O APAGÃO da RACIONALIDADE vs. CRISE DA VERDADE
Uma reflexão crítica sobre os perigos do populismo contemporâneo e a erosão dos princípios iluministas no discurso político atual.
A “Trumpmania” emerge como um fenómeno sociopolítico essencialmente caracterizado pela ilusão gerada por um homem narcisista que encarna, na perfeição, a encenação e a mentira, com o único intuito de, basicamente, atingir o poder para a sua autoglorificação. Trata-se de alguém que se afigura como um arquidemónio, com especial apetência pelo despotismo, geralmente mobilizador da violência, do ódio, da ideologia xenófoba e do atropelo a direitos inalienáveis do ser humano.
O trumpismo é o paradigma da irracionalidade consubstanciada, sobretudo, num tipo de discurso e prática simplistas, cujos representantes invocam Deus do seu lado, apresentam soluções imediatas para todos os males e problemas da humanidade, e, além disso, para estes, todos os que não estão de acordo com as suas “propostas” estão definitiva e irremediavelmente errados e/ou manipulados por forças demoníacas ou por interesses perigosos e esconsos. Em síntese, o trumpismo não andará muito longe desta mundividência manifestamente maniqueísta e pretensamente dona da verdade absoluta.
O perigo para a sociedade, nas mais diversas dimensões (económica, social e cultural), resulta, pois, da primazia - da “vitória” - das emoções exacerbadas, do delírio psicopata e da ignorância, desrespeitando, de forma ostensiva e ignóbil, a visão racional assente no respeito por princípios histórica e universalmente aceites, como a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Se tivéssemos de traçar o perfil psicológico de Trump, não andaríamos muito longe do que diria sobre ele a literatura da psicologia e da psiquiatria: trata-se de um homem atormentado pelo desejo insaciável de poder e de vingança; de uma vontade indomável de se afirmar como se fosse um deus único na Terra; vê-se a si próprio como um iluminado, capaz de conquistar o mundo; como ser que despreza a verdade; alguém com a convicção inabalável de que está ontologicamente acima de todos; um ser que se anima com a promoção da violência, com pulsões eminentemente destrutivas; um ser que é indiferente à injustiça social, à crueldade, ao sofrimento dos outros; um ser que, com as suas artimanhas verborrágicas, cria a ilusão de que pode fazer os outros felizes, afastando-os, para o efeito, da verdadeira realidade.
Lembro aqui uma filósofa espanhola que, num pequeno mas soberbo ensaio, afirma de forma simples, mas assertiva: “Estamos, em todo o planeta, em termos de anti-iluminismo. [...] No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora.” (Marina Garcés, in Novo Iluminismo Radical, 2023).
Jota Eme