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Bricolage da Escrita

Bricolage da Escrita

A BARBÁRIE TEM NOME

René Descartes, o filósofo francês do século XVII, afirmava que a razão era o bem mais bem distribuído entre os homens.
Se, naquela altura, tivesse conhecido alguém com o perfil do atual primeiro-ministro israelita — e outros como ele — talvez hesitasse antes de formular tal princípio. Benjamin Netanyahu, principal artífice da tragédia em curso na Palestina, é, tal como os líderes do Hamas, uma demonstração flagrante de que a razão não é um bem comum a toda a humanidade.

Homens como Netanyahu ou os seus adversários do Hamas parecem destituídos desse bem precioso: a razão. O que possuem, em abundância, é uma forma ativa de estupidez — uma estupidez que, infelizmente, se banalizou e ameaça corroer o próprio ideal da razão como fundamento humano.

Netanyahu é uma máquina de morte. Um exportador impiedoso de tudo o que há de mais repugnante. O seu único desígnio parece ser a violação sistemática, sem sombra de compaixão, dos direitos mais elementares da pessoa humana.

Não é o Hamas que ele ataca. Os seus líderes estarão, aliás, bem protegidos, algures num hotel do Catar. O que ele destrói, sem cessar, é a dignidade humana. E fá-lo com uma obstinação que roça a euforia.
Pior ainda: parece inebriado por essa ânsia de aniquilar o outro. Como se matasse para se afirmar, e a destruição fosse o seu modo de existir.

E nós?
Também nós andamos inebriados. Como escreveu Paul Valéry, vivemos mergulhados num excesso de tudo:

“Excesso de velocidade; excesso de luz; excesso de tónicos, de estupefacientes, de estimulantes; excesso de frequência nas sensações; excesso de diversidade; excesso de ressonâncias; excesso de facilidades; excesso de maravilhas […] O nosso sistema orgânico […] comporta-se em relação a esses poderes e a esses ritmos […] como em relação a uma droga insidiosa. Habitua-se ao seu veneno, começa a exigi-lo e, a cada dia que passa, considera a dose insuficiente […] Os próprios acontecimentos são procurados como alimento […] Estamos todos envenenados.”
(Paul Valéry, O Governo da Máquina, 2024)

Estamos anestesiados. Atordoados por um mundo que corre depressa demais, sentimos tudo e não sentimos nada. A dor alheia tornou-se ruído de fundo.

Sejamos honestos: também nós falhámos. A nossa passividade perante o sofrimento alheio é um silêncio cúmplice. Mas o silêncio não é ausência. É presença — presença cúmplice. É a normalização do intolerável. A barbárie prossegue não só porque há quem a pratique, mas também porque há quem a tolere, quem a relativize, quem a consuma ao jantar enquanto muda de canal.
É nessa banalidade do mal — feita de distração, cansaço e desistência — que a barbárie encontra terreno fértil.

O próximo não é apenas quem vive ao nosso lado.

O próximo também é quem está longe.

Porque a humanidade somos todos nós.

 

Jota Eme

O HUMANISMO EM EXTINÇÃO?

REFLEXÕES AMARGAS SOBRE O ESVAZIAMENTO DA CONDIÇÃO HUMANA

Vivemos imersos numa cultura de ruído, aparência e superficialidade. Rodeados de gente — conectada, eficiente, visível —, parecemos cada vez mais distantes do que nos torna verdadeiramente humanos: o pensamento, a escuta, a empatia, a capacidade de estar com o outro.

O pequeno texto que se segue nasce da inquietação e do desencanto, mas também da vontade de pensar criticamente o presente, inspirado pelas leituras de autores como Byung-Chul Han e MarinaGarcés.

Entre o ensaio e o desabafo, estas linhas não são apenas um espelho deformado da sociedade atual — são, talvez, um convite ao desconforto necessário de quem ainda se recusa a adormecer.

Vejo, em muitos lugares e momentos, esta multidão fragmentada, ruidosa, saturada de si:

  • Gente que se comove sem nada sentir — como quem simula afetos num teatro digital onde a emoção é exibida, mas nunca vivida;
  • Gente fossilizada na tacanhez cultural, submissa por hábito, obediente por conveniência, incapaz de suspeitar que o mundo pode ser outro;
  • Gente aduladora do supérfluo, bajuladora de chefes e figuras de poder, que confunde presença com prestígio e sucesso com aparência — gente sem a noção do equilíbrio entre razão e emoção, capturada por uma estética de superfície;
  • Gente de comportamentos miméticos, sem traço nem alma, que repete o que vê e ouve sem discernimento, encurralada nas pseudocertezas onde a arrogância serve de refúgio à ignorância;
  • Gente autofágica, enredada num narcisismo patológico que se alimenta da expulsão do outro e do culto da imagem — beleza exterior como nova divindade, pobreza espiritual como deserto consentido, e a solidão digital como miragem de um “novo social”;
  • Gente falsamente revoltada, condoída com o sofrimento longínquo, mas indiferente ao rosto próximo — a denúncia global substitui o cuidado concreto, como se partilhar uma hashtag fosse ato de compaixão;
  • Gente que despreza a autenticidade e se oculta na aparência, numa vida construída para ser vista, não vivida;
  • Gente que caminha com altivez, como se o destino humano lhe fosse alheio — esquecendo, como escreveu Marco Aurélio, que todos partilhamos a mesma condição: ontem uma gota de sémen, amanhã um punhado de cinzas;
  • Gente que confunde fé com crendice, misticismo com superstição, espiritualidade com consumo emocional — como se a transcendência pudesse ser comprada em embalagens motivacionais;
  • Gente que repudia o pensamento, que desconfia da dúvida, e que se curva perante a certeza fácil — que idolatra coaches, influencers e manuais de felicidade de três passos, como se a complexidade da vida pudesse ser resolvida com fórmulas;
  • Gente que, numa servidão voluntária, renuncia ao pensamento crítico e se entrega, por cansaço ou comodismo, à ilusão do “solucionismo” — crente de que todas as questões humanas têm resposta num tutorial, num algoritmo, num líder carismático;
  • Gente que, sem se dar conta, alimenta a globalização da superficialidade, da indiferença e da estupidez;
  • Gente que se submete à lógica da algocracia, onde a decisão é automatizada, a escolha é dirigida e a liberdade é programada;
  • Gente que privilegia a comunicação digital como espelho narcisista — ouve-se a si mesma em eco infinito, mas esquece como se escuta verdadeiramente o outro;
  • Gente que acredita, ingénua e arrogantemente, que os outros não veem quem ela é — quando, na verdade, já se perdeu de si;
  • Gente que insiste em esquecer que é feita da mesma matéria e do mesmo tempo que todos os outros, enquanto finge ser exceção num mundo onde todos partilham a mesma fragilidade essencial.

Vivemos rodeados de “gente” — mas cada vez mais órfãos de humanidade. E, no fundo, talvez sejamos todos, em momentos diferentes, um pouco dessa gente.

Jota Eme

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