso para dizer que, encarado o mérito deste modo, parece que estamos perante os santos (os meritocratas) e os pecadores (aqueles a quem não é reconhecido o mérito).

Com efeito, esta conceção individualista de mérito, aproxima-nos da sua santificação, como se fosse um desígnio ao alcance apenas de alguns eleitos e/ou bafejados pela sorte, perdendo-se, também, nesta visão minimalista de mérito, a importância da comunidade, da natureza social do ser humano. Voltaremos a esta ideia.

Por outro lado, há uma imagem triunfalista do mérito, traduzível, sobretudo, na deificação do sucesso e na humilhação dos perdedores. Só os que triunfam, pelo seu trabalho e esforço árduo, são virtuosos, merecem o sucesso que têm e as honrarias que, por via disso, lhe prestam os outros.  Quanto aos restantes, parecem merecer a sua condição de perdedores e consequente condenação ao sentimento de humilhação pessoal e social. Como se o mérito pudesse sobreviver nesta dicotomia social e culturalmente absurda.

Para já, adiantar-se-ia, nesta parte, que o “virtuoso meritocrata” deve essa sua “condição”, à existência do outro, justamente daquele que teve a infelicidade de não ter as mesmas condições para, como ele, atingir, o sucesso. O mérito só tem, pois, sentido, numa perspetiva comunitária.  

Existe, pois, uma arrogância meritocrática consubstanciada na ideia de que só alguns estão predestinados a alcançar o êxito; de que o mérito depende exclusivamente de cada um; de que o mérito é, insistimos, da inteira responsabilidade individual, descartando-se qualquer responsabilidade social e política no “insucesso” dos “outros”!  Mais: o mérito está visceralmente associado a eficácia e a eficiência, a uma conceção de vida tingida, manifestamente, do imperativo do quantificável.

Se, por um lado, estávamos à espera de ver vencida a conceção de mérito assente na tradição hereditária, parece que, em última instância, temos, com o chamado neoliberalismo, uma conceção de mérito, também ela elitista, reducionista. Não se veem grandes diferenças entre uma e outra conceção. À medida que formos avançando, talvez possamos compreender ainda melhor esta paradoxal aproximação entre uma e outra conceção (de mérito).

Hoje, existe uma retórica à volta da meritocracia que, na prática, resulta na falta de igualdade de oportunidades para conseguir sucesso, na dificuldade crescente da ascensão social e na primazia do “credencialismo”, em detrimento de profissões que requerem menos habilitações literárias. Nem a pandemia alterou este paradigma, quando nos despertou para a importância de determinadas profissões que não exigindo credenciação superior, se mostraram determinantes para o nosso bem-estar.  

A meritocracia assenta, sobretudo, numa base eminentemente materialista, pois o mérito é visto como a capacidade individual de, através do trabalho árduo, produzir riqueza, aqui entendida no seu sentido mais lato.  O virtuosismo da meritocracia está, assim, associado, a uma espécie de merecimento individual. Ou seja, está aqui patente uma perspetiva focada no indivíduo (individualismo exacerbado do neoliberalismo), pois tudo que tenho, devo-o apenas a mim, ao meu esforço, ao meu empenho.  

Esta visão manifestamente individualista do mérito remete-nos para uma ética de meritocracia cujas bases principais são a responsabilidade pessoal e o trabalho árduo e que alimentam a retórica da ascensão social.

Ora, ao fazer-se depender o mérito de fatores como o esforço e a responsabilidade individual, pode, esse princípio basilar - para aqueles que apesar do seu esforço não atingem determinados objetivos - ser, no mínimo, frustrante, deprimente, desesperante, provocar, enfim, um sentimento de culpa, ou seja, ser gerador de consequências ao nível da saúde mental.  

A partir do momento que se cria a convicção social da meritocracia essencialmente resultante do trabalho árduo, corremos o risco de contribuir para uma sociedade ainda menos solidária. Com efeito, parte-se do princípio errado de quem não atinge o êxito, não trabalhou o suficiente e, por esse motivo, não merece ser ajudado; é como se fosse um indigente que não merece consideração e/ou reconhecimento da sociedade.  E isso é, no mínimo, perigoso e manifestamente avesso à inclusão. É, como diz Michael Sandel, “o lado brutal da meritocracia”.

Por outro lado, a meritocracia criou outro tipo de preconceito que, apesar de atenuado, ainda persiste: a ideia de que o diploma universitário é sinónimo de mérito e, consequentemente, como uma das principais condições de ascensão social e como sinónimo de maior respeitabilidade social. Assim, subestima-se aqueles que, apesar de não possuírem diploma superior, são, como já se referiu anteriormente, a propósito do período pandémico, determinantes para o funcionamento e organização da nossa sociedade.

Simultaneamente, e seguindo um pouco a linha de M. Sandel, a tendência para o despotismo meritocrático sobrevalorizando o credencialismo pode, em última instância, contribuir, decisivamente, para um discurso tecnocrático consubstanciado na arrogância de soluções simplistas, desvalorizando a participação crítica dos cidadãos nas principais decisões e soluções políticas.

A preponderância dos peritos e/ou dos especialistas emerge do pretexto de que o cidadão comum não tem tempo para se informar convenientemente. São eles, por isso, pelo seu mérito, que têm direito de prestar a alegada informação correta; o púlpito é deles, pertence-lhes por mérito próprio!  Cria-se uma espécie de clivagem entre os “sábios” e os “ignorantes”. Esta abordagem também resulta da mesma conceção de meritocracia que temos vindo a abordar: uma meritocracia que privilegia as elites que, presumivelmente, são as únicas capazes de dirigir os nossos destinos! Como se, o saber fosse, como noutros tempos mais recuados, propriedade apenas de alguns “eleitos”.

O saber especializado e tecnocrático que se impôs sobretudo a partir das décadas de 70 – 80, talvez obcecado com a via do “delírio do transumanismo”, não conseguiu antecipar soluções para, pelos menos, minimizar os problemas que hoje a todos nos preocupam, nomeadamente, as alterações climáticas. Um saber fechado à sociedade em geral, centrado na especialização, pode não ser a melhor forma de salvaguardar o interesse comum e ajudar a desenvolver e a consolidar uma cultura de valores humanos universais. Talvez, parafraseando, parcialmente, o título de um livro de Edgar Morin, tenhamos, urgentemente, de, para alcançarmos este desiderato, mudar de via.

A meritocracia só faz sentido, quando é solidária; quando reconhece o outro, convicta e empaticamente, como um “nós”, independentemente do seu estatuto social, cultural e profissional. Porque, caso contrário, não saímos da meritocracia determinantemente egocêntrica e arrogante: “Uma sociedade que habilita as pessoas a progredir e celebra essa mobilidade ascendente emite ao mesmo tempo um severo julgamento contra aqueles que não o logram fazer” ( Michael Sandel).

Hoje, para ultrapassarmos a visão arrogante da meritocracia, deveremos encarar o mérito como o resultado de condições favoráveis multifatoriais que se interpenetram: familiares, socioculturais, económicas, entre outras. A meritocracia deve ser, ainda, abordada numa perspetiva humanista, ou seja, como fator enriquecedor e de crescimento da sociedade; como uma “mais-valia coletiva”.

Proclamar a meritocracia ou a elite meritocrática como causa da abundância e, simultaneamente, vermos o crescimento de desigualdades sociais é, no mínimo, uma contradição, criando- se, inclusivamente, o sentimento de vitimização e promovendo a revolta por parte de quem não beneficia de tanta riqueza.

Cabe ao sistema educativo, nas suas práticas, desde os primeiros anos de escolaridade até à própria universidade, promover cidadãos reflexivos e críticos, capazes de pensar assuntos relacionados com o bem comum e “fazer juízos práticos informados sobre assuntos públicos” ( M. Sandel). É uma forma de resistir à tentação do mérito como fator de desigualdade e de exclusão.

Atrever-nos-íamos a dizer que promover o mérito na escola é dar aos alunos condições para desenvolverem iniciativas próprias, facilitar a sua responsabilização em todas as fases do processo educativo: desde a planificação curricular à avaliação das suas aprendizagens. Importa, ainda, fortalecer laços de ligação comunitária entre eles, ajudá-los na consciencialização de que todos podem dar o seu contributo para a construção de um projeto comum, seja ele o de uma escola melhor ou, numa dimensão mais alargada, o de uma sociedade mais justa.  

O mérito deve ser assumido como o contributo individual dado à sociedade - independentemente de qualificações académicas e/ou da condição social e económica -  visando o bem comum. Mesmo que façamos depender o mérito do esforço árduo, de determinados “dons”, de múltiplos fatores, ou de outra condição qualquer, ninguém é autossuficiente.  Como diz, e para terminar, Michael Sandel, “[…] viver numa sociedade que aprecia os nossos talentos é um acaso de fortuna, e não mérito próprio.” O mérito é sempre comunitário, nunca uma qualidade radical e exclusivamente individual.  

 

Jota Eme

 

Bibliografia de referência para este texto: A tirania do MéritoO que aconteceu ao bem comum? Michael J. Sandel, Editorial Presença, 2022.

 

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