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Bricolage da Escrita

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A BANALIZAÇÃO DA ESTUPIDEZ

Depois de ver na TV, ocorre-me dizer, com profundo sentimento de revolta:
A proposta do primeiro-ministro de Israel ao Comité Nobel da Paz para 2025, com vista à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Donald Trump, para além de absurda, é um manifesto desrespeito — e um insulto — à própria paz.

Que sabe o primeiro-ministro de Israel sobre paz? Que legitimidade lhe assiste — atendendo ao que conhecemos das permanentes e indiscriminadas agressões ao povo da Palestina — para se arrogar o direito de propor tal nomeação? Quais foram os critérios? Estará ele, porventura, a operar numa novilíngua que desconhecemos, em que paz significa guerra, amor significa ódio, e os crimes contra a humanidade são rebatizados como gestos de solidariedade humanitária? Aliás, Marina Garcés diz, a propósito: “No domínio político, cresce uma apetência autoritária que faz do despotismo e da violência uma nova força mobilizadora…” (Novo Iluminismo Radical, 2023, p. 11). Benjamin Netanyahu representa, com exatidão, essa “apetência”.

E Donald Trump? Que fez este homem de tão notável em prol da paz para ser nomeado para tão prestigiado prémio? Não tem sido ele, precisamente, um promotor da paz através da guerra — ou melhor, da paz como dominação, silenciosa ou violenta, dos mais fracos pelos mais fortes? O negacionismo que apregoa no domínio da ciência, por exemplo em matéria de saúde e ambiente, não está a pôr em causa a paz, na sua dimensão mais profunda: o direito à vida digna e sustentável? A sua política imperialista, autoritária, marcadamente xenófoba e promotora da ignorância, não contribui para a instabilidade global, para a intolerância e para a destruição de pontes entre os povos?

Tudo isto é absurdo — e trágico, ainda que quase anedótico. Como pode o primeiro-ministro israelita — numa atitude de aparente subserviência a Donald Trump — prestar-se, perante o mundo, a uma situação tão ridícula? Como se pode ofender, deste modo, todos os que genuinamente receberam o Prémio Nobel da Paz e, até, todos nós, cidadãos que acreditamos no valor da justiça e da verdade? Como pode um homem que tem, perante o Tribunal Penal Internacional responsabilidade criminal pelo que está a suceder na Palestina, permitir-se dirigir-se aos membros do Comité Nobel da Paz com uma proposta que fere frontalmente a dignidade dessa instituição e o significado histórico do próprio prémio?

Assistimos, indubitavelmente, à consolidação de um mundo dominado por dirigentes que alimentam a pós-verdade — esse território onde os factos perderam valor e a mentira, repetida à exaustão, se transforma em discurso dominante. Estamos a ser vítimas da hipernormalização do absurdo, da banalização do inaceitável, da vulgarização da estupidez, travestida de realismo político ou de coragem moral.

Temos, pois, de resistir — resistir à tendência crescente de infantilização da mente humana, à tentativa de estupidificação deliberada do ser humano, e à destruição das referências éticas que ainda nos podem unir enquanto comunidade humana. Como escreveu Albert Camus, "o homem revoltado é aquele que diz não", mas esse não contém já, em si, uma afirmação: a de que há limites morais que não podem ser ultrapassados sem que todos sejamos, coletivamente, feridos.

Jota Eme

AINDA A PROPÓSITO DO QUE SE DIZ SOBRE A AUSÊNCIA DE RONALDO

PERANTE A DOR SOMOS TODOS IGUAIS

Apenas algumas palavras sobre o que o escritor Pedro Chagas Freitas escreveu a propósito da ausência de Cristiano Ronaldo no funeral dos dois irmãos (Diogo Jota e André Silva). Vou pegar numa das frases, quanto a mim, nuclear do seu texto: “Se viesse, seria um circo da dor ainda maior.” Respeito a opinião, mas não consigo concordar com ela.

Dizer que a presença de Ronaldo transformaria o momento num “circo da dor” parece partir da ideia de que ninguém seria capaz de manter o foco no essencial — a dor da perda, o silêncio, a solidariedade — e que todos seríamos inevitavelmente dominados pelo espetáculo. Não me parece justo. Nem para os presentes, nem para o próprio Ronaldo.

Não pretendo, com isto, criticar a decisão de Ronaldo. Fez o que achou melhor. E isso basta. Mas também não creio que tudo girasse à volta dele, caso tivesse decidido comparecer. Nem que a sua presença agravasse a dor — muito menos que a transformasse em espetáculo.

A verdade é que esta visão de Pedro Chagas Freitas, acaba, involuntariamente, por reforçar uma ideia que me parece perigosa: a de que Ronaldo está num plano à parte, acima de todos, até mesmo quando se trata de luto. Como se a sua presença fosse tão avassaladora que tornasse impossível viver o momento com recolhimento e respeito. Como se nós, os “comuns”, fôssemos incapazes de distinguir o que importa do que é secundário.

Pelo contrário, é precisamente nestes momentos — de perda, de despedida, de humanidade exposta — que mais facilmente percebemos que somos todos iguais. Que não há estádios nem palcos nem luzes. Apenas pessoas. Fragilidade. Presença ou ausência. E talvez seja essa a verdadeira lição: diante da morte, ninguém está acima de ninguém.

 

Jota Eme

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