O ADVENTO DO HOMO DIGITALIS?!
Uma das caraterísticas que não devemos perder é interrogarmo-nos sobre o que parece normal, evidente, genericamente aceite, mesmo que, por causa disso, tenhamos o sentimento de que somos vozes solitárias no deserto. A discordância na utilização dos manuais digitais nas nossas escolas, poderá, pelo menos no nosso país, enquadra-se nesse tipo de sentimento.
No final do mês de agosto de 2023, li uma notícia cujo título era: “Mais de 20 mil alunos do 3.º ao 12.º ano vão estudar este ano letivo (2023/2024) com manuais escolares digitais” Corresponderá ao início da 4.ª fase do projeto-piloto Manuais Digitais, participando 160 escolas, dizia-se, ainda, no corpo daquela notícia. Mais: o objetivo, acrescentava-se também, seria que “até ao final da legislatura, que termina em 2026, todas as escolas tivessem manuais digitais.” Este tipo de notícia, com algumas pequenas diferenças quanto ao número de utilizadores, viria a ser confirmada mais recentemente.
As notícias que, sob diversas formas, têm vindo a lume sobre a utilização de manuais digitais escolares nalguns anos de escolaridade em detrimento dos manuais tradicionais em suporte de papel, suscitam algumas questões que nos remetem para a emergência de uma reflexão multidimensional (antropológica, ética e cultural). Paralelamente, podemos relacionar esta problemática dos manuais digitais, com uma outra relativa ao uso dos telemóveis dentro das escolas. E o que tem a ver uma coisa com a outra, perguntar-se-á? Tudo, responderia eu!
A tendência para a introdução dos manuais digitais nas escolas portuguesas resulta, essencialmente, de um deslumbramento, quase inusitado, em relação às novas tecnologias, das quais se espera a solução para todos os problemas, designadamente ao nível do ato educativo no seu sentido mais amplo (todo o processo de ensino e de aprendizagem).
No âmago do ato educativo estão as pessoas (aluno e professor, entre outros); é, por isso, um ato radicalmente humano. A especificidade de todo o processo de ensino e de aprendizagem reside na sua dimensão humana. Há inerente a toda a relação pedagógica, designadamente em contexto de sala de aula, uma riqueza antropológica, especialmente consubstanciada nas múltiplas interações (presenciais, físicas) que aqueles atores estabelecem entre si, num manifesto face-to-face.
A deleitação digital, nomeadamente com a introdução dos manuais digitais, promove, de algum modo, a descentralização da dimensão humana no ato educativo de que falámos anteriormente. Com feito, a introdução dos manuais digitais nas nossas escolas, tenderá, de um modo geral, a privilegiar a relação com o ecrã, mas também a desenvolver uma certa conceção do saber com base em respostas mais imediatas e com menor participação e/ou envolvimento ativo do aluno na sua aprendizagem. Por outro lado, os manuais digitais vêm dar o seu contributo negativo para esbater, ainda mais, a barreira entre o online e o offline, quando a deveríamos, em última instância, preservar.
Queremo-nos digitalmente ligados em tudo: entre nós e, agora, no conhecimento em contexto escolar. Emerge a convicção, infundada, de que o sucesso da aprendizagem requer a estimulação digital, tecnológica; aprender passará, deste modo, a ser mais fácil, tornando, simultaneamente, as crianças e alunos mais felizes! Não estou, definitivamente, de acordo. Há estudos que revelam, por exemplo, que “o mundo digital acarreta consequências negativas para o cérebro” ( Jaclyn Cabral, citado por Joaquim Fialho - 2023, p.87). Sabemos como se vão confirmando as consequências negativas nas dimensões psicológica, física e social - algumas delas dramáticas - em virtude de práticas patológicas no domínio digital por parte dos jovens. Byung C. Han remete-nos, por exemplo, para a sensação de vazio existencial que leva milhões de jovens na Alemanha a automutilar-se. “Infligem feridas deliberadamente a si mesmos e fá-los sentir um alívio profundo. O método comum é cortar o braço com uma lâmina de barbear […] Muitas vezes as pessoas que se automutilam sofrem de depressão e de ansiedade. São atormentados por sentimentos de culpa e de vergonha, e por um enfraquecimento da autoestima […] a falta de autoestima subjacente à mutilação aponta para uma crise geral de gratificação da nossa sociedade […] a escarificação pode ser simplesmente um grito de amor” (2023, pp.47-49).
Com o expansionismo digital aos manuais escolares, perder-se-á, muito provavelmente, uma conceção do saber sustentado numa construção solidária e na exigência de um conjunto de atitudes e de valores que nenhum ecrã pode assegurar: a empatia, especialmente consubstanciada na escuta ativa, o olhar intersubjetivo que se expressa na presença do rosto do outro, o lado mais afetivo do saber. As aprendizagens das crianças e dos alunos dão-se num processo onde se interpenetram, de forma dinâmica, várias dimensões: emocional, sentimental, estética e ética.
Não se nos afiguram coerentes as vozes que reclamam a ausência dos telemóveis na escola, e que, simultaneamente, apelam à introdução generalizada dos manuais digitais. Há, aqui, no essencial, uma contradição. Num caso, ou no outro, estaremos sempre perante uma atitude que privilegia a realidade virtual, ou seja, a desmaterialização dos instrumentos de procura do saber ou da obtenção do conhecimento.
Os manuais digitais, à medida que se forem generalizando nas escolas, contribuirão igualmente, para a “descoisificação” da realidade (física e humana) e, inevitavelmente, de forma sub-reptícia, para o aniquilamento da intersubjetividade, despersonalizando cada vez mais a relação pedagógica em sala de aula e o ato educativo em geral. Desta forma, a escola contribui, efetivamente, para a afirmação de um novo “ser”: o homo digitalis!
Os países nórdicos que recuaram na experiência da utilização dos manuais digitais nas suas escolas, perceberam atempadamente, que o caminho da educação virtual pode trazer consequências irreversíveis para as crianças e os alunos, do ponto de vista cognitivo, motor e social, condicionando o desenvolvimento de diversas competências importantes não só para o seu desenvolvimento, como outras de especial relevância para melhor responder ao desafio de um mundo cada vez mais complexo e imprevisível.
Nós estamos visceralmente equipados para uma imprescindível ligação aos outros pelas vias física e presencial. A digitalização afeta esse equipamento de natureza essencialmente afetiva e emocional condicionando todo um pensamento da compreensão da realidade: “Se a disposição afetiva estiver ausente, tudo se torna um matraquear forçado de conceitos e palavras ocas” (Heidegger citado por Byung C. Han - 2022, p. 47).
Hoje, fala-se muito em planos de recuperação das aprendizagens das crianças e dos alunos, especialmente focadas na dimensão cognitiva, no ensino e na aprendizagem dos chamados conteúdos disciplinares. Sem deixar de ter a sua importância, veria com maior pertinência outro tipo de planos com vista a ajudar a mitigar, nos alunos, as “mazelas” sociais, isto é, as suas dificuldades ao nível da interação consigo próprio e com os outros; é necessário colocar esse objetivo no topo das prioridades educativas. Se a orientação da política educativa não for claramente essa, torna-se ainda mais difícil recuperar as aprendizagens ao nível dos conhecimentos. É necessário ter presente, uma vez mais, que as aprendizagens das crianças e dos alunos requerem o seu bem-estar, especialmente emocional e relacional. Também não são os manuais digitais que ajudarão a compreender a importância desta dimensão da aprendizagem: “O écran é muito pobre em mundo e em realidade […] a depressão não é mais do que um agravamento patológico da pobreza do mundo. A digitalização contribui para a sua propagação. As infoesferas intensificam o nosso egocentrismo […] A comunicação digital prejudica de forma considerável as relações humanas.” Byung C. Han 2022, pp. 60-62).
A introdução dos manuais escolares digitais nesta fase em que estamos ainda a recuperar das dificuldades ao nível da interação social que já se vinha deteriorando antes da pandemia, exige estratégias e/ou planos com enfoque numa relação mais física, mais presencial, onde as pessoas possam interagir entre si, e não na promoção acrítica de práticas de mera conexão virtual. Estar conectado com uma “máquina”, não é a mesma coisa que estabelecer uma interação com e entre pessoas, independentemente das vantagens das novas tecnologias que, quando utilizadas na justa medida, podem ser particularmente úteis. Na verdade, o importante, é que aprendamos a usar a ferramentas digitais como instrumentos de liberdade e não como instrumentos de servidão.
Não queremos, com certeza, que a interação presencial, a relação física entre pessoas na sala de aula, por exemplo, seja subjugada por uma relação unidirecional, neutra e vazia, ligada a um simples ecrã. O recurso mais importante do ato educativo é, definitivamente, o professor. Só ele é que “empresta” às relações pedagógicas a verdadeira essência do processo de ensino e de aprendizagem: a dimensão humana. Ou será que também queremos condenar esta dimensão, perdoe-se-me o exagero, ao seu “aniquilamento”?
O manual digital tende a aumentar (conjuntamente com o smartphone) a ilusão de que o mundo, a realidade, está ao alcance dos nossos dedos e magnificamente esparramada num simples ecrã. Esta “ecranização” da realidade torna-nos, ainda mais, escravos de uma cultura cada vez mais digital e tecnológica. E nas escolas, hoje, são os manuais digitais, mas, amanhã, quem sabe, poderão ser a inteligência artificial e os robôs humanoides a assumirem a responsabilidade pela educação das nossas crianças e dos nossos alunos. Estaremos dispostos, então, a perder a prerrogativa da dimensão radicalmente humana da educação? Preferiremos a assunção, na sua plenitude, do homo digitalis?
Com a digitalização da realidade e a introdução nas várias dimensões da nossa vida da inteligência artificial (IA) estamos, muito provavelmente, a entrar naquilo que o filósofo alemão Peter Sloterdijk designou de “era antropotécnica”.
Produtor da cultura, o homem é, concomitantemente, o seu produto. A cultura, hoje, tem uma dimensão essencialmente digital e tecnológica, sendo nós, consequentemente, o seu produto. Por outras palavras, a nossa maneira de ser, de estar, de agir, de nos relacionarmos connosco e com os outros, está cada vez mais determinada, condicionada e influenciada por esse tipo de cultura. Essa é, pois, a justificação do filósofo quando se refere ao nosso tempo, como era antropotécnica. Emerge, nessa perspetiva, também, o homo digitalis e, muito provavelmente, dizemos agora nós, o desafio de uma nova antropologia.
À semelhança do que já fiz numa outra pequena reflexão que intitulei, “Sob o efeito do scroll: conectados ou desconectados?!”, convoco, aqui, o pensador alemão. Na sua entrevista concedida ao Expresso, a propósito, então, do conceito da era antropotécnica, diz: “O meu pressuposto é que os seres humanos do futuro serão muito menos moldados pelas artes e pelas letras […], mas sobretudo pelos dispositivos do nosso meio ambiente digitalizado. Isto pode parecer uma triste notícia para os amadores das humanidades clássicas, mas o processo global da civilização está a caminhar nessa direção.” (in Revista Expresso, Edição 2642, 2023).
Não sei se os nórdicos quando decidiram recuar na utilização dos manuais digitais nas suas escolas, não teriam pensado que seria melhor para o futuro da humanidade, deixarem-se moldar, preferencialmente, pelas letras e pela arte, e não tanto pelo “ambiente digitalizado”. Se o pensaram, talvez tivessem feito uma boa opção. Contribuir para a formação do homo digitalis não é, pelo menos por enquanto, o objetivo prioritário da escola.
É interessante verificar que em Taiwan, país conhecido por ter dos melhores alunos do planeta, estão previstas sanções pecuniárias para os pais que não saibam dosear a “prática digital” sendo o objetivo não permitir que se ultrapasse os 30 minutos consecutivos, no máximo, a exposição dos seus filhos dos 2 aos 18 anos a qualquer dispositivo digital (Desmurget, 2021, citado por Joaquim Fialho, 2023, p.82).
Ainda ontem, num jornal, o título de uma notícia remetia para um fenómeno preocupante: “pouca luz natural e muito tempo de ecrãs estão a fazer disparar a prevalência da miopia. Em 2050, estima-se que metade da população será míope.” Nessa notícia escreve-se, também, que alguns países asiáticos, como a Coreia do Sul, estão a “reformular os currículos escolares”, de modo a aumentar o tempo disponível ao ar livre.
Certamente que não explorei, aqui, com a profundidade que seria desejável, os impactos dos manuais digitais nas escolas. Em todo o caso, sempre diria, sem pretender cair numa perspetiva simplista e reducionista, que não podemos, numa lógica obsessivamente “digitaloide”, ceder à tentação de, através da escola, deixar que o “visual virtual” vença ou contribua, ainda mais, para deteriorar as interações presenciais, físicas, ou para facilitar o desaparecimento, parafraseando Byung Chun Han, da “aura do olhar.”
Jota Eme