Entre a Presença e a Ausência: A Atualidade Ética das Parábolas do Bom Samaritano e do Juízo Final
À partida — a avaliar pelo título — poder-se-ia pensar que estamos perante um texto de matriz religiosa, com origem em alguém que pretende defender ou atacar alguma crença. Ora, neste caso, nem uma coisa, nem outra.
Pretende-se, à luz da contemporaneidade, refletir sobre uma passagem bíblica e, em articulação com outra, evidenciar como ambas nos interpelam para dimensões há muito afastadas do centro das nossas preocupações quotidianas.
Sempre considerámos a parábola bíblica que iremos explorar como dotada de um poder extraordinário, independentemente da sua conotação religiosa. A parábola oferece-nos uma mensagem de profundo alcance social, ético e solidário. Remete-nos para uma consciência moral que deveria habitar o quotidiano das nossas vidas e — sem receio de parecer exagerado — orientar até as políticas públicas das nações.
Se transcrevermos a respetiva passagem na sua totalidade, compreendemos com maior nitidez o seu alcance existencial e a sua força humanista. Podemos até lê-la como se, em vez de um “Senhor” transcendente, fosse a nossa própria consciência a interpelar-nos.
Há, neste texto sagrado, uma dimensão estética que o torna ainda mais arrebatador: como se se tratasse de uma lei universal, simples e acessível a todos os que se reconhecem no valor da dignidade humana. Em última instância, é como se nos entregasse um princípio tão essencial que pudesse servir de fundamento ético para o nosso agir: um verdadeiro imperativo categórico, como diria Kant.
Vejamos, então, o texto que se impõe como máxima de uma ética admiravelmente incontornável:
“Então os justos Lhe responderão:
Senhor, quando foi que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber?
Quando foi que Te vimos como estrangeiro e Te recebemos, ou nu e Te vestimos?
Quando foi que Te vimos doente ou na prisão e fomos visitar-Te?
E o Rei lhes responderá:
Em verdade vos digo: tudo o que fizestes a um dos Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Evangelho segundo São Mateus 25, 37-40).
A partir daqui, interessa-nos sobretudo inferir as implicações do que passaremos a designar de “parábola invertida”. Pretendemos imaginar, por isso, como responderiam não os “justos”, como já vimos, mas os “injustos” — aqueles que, no dia a dia, ignoram sob as mais diversas formas o seu semelhante, sobretudo os mais vulneráveis.
Não se trata aqui de inverter a parábola no seu conteúdo ou sentido original, mas de mostrar como muitos, ainda hoje, a invertem nas suas ações — ou omissões — diante do sofrimento do outro.
A análise que propomos não é escatológica (como a do Juízo Final), mas enraizada na contingência da vida, no que ela tem de relacional, ético e social. Perguntamo-nos: como se comportariam os que fossem chamados a prestar contas da sua vida pelo “Senhor” — ou, numa leitura profana, pelo nosso “Rei-consciência”? Porque, sendo nós seres essencialmente sociais, essa obrigação interpela-nos a todos.
Atónitos, mas sobretudo imbuídos de um cinismo devastador, desresponsabilizados e talvez ainda na esperança de alguma justificação tardia, os injustos tenderão a inverter a lógica da parábola. Nesse sentido, perguntarão:
Senhor, quando Te vimos com fome e não Te demos de comer?
Quando Te vimos doente, abandonado, e não nos importámos?
Quando Te vimos como estrangeiro e não Te acolhemos?
É como se, transferindo a culpa para a invisibilidade do outro, justificassem a omissão. Como se apenas a evidência garantisse a obrigação de cuidar. Como se, numa sociedade dominada pela ditadura do visível e do quantitativo, ainda houvesse esperança numa avaliação em números.
Precisamos, pois, de retirar à parábola a carga de “juízo final”, redirecionando-a para o âmago da existência de cada um. A cada instante. E se não quisermos vê-la sob o prisma religioso, podemos substituir o “Rei” pela nossa consciência — esse “Rei-consciência” que nos guia, nos desafia e nos obriga a ver no outro o verdadeiro interlocutor da nossa humanidade. Sobretudo nas suas fragilidades — emocionais, sociais, económicas, espirituais.
Uma mensagem particularmente relevante na parábola é, também, o convite a não cedermos à fadiga da indignação perante a fragilidade de que outro, sob diversas formas, pode ser vítima.
A parábola, na nossa opinião, adquire uma atualidade brutal. Face aos fenómenos sociais e políticos que nos rodeiam — os refugiados, os problemas climáticos, as guerras no Médio Oriente, os conflitos armados noutras partes do mundo, até na própria Europa — somos convocados a responder. Que nos diz a nossa consciência? A título de exemplo: estaremos a ser verdadeiramente hospitaleiros com quem não tem onde se abrigar? Quando Te vimos sem casa e não Te acolhemos? Quando Te vimos com fome e não Te demos de comer? Poderíamos continuar, interrogando-nos se o outro é visível para nós ao ponto de nos comprometermos efetivamente com ele. Conseguimos ser empáticos ao ponto de nos colocarmos no seu lugar, como se fosse connosco?
Os cínicos, movidos por moralismos de fachada, tentarão justificar o injustificável: que o país é só deles, que a fome é lá longe, que os outros são perigosos, que não têm direito à dignidade, que a guerra é o caminho para a paz. Falam assim porque o outro continua invisível — e assim tudo se torna desculpável.
Mas hoje a parábola suscita novas perguntas, na senda da interpelação ética:
Senhor, quando Te vimos sozinho — e Te abandonámos?
Quando Te vimos desesperado — e fingimos não Te reconhecer?
Quando Te vimos velho, cansado, carente de amor — e Te ignorámos?
Quando Te vimos ao nosso lado a pedir uma palavra — e nem sequer demos por isso?
Quando Te vimos perseguido sob diversas formas, violentado por diversos meios — e fingimos que não era connosco?
Estas interrogações aumentam e agravam-se num mundo dominado por uma lógica digital que, apesar da hiperconectividade, fragmenta as relações humanas, esvazia a presença e transforma a atenção em navegação indiferente. A parábola, ao exortar-nos à profundidade da relação com o outro, contradiz esta lógica de distração e desumanização promovida por tantas dinâmicas tecnológicas. O apelo à empatia torna-se, hoje, um gesto contra a indiferença algorítmica — contra um vazio existencial.
Gosto sempre de trazer à colação — de cor e em versão livre — uma passagem de Marco Aurélio que, de forma provocadora, nos lembra a nossa condição transitória: ontem fomos uma gota de sémen, amanhã seremos uma mão cheia de cinzas. Eis o retrato da nossa transitoriedade. E, ainda assim, tantas vezes cega e propensa à negação do outro.
Poderíamos continuar a multiplicar as perguntas da parábola — que é, afinal, uma lição socrática. Porque nela está implícito o princípio do autoconhecimento, da consciência das nossas limitações e da urgência de superarmos a cegueira ética em relação ao outro.
Sem uma consciencialização permanente da parábola como repto positivo, sem a aprovação íntima do nosso “Rei-consciência”, não conseguiremos transitar para uma globalização da proximidade, da empatia, da solidariedade. A parábola exige um compromisso ético quotidiano, um exercício constante de atenção e responsabilidade. Como se a sabedoria prática fosse a verdadeira via para a nossa melhoria enquanto pessoas. Como se o primado da ética tivesse de se sobrepor — hoje mais do que nunca — a qualquer outro princípio dúbio ou interesse instrumental.
Em síntese, a parábola instiga-nos a pensar e a agir em relação ao outro como condição sine qua non do nosso crescimento pessoal e da afirmação de um mundo sem fronteiras — nem raciais, nem económicas, nem sociais nem geográficas. Porque a humanidade só se cumpre verdadeiramente na síntese integradora e acolhedora de todas as diferenças. E nisso reside também o que hoje apelidamos, tantas vezes, de inclusão.
E talvez o que mais nos falte na vida comunitária seja isso mesmo: uma bússola ética que nos impeça de naufragar na vacuidade das nossas opiniões e convicções. Que nos recorde que, apesar da nossa transitoriedade, há sempre um gesto, um cuidado, uma escuta que pode celebrar a verdadeira fraternidade.
Por exemplo, quando passamos por alguém a dormir na rua numa manhã gelada, e justificamos a nossa indiferença dizendo “não vi”, “não era comigo” ou “há instituições para isso”, estamos a viver a parábola invertida. A ausência do gesto, a recusa do olhar, a desculpa racionalizada tornam-se respostas à pergunta: “Quando Te vimos com frio e não Te acolhemos?” A pedagogia da parábola reside exatamente aqui — na responsabilidade que temos mesmo quando não vemos, porque a consciência vê sempre.
Certamente que esta reflexão se alongará, mas, também pela sua pertinência atual, valerá a pena trazer também aqui a parábola do Bom Samaritano (Evangelho segundo Lucas 10, 25-37).
A parábola do Bom Samaritano contém em si um existencialismo ético de que a nossa sociedade, em geral, carece. Recoloca no centro, uma vez mais, a ideia de que a nossa humanidade se realiza na medida em que acolhemos o outro — sem condicionalismos, sem filtros, independentemente das suas diferenças culturais, étnicas ou religiosas.
Aquele homem deixado a morrer à beira do caminho, empobrecido, espancado e faminto, é socorrido não por quem se esperaria que o fizesse — os seus conterrâneos, religiosos e cultos — mas por um estrangeiro ( o Bom Samaritano), um herege, alguém exterior ao seu círculo de pertença É precisamente esse “outro”, visto como estranho e impuro, quem realiza um gesto ético irrepreensível: detém-se, cuida, acolhe, repara. A sua humanidade transcende a norma, a filiação, o preconceito.
Temos aqui o estrangeiro não como bárbaro — como na antiga Grécia se designavam os que vinham de fora e não tinham a mesma língua, usos e costumes—, mas como alguém que encarna o ideal do verdadeiro humanismo.
É impressionante a atualidade pedagógica, ética e existencial destas mensagens bíblicas, mesmo quando despidas da sua conotação religiosa. Cumprem uma missão moral, política, cultural e social de grande densidade, capazes de envergonhar muitas das ideologias (ou ausência delas) que povoam o espectro político nacional e internacional.
E, se restassem dúvidas sobre o que acabámos de afirmar, bastaria concretizar.
Olhando com atenção os movimentos migratórios — tantas vezes percebidos com desconfiança ou medo —, vemos que os estrangeiros que chegam, frequentemente empobrecidos e feridos pela guerra ou pela fome, não apenas desafiam a nossa capacidade de acolhimento, mas, paradoxalmente, acabam por ser os que mantêm vivas diversas estruturas económicas dos próprios países que os rejeitam. São, de certo modo, os samaritanos do nosso tempo — aqueles que, mesmo excluídos, sustentam, servem e, por vezes, reerguem.
O gesto parece aqui inverter-se: já não somos apenas nós chamados a acolher o outro — somos também, muitas vezes sem o perceber, acolhidos pela dádiva que o outro transporta. O próprio excluído, o “impuro” pode emergir como o verdadeiro agente de humanidade contra preconceitos, radicalismos socioculturais e religiosos.
Em tempos de expansionismos e reafirmações nacionalistas, a parábola ajuda-nos a reconhecer como são secundários os limites geográficos ou identitários, quando comparados com a exigência ética de ver o outro como um fim em si mesmo, e não como meio.
Importa, por isso, reconhecer como certas leituras ancestrais ainda são capazes de nos interpelar com tamanha atualidade — sobretudo no que toca ao chamamento ético para com o outro, consubstanciado no amor, na compaixão e no cuidado. Simultaneamente, configuram aquilo que hoje, tanta falta nos faz: a esperança numa humanidade melhor.
As parábolas, à luz da contemporaneidade, revelam-se como uma forma de tornar mais visível à nossa consciência o modo como, tantas vezes, o sofrimento do outro se torna invisível aos nossos olhos — e, pior ainda, como esse sofrimento se banaliza e se normaliza estupidamente no nosso quotidiano. Infelizmente, os exemplos proliferam (quer próximo de nós, quer um pouco por todo o mundo).
No fundo, aquele “Senhor” da parábola que espera a dádiva incondicional ao outro pode hoje ser lido como esse nosso “Rei-consciência” — uma instância íntima, ética e silenciosa, que nos desafia a ser melhores, não por imposição externa, mas por fidelidade à nossa própria humanidade. Porque agradar a esse “Rei” é, afinal, cumprir a parábola — vivê-la na atenção ao outro, no gesto, na escuta, na empatia — como quem reconhece que o outro é, desde sempre, parte de nós.
Ainda recentemente, a filósofa norte-americana Samantha Rose Hill, numa entrevista a um jornal semanário nacional, evocava Hannah Arendt — filósofa política alemã de origem judaica (1906-1975) que dizia ser essencial não como respondemos perante o tribunal da opinião pública, mas sim perante nós próprios: onde encontramos a capacidade de resistir, protestar, falar, fazer o que é preciso. Julgo que a leitura contemporânea das parábolas aqui referidas aponta exatamente nesse sentido: um repto lançado à nossa consciência, desafiando-nos a agir em conformidade com aquilo que ela nos dita.
Na esteira de Arendt, impõe-se assumir o risco de sermos humanos — não apenas na vontade permanente de compreender o mundo, mas também no compromisso de o transformar. Para melhor, evidentemente.
Jota Eme