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Bricolage da Escrita

Bricolage da Escrita

Esperança que Humaniza: Antídoto contra o Medo e a Desumanização

( II Parte)

No nosso tempo tende-se a priorizar o sobreviver em detrimento do viver. Para além de um narcisismo incorrigível que nos fecha sobre nós próprios, vivemos tomados pelo medo — medo de pensar, de agir com espírito crítico e autonomia; medo, enfim, de assumir a autenticidade da vida.

A esperança, ao manifestar-se na procura do novo, tem uma relação indissociável com o conhecimento. Ao abrir-se ao imprevisível, potencia o desenvolvimento do saber, projetando-o como oportunidade para melhorar a nossa existência.

Essa dinâmica reflete a nossa condição enquanto seres pensantes, críticos e construtivos, afastando-nos da tendência acrítica que rejeita o conhecimento como elemento central na busca da verdade — esta entendida como provisória e jamais definitiva. Como apontava o filósofo Gaston Bachelard, o conhecimento, embora progressivo, projeta sempre sombras, refletindo os seus limites e a incerteza inerente à busca da verdade.

É nesse movimento contínuo e aberto que o conhecimento pode crescer e consolidar-se, transformando-se num motor para a ação consciente e para a transformação da realidade. A esperança, assim, não é mero sentimento passivo, mas uma força ativa que sustenta a vontade de compreender, questionar e agir para além do presente.

Byung-Chul Han reforça esta ideia recorrendo a Nietzsche: “[…] podemos entender la esperanza como estado especial del espíritu que se asemeja a un embarazo. Tener esperanza es estar preparado para el nacimiento de lo nuevo…” (2024, p. 51).

Quando a esperança se esvai, o conhecimento reduz-se a um eco vazio do já sabido, a um saber que apenas confirma o mundo tal como ele é, sem ousar transcendê-lo. A perda da esperança abre caminho ao pensamento fragmentado e extremado, que alimenta ideologias autoritárias e autocráticas. Quando a esperança é corrompida, o conhecimento estagna, fechando-se à inovação e à crítica, precipitando consequências nefastas nos domínios da saúde, do progresso social e da vida cultural.

A perda da esperança é o solo fértil onde germinam o medo e a angústia, que sufocam a capacidade de pensar e arrastam-nos para o desespero.

Hoje, na era das tecnologias e da inteligência artificial (IA), importa que a esperança emerja como a concretização de um pensamento afetivo e corpóreo que a IA não possui. Como alerta Byung-Chul Han: “Sin afectos, emociones ni pasiones, y en general sin sentimientos, no hay conocimiento: Los sentimientos intervienen el pensamiento […] Los sentimientos y los afectos no pueden reflejarse en algoritmos […] la inteligencia solo es capaz de calcular…” (2024, p. 93). Essa dimensão do conhecimento como amor, como paixão, é alheia à inteligência artificial.

A esperança realiza-se no amor ao conhecimento não numa dimensão retrospetiva, mas prospetiva — na pulsão para o novo, na busca inconformada pelo desconhecido. Não se limita, à semelhança de uma máquina, a acumular dados ou a repetir padrões: é movimento vital que interroga, que se arrisca, que não se satisfaz com respostas prontas. Ao contrário da inteligência artificial — que apenas processa informação segundo algoritmos e não é capaz de pensar no sentido humano, afetivo e criador — a esperança integra razão e sentimento, imaginação e ética, projetando um futuro que ainda não existe.

Nesta perspetiva, conhecer é mais do que compreender: é comprometer-se com a transformação da realidade, deixando-se afetar por ela e afetando-a em retorno. É este vínculo vivo entre sentir, pensar e agir que sustenta o conhecimento autêntico — um saber que não se conforma com o que é, mas que trabalha para abrir caminho ao que ainda não existe, alimentando uma ação transformadora enraizada na ética e na liberdade.

No confronto com a visão do conhecimento da IA, a esperança do conhecimento verdadeiramente humano tem a dimensão do amor. Este amor não se reduz ao afeto pessoal, mas é também desejo de verdade, abertura ao outro e coragem de buscar o que ainda não existe. Talvez o filósofo coreano sintetize melhor esta ideia quando afirma: «La inteligencia artificial no es capaz de pensar porque no tiene amigos ni amantes. No sabe lo que es eros. No anhela lo distinto» (2024, p. 97). Han lembra-nos que o pensar humano não se constrói apenas sobre lógica ou cálculo, mas sobre a força vital do eros, que nasce das relações, dos vínculos e da capacidade de desejar o novo e o distinto. A IA pode reconhecer padrões e gerar respostas, mas não pode viver amizade, amor ou desejo — e é nesse vazio que reside a diferença essencial entre o cálculo e o pensamento vivo, entre o processamento e a esperança criadora.

Ao longo desta caminhada ficou claro que a esperança é, no essencial, uma forma de vida, porquanto deve fazer parte do nosso quotidiano existencial. Byung-Chul Han mostra-nos que ela é uma força ética e existencial, uma resposta vital contra o medo, a alienação e o niilismo, que marcam a sociedade contemporânea.

A esperança é, pois, uma postura vital que implica resistência, perseverança e uma busca constante por sentido e transformação; uma prática concreta que orienta o nosso comportamento diante das dificuldades e incertezas, motivando-nos a continuar apesar das adversidades; um compromisso com uma vida que se constrói, que busca sentido e valor no presente, abrindo-se ao novo e ao possível.

Mais do que uma atitude individual, a esperança revela-se também como compromisso coletivo, motor de transformação social e de construção de comunidades mais justas, solidárias e humanas. Não é estática nem passiva, mas processo dinâmico e contínuo, que se renova a cada desafio. Exige de nós um compromisso ético profundo — um convite para sermos agentes ativos na construção de um mundo melhor, onde o sentido, o valor e a humanidade possam prevalecer.

Seguindo a estrutura da obra de Byung-Chul Han, diríamos, em poucas palavras, que a esperança é ação em busca de sentido, é conhecimento em construção, é uma forma de vida.

Gostaria de concluir recorrendo ao autor que, à semelhança de outras reflexões, despertou em mim esta sobre a importância da esperança, particularmente nos nossos dias. Diz o filósofo: «La esperanza es un estado de ánimo mesiánico […] La clave fundamental de la esperanza es la venida al mundo como nacimiento» (2024, pp. 137, 140). Ou seja, a esperança não é um mero conceito, mas uma força criadora, acolhedora e transformadora — uma forma de vida que se renova continuamente, uma ação em busca de sentido e um compromisso ativo com o mundo e com o que nele é possível.

A esperança é, em última instância, a “ambição moral” de que tão bem nos fala Rutger Bregman no livro com o mesmo nome (2025, Bertrand Editora): não apenas como ideia abstrata, mas também como “estado de espírito” e “atitude”. Numa entrevista ao Público (15 de agosto de 2025), o autor afirmou: “Sempre preferi a palavra esperança em vez de otimismo, porque a esperança é sobre a possibilidade de mudança. E, mais importante, obriga-te a agir, a fazer alguma coisa.”

Mais do que um sentimento ou uma disposição interior, a esperança é um modo de habitar o mundo que se inscreve na ação, resiste ao desespero e afirma, contra todas as evidências de imobilismo, a possibilidade de um futuro diferente.

 

Jota Eme

Nota: Para esta reflexão muito contribuiu a edição espanhola El Espíritu de la Esperanza – Contra el miedo, de Byung-Chul Han ( Herder Editorial, S.L., Barcelona, 2024).

 

 

INCÊNDIOS – QUANDO AS CHAMAS COLETIVAS QUEIMAM A ESPERANÇA E REVELAM O PREÇO DA INDIFERENÇA

Em agosto de 2022, publiquei (no meu blogue) um texto marcado pela indignação e tristeza face aos incêndios que, ano após ano, ceifam vidas, destroem paisagens naturais e dilaceram comunidades inteiras.

Passaram três anos, mas poderia tê-lo escrito hoje, palavra por palavra, sem alterar uma vírgula. A realidade não mudou. O diagnóstico continua a ser o mesmo. A inércia, a falta de planeamento e a sucessiva ausência de estratégias estruturantes permanecem. A cada verão repetem-se as imagens, as perdas e as promessas vãs. O que em 2022 já era urgente, em 2025 é ainda mais.

Irrita-me, sobremaneira, por esta altura, os cenários dantescos e devoradores dos fogos que grassam um pouco por todo o nosso país. Já sei que noutros países também acontece, mas o que me preocupa, por esta altura, é o que se passa no nosso. O que vemos é verdadeiramente trágico e não nos pode deixar indiferentes, naturalmente.


É absolutamente deplorável assistirmos a imagens aterradoras que nos fazem sentir revoltados, indignados e impotentes perante a aflição de tantas pessoas e a destruição incrível de um património indispensável à vida de todos nós. Como conseguimos ser tão descuidados, tão pouco exigentes na prevenção de um fenómeno que já nos deu oportunidades mais do que suficientes para aprendermos a mitigar os seus sinistros efeitos?!


Será que ainda não percebemos que não podemos continuar a adiar soluções para este fenómeno dos incêndios? Será que ainda não atingimos que estamos a caminho de deixar, especialmente às próximas gerações, uma série de problemas muito sérios por absoluta incúria nossa? Será que ainda não consciencializámos que a destruição do património florestal é uma agressão à natureza de (im)previsíveis consequências a vários níveis? Será que temos uma tendência coletiva inexoravelmente suicida?! Quero, apesar de tudo, acreditar que não.

A minha revolta é, no entanto, resultado da convicção de que os responsáveis políticos têm, sucessiva e incompreensivelmente, negligenciado e postergado este grave problema dos incêndios. Já não há desculpas. Continuam incapazes de definir uma estratégia nacional com impacto na diminuição dos efeitos deste fenómeno recorrente e sempre com graves prejuízos, nomeadamente de natureza social, económica e ecológica para o país.
Aparentemente, as causas dos incêndios são, basicamente, sempre as mesmas: temperaturas elevadas, falta de ordenamento do território, negligência dos cidadãos, etc., etc. Acresce, sobretudo ultimamente, a ênfase nas alterações climáticas. O diagnóstico parece estar feito.

Ora, perante a tragédia, com réplica cada vez mais desastrosa de verão para verão, perguntamo-nos, com natural legitimidade, porque tarda tanto tempo a fazer-se essa reordenação territorial, a formar os cidadãos, a encontrar outras formas de contornar ou, pelo menos, mitigar os efeitos das alterações climáticas. Quais são os principais obstáculos?


Desde a década de 80 (do século passado) que os incêndios têm sido manifestamente muitos e devastadores na perda de vidas humanas e dos seus bens elementares, e na destruição da floresta portuguesa, com inevitáveis prejuízos para a nossa realidade socioeconómica.

Apenas quando chega cada verão se reage como se, mais uma vez, tivéssemos sido surpreendidos; como se todo o trabalho de prevenção ao longo do ano tivesse sido em vão ou, ainda pior, se tivesse revelado sem qualquer qualidade.

Fazem-nos crer (pretendem fazer-nos acreditar, diria eu) que os incêndios são uma inevitabilidade. Simultaneamente, como se não bastasse esse falso determinismo, os políticos tendem a colocar o ónus da responsabilidade de grande parte dos incêndios que vão lavrando um pouco por todo o país na irresponsabilidade individual (pasme-se!) dos cidadãos que, por vários motivos, diz-se, ateiam e provocam incêndios por tudo quanto é canto.
Ora, há por aí estudos (é o que, como todos sabemos, menos falta no nosso país!) que nos dão conta de que o Estado é o que mais negligencia a floresta que está sob a sua inteira responsabilidade. Que legitimidade tem, então, para colocar o foco da responsabilidade dos incêndios no cidadão comum?! O que é isto?! Quem pode levar a sério os slogans pedagógicos que são profusamente espalhados por todo o lado?! Porque assistimos, calados e acriticamente, a esta ofensa ao cidadão que espera, acima de tudo, que os seus impostos sejam, nesta e noutras matérias, devidamente aplicados?!

O que me parece é que os políticos, de um modo geral (há sempre exceções), sejam de direita, de esquerda ou do centro, são incapazes de uma estratégia antecipatória a médio e a longo prazo; incapazes de, apesar dos avanços tecnológicos, antecipar e coordenar soluções complexas que respondam a problemas complexos, como o dos incêndios; incapazes de pôr em marcha soluções estruturantes e que acautelem os nossos interesses e direitos no presente, bem como os das gerações vindouras. Acaso temos consciência das verdadeiras e incomensuráveis consequências dos incêndios? Por vezes, não parece. São inúmeras e, em última instância, com graves prejuízos para a nossa própria sobrevivência. Essa consciência, só por si, deveria ser pretexto para um maior rigor e preocupação na esfera da prevenção. Chega de desculpas. Chega de adiar. Chega de conversa.

E nem sequer quero ouvir dizer, quase em jeito de maior tolerância e desculpabilização (o que é ainda pior), que noutros países europeus e não só também acontecem incêndios e que são igualmente devastadores. Talvez as causas sejam as mesmas. Não sei. Provavelmente, o marasmo dos responsáveis políticos e de vários organismos e/ou entidades seja igualmente o mesmo. Por outras palavras: por acontecer noutros países, não significa que possa ser mais desculpável por estar a acontecer no nosso. Com certeza que há causas comuns a todos os países, mas também causas específicas de cada um.

Entretanto, tudo se discute por esses órgãos de comunicação social em geral, como numa passagem interminável de modelos falantes, sempre numa perspetiva reativa e na convicção oca e triste de que daqui para a frente é que vai ser! Ainda não se fez tudo, mas para o ano pode-se pensar melhor: noutras estratégias! Noutros meios! Noutra organização! Noutra atitude! E por aí fora… generalidades… apenas isso! E os incêndios prosseguem, “imperturbáveis”, a sua voracidade incontrolável.

Os especialistas em incêndios, como acontecia por altura da fase mais crítica da pandemia, são tantos que se estorvam; todos reclamam a palavra para nada resolver. E, no final, todos chegam, incrível e visivelmente satisfeitos, a um consenso verdadeiramente determinante, admiravelmente sagaz e que cabe numa pequenina palavra: adiar! Ou postergar, como outros, por uma questão de estética discursiva, gostam de dizer.

Os especialistas e os políticos estão, nessa matéria, de mãos firmemente dadas; a sua superior inteligência obedece ao mesmo princípio: tudo o que é urgente e estruturante é sempre para o dia seguinte, para o próximo mês, para o ano que aí vem ou, para facilitar ainda mais, durante a próxima legislatura (se se tratar, por exemplo, de quatro anos, até nos esquecemos das soluções que alvitraram!). Neste último caso, quando não há cumprimento do prometido, são sempre invocadas vicissitudes, conjunturas nacionais ou internacionais, sejam elas de que natureza forem! E nós lá vamos acreditando. Uns mais do que outros, claro!

Os responsáveis dos partidos políticos que ciclicamente vão a eleições também não fazem constar das suas agendas o assunto ou flagelo sazonal dos incêndios. Porquê? Afinal, trata-se de um assunto de particular relevância na vida de cada um de nós e, a médio e a longo prazo, de extrema importância para a qualidade de vida das gerações vindouras e, como já se disse, da própria sobrevivência da espécie humana. Talvez a culpa também seja nossa, pois assistimos, impávidos e serenos, aos paupérrimos programas eleitorais, como se isso não fosse connosco. Mas é. E muito.

Por último, e sem me querer alongar muito mais no assunto, perdoe-se-me a minha ignorância, mas não percebo porque é tão difícil, com tantos recursos técnicos e humanos, continuarmos com dificuldades em identificar, em todo o país, com maior precisão e rigor, os pontos verdadeiramente críticos e, sobretudo, os que são de particular relevância.

Quem não se lembra da calamidade que se abateu sobre Pedrógão? Quem não se recorda do desastre do Pinhal de Leiria?! Ainda hoje não percebo porque se descurou, em termos de prevenção, essas e outras situações. Ou talvez até entenda. Mas, se for pelos motivos que eu penso (e outros pensarão o mesmo), então um dia, para além da floresta, arderemos todos. Será aí, talvez, o derradeiro sinal de que deixámos que a mediocridade conseguisse, esplendorosamente, a sua vitória!

Ainda na linha dos meus limitados conhecimentos teóricos e técnicos sobre a prevenção de incêndios, também não percebo o motivo de não se acionar outros meios preventivos, mesmo em termos de “humidificação antecipada”, por exemplo, de determinadas zonas de interesse nacional, a fim de minimizar hipotéticos efeitos de incêndio nessas áreas, como é o caso, diria eu, dos parques naturais. Nós não queremos (ou, se se preferir, deveremos evitar) estados de contingência e de alerta. A gestão do bem comum não pode ser, tragicamente, uma gestão de calamidades, de acontecimentos sazonais e fortuitos; como se a política fosse uma espécie de arte de contornar o acaso; como se essas pseudossoluções adquirissem, naturalmente, o estatuto de norma! É pouco, muito pouco.

Exijamos, assim, a quem nos governa, uma preparação e planificação estratégicas (técnica e humana) capaz de antecipar problemas e propor, atempadamente, soluções que envolvam, também, os próprios cidadãos. Nisso reside a verdadeira arte de governar e a construção de um caminho que possa garantir a salvaguarda do interesse individual e coletivo. Se não queremos que a crise da democracia se agudize e continuem a assombrar-nos os extremismos políticos, a realidade dos incêndios e de outros assuntos requer, por parte de quem nos governa, a sabedoria de uma mundivisão interdependente e complexa da realidade (ambiental, social, sanitária, económica, cultural) e, simultaneamente, a capacidade de responder aos desafios atuais na base da antecipação, do diagnóstico e do planeamento atempado.

Não é tempo para polarizar discursos nem para partidarizar um flagelo que a todos atinge. A atribuição de culpas não pode ser pretexto para a inação nem para a divisão. É fundamental que não se aproveitem as redes sociais para fomentar violência verbal e ódios inúteis e sem sentido, nem para replicar notícias ou conteúdos de forma simplista e provocatória, que apenas desviam energias do que realmente importa.

Todos nós, de algum modo, somos responsáveis — pelo que fazemos e pelo que deixamos por fazer. Se continuarmos a transformar esta tragédia em campo de disputa política ou ideológica, estaremos a afastar-nos daquilo que verdadeiramente importa: proteger vidas, prevenir destruição, cuidar do que é de todos. Sejamos solidários e exigentes: eis duas condições essenciais para ajudarmos na prevenção desta tragédia que nos afeta — hoje e no futuro.

Porque, se não agirmos já, haverá um dia em que não restará nada para salvar. E, nesse dia, não será apenas a floresta que terá ardido — terá ardido também a nossa responsabilidade coletiva.

Jota Eme

ESPERANÇA – A DESOBEDIÊNCIA QUE NOS MANTÉM HUMANOS

Manifesto pela esperança como ato radical

Vivemos sob constantes ameaças — da guerra, incluindo a nuclear, do exacerbamento de posições nacionalistas e xenófobas, das alterações climáticas, com implicações no aumento da temperatura global e na poluição, sujeitos a ataques cibernéticos inesperados à nossa segurança e privacidade, e também sob o efeito da erosão de algumas instituições sociais, judiciais, políticas e religiosas, as quais, durante muito tempo, foram âncoras de orientação e segurança existenciais.

Vivemos tempos de crise, especialmente consubstanciados num mar de incertezas e de insegurança individual e coletiva.

Que soluções temos, então, para combater ou mitigar esses sentimentos negativos, para afastar o medo que, por vezes, nos oprime e paralisa? Eu diria que o antídoto, a solução, é, sem dúvida, a esperança!

Hoje, é não só importante abordar a esperança do ponto de vista teórico — compreender o conceito — como é sobretudo urgente interiorizá-la: como caminho de resistência às principais ameaças já identificadas; como ação em permanente busca de sentido; como estratégia de conhecimento enquanto processo de busca da verdade; como prática imprescindível à coesão social.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, a quem recorro, nas minhas modestas reflexões, com alguma regularidade, continua a espantar-me pela versatilidade e pertinência do seu pensamento sobre o mundo atual. Agora — depois de, nos seus mais de vinte livros (o primeiro, em 2010, com A Sociedade do Cansaço), nos ter dado a conhecer, de forma crítica, algumas das fragilidades da sociedade contemporânea — traz-nos um novo e breve ensaio intitulado, na versão espanhola que adquiri, El espíritu de la esperanza – Contra la sociedad del miedo (2024, Herder Editorial, S.L., Barcelona), ainda não editado em Portugal.

Não me vou deter nas críticas — favoráveis e menos favoráveis — que este livro tem suscitado. Pessoalmente, considero que, pela atenção peculiar que dedica à esperança, esta obra emerge como uma resposta regeneradora, capaz de abrir espaço para uma existência com sentido e plenamente humana.

A esperança surge como uma mensagem que pode oferecer algum consolo num mundo que, apesar dos inegáveis progressos nas mais diversas áreas, continua a provocar instabilidade emocional e existencial. Daí a necessidade premente de uma reflexão sobre a esperança enquanto possibilidade ética, humana e filosófica.

Apesar de Byung-Chul Han ter concentrado, até aqui, grande parte da sua reflexão numa sociedade profundamente alienada, marcada pela lógica neoliberal e pelo excesso de positividade, este novo livro parece representar uma viragem. Han propõe agora que, mesmo no meio do caos social e da alienação dominante, a esperança pode revelar-se como uma força de transcendência — uma capacidade própria do ser humano de se erguer para além das suas fragilidades existenciais e reencontrar um sentido que resista à desumanização.

Na perspetiva do filósofo, numa sociedade tendencialmente dominada pelo medo — designadamente o medo de pensar — vamos perdendo uma das características fundamentais do ser humano: a liberdade. Medo e liberdade são, por natureza, incompatíveis. Veja-se o exemplo das sociedades ditatoriais, onde aqueles que ousam pensar de forma diferente são perseguidos, silenciados ou presos. Nesses contextos, o medo serve como instrumento de domesticação das consciências.

Mas também nas sociedades democráticas se vão instalando formas mais subtis de controlo: o medo da exclusão social, do fracasso, da inadequação, da não conformidade. São medos mais silenciosos, mas igualmente eficazes a inibir o exercício da liberdade crítica. A esperança, neste contexto, é o que pode devolver ao sujeito a coragem de pensar e agir contra a corrente, de acreditar na possibilidade de transformação, mesmo quando tudo parece apontar para o conformismo ou a resignação.

Nos dias de hoje, segundo Byung-Chul Han, o medo tornou-se uma verdadeira epidemia. Ele próprio escreve que “lo verdaderamente preocupante es la propagación del clima de miedo”. Recordando o tempo da pandemia, refere que: El problema no es el miedo a la pandemia, sino la pandemia de miedo (El espíritu de la esperanza - Contra la sociedad del miedo, 2024, p. 16). O que está em causa não é apenas o medo enquanto reação ocasional, mas a sua disseminação como estado de espírito coletivo, como atmosfera dominante.

A esperança, por seu lado, combate o medo. Etimologicamente, a palavra “esperança” deriva do latim spes, que significa aguardar o futuro com confiança, numa atitude ativa e não resignada. Carrega em si a ideia de movimento, orientação e possibilidade. É uma força interior que nos impele a caminhar, mesmo quando as condições externas parecem adversas.

Han assinala também esse contraste etimológico: “Ya por la etimología del término, la esperanza es opuesta al miedo” (p. 17). De facto, a esperança redime a condição humana porque, como afirma o autor, “es la única que nos hace ponernos en camino. Nos brinda sentido y orientación, mientras que el miedo imposibilita la marcha” (p. 16).

A questão seguinte é talvez das mais importantes para percebermos o sentido, significado e alcance da esperança. Se vivemos um tempo conturbado a vários níveis, se nos sentimos sem uma bússola orientadora, qual é, em termos práticos, a importância da esperança? Melhor: como se dá a esperança num mundo aparentemente desesperançado? Como emerge a esperança numa situação de vivência individual e coletiva em desespero existencial?

Adentremos, uma vez mais, no pensamento de Han, que nos dá uma resposta aparentemente paradoxal: “Quanto más profunda sea la desesperación, más fuerte será la esperanza” (p. 17).

Independentemente dos nossos credos religiosos ou de outras convicções, atrevo-me, para ilustrar o que acabámos de referir, a começar por olhar para o exemplo da passagem bíblica a propósito do sacrifício de Isaac, o filho de Abraão. Que maior desespero existe do que o sacrifício violento de um filho? No entanto, há no mais profundo íntimo de Abraão a esperança de que aquele sacrifício não será em vão. Há um misto de esperança e de fé que ultrapassa o dilacerante desespero e angústia de sacrificar o único filho. No desespero radica a esperança, o sentido último daquela ação. Há em Abraão uma convicção inabalável de que aquilo que Deus lhe pede — por mais horrendo, incompreensível e dilacerante que seja — acabará por revelar um sentido maior, que ultrapassa a lógica humana e não se deixa apreender pelos sentidos nem pela razão imediata.

Em última instância, ainda dentro de uma visão religiosa, a esperança encontra o seu expoente máximo no desespero de Cristo na Cruz, que culmina, para os crentes, na sua Ressurreição. Cristo, que tinha tudo à sua disposição para se negar ao suplício daquele martírio, escolheu dar lugar à esperança na alegria da Ressurreição; paradoxalmente, esta encontra lugar na morte — para a vida. Cristo não prefere o martírio nem opta pela dor; privilegia a esperança na alegria de viver. O grito “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46) é o eco mais agudo do desespero. E, no entanto, é precisamente nesse abismo que ocorre o salto da esperança — não como fuga ao sofrimento, mas como fidelidade ao sentido, mesmo quando tudo parece perdido.

Tudo isto continua a iluminar o que Han quer dizer quando afirma: “Quanto más profunda sea la desesperación, más fuerte será la esperanza”.

No mundo contemporâneo, o caos, o sofrimento, a angústia, a ansiedade, o medo, o infortúnio, as inverdades e as incertezas — tudo aquilo que gera dor, individual ou coletiva — pode remeter-nos para o silêncio, para o vazio, para uma resignação triste e conformada. No entanto, se assim o quisermos, esses mesmos abismos podem tornar-se pretextos para uma elevação interior, para a regeneração, para o florescimento de algo novo que, enfim, vença o medo. Só a esperança como resistência pode levar a cabo esse desiderato.

Apresentemos alguns exemplos inspiradores que revelam não só a força da esperança, mas também a humanidade que nela radica, mesmo em situações extremas de desespero e adversidade. A esperança — reiteramos — é uma forma de resistência; não é apenas um conceito, mas sobretudo uma ação.

Há quem recorra a empréstimos bancários para custear viagens e outras despesas apenas para estar junto e apoiar os que mais sofrem — como aqueles que, na Palestina, lutam diariamente pela sua sobrevivência.

Muitas pessoas com doenças terminais vivem com uma serenidade surpreendente, desafiando todas as previsões médicas — um testemunho eloquente do poder da esperança que se mantém mesmo diante do fim iminente. De modo semelhante, em situações extremas de sofrimento — fome, luto, desespero absoluto — como as vividas pelos habitantes de Gaza, há quem ainda consiga olhar os filhos com ternura e um sorriso. Nesse caos, esses gestos humanos assumem um valor imenso: lutar por uma vida melhor, contra todas as probabilidades, revela a esperança como uma força que resiste mesmo na mais profunda adversidade.

Outros exemplos poderiam ser os dos pais que, ao enfrentar a tragédia de perder os seus filhos, escolhem não se resignar; criam grupos de apoio e interajuda entre pessoas que sofreram perdas semelhantes, carregando assim a semente da esperança, seja qual for o seu sentido — religioso ou outro. Migrantes vindos de várias partes do mundo, perseguidos e vítimas de inúmeras adversidades, ousam procurar novos horizontes. Buscam desafios e uma vida melhor para si e para os seus, mesmo conscientes dos perigos e dos medos que os espreitam. É a esperança que os move; resiste o ímpeto do futuro e do novo que há de chegar.

A esperança apresenta-se, assim, como força revigorante e transformadora. Como afirma Han: “No se puede recomenzar sin esperanza. El espíritu de la esperanza inspira para actuar. Infunde una pasión por lo nuevo [...] sin espíritu de la esperanza, la actividad se reduce a mero hacer o a resolver problemas [...] la esperanza presupone, además, un futuro abierto, que también traerá acontecimientos no pretendidos, no previsibles e incontrolables de antemano” (2024, pp. 64 e 67).

São igualmente admiráveis as pessoas que, vítimas de grandes catástrofes, perdem todos os seus bens e, ainda assim, conseguem mobilizar forças para reconstruir as suas vidas e projetos. É a esperança que fala mais alto.

Não menos importante é a luta empreendida por escritores, filósofos, cientistas e cidadãos anónimos que, num mundo muitas vezes dominado por inverdades, se dedicam à construção de um mundo mais verdadeiro e autêntico. Só na esperança se dá a liberdade — nas suas múltiplas manifestações.

Movimentos sociais, greves, protestos e ativismo emergem como expressões de inconformismo perante a realidade; leituras críticas e construtivas do presente que apontam para um projeto de mudança. A esperança não se limita ao diagnóstico; exige ação concreta e a consciência de que é necessário transcender o presente.

A esperança é, também, o exercício da liberdade. Como afirma Byung-Chul Han: “Tener esperanza es mucho más que aguardar pasivamente o desear. La esperanza se caracteriza fundamentalmente por su entusiasmo y su afán [...] Hay que distinguir entre la esperanza pasiva, inactiva y débil, y la esperanza dinámica, activa y fuerte [...] La esperanza no sabe lo que es darse por satisfecha ni quedarse contenta” (2024, pp. 46-47).

Num mundo em que a positividade é assumida como condição existencial, perde-se o vínculo com a esperança porque se perde também a noção multifacetada da vida. Confunde-se sobrevivência com vida verdadeiramente vivida — uma vida marcada pela inquietude e pela negatividade que lhe são intrínsecas.

Atualmente, tende a vigorar uma lógica que rejeita essa negatividade necessária: o questionamento, a pausa e a espera passam a ser vistos como sinais de fraqueza ou pessimismo, e, por isso, descartados. Nessas condições, não há esperança — existe apenas a gestão do presente. E a esperança não é passiva; implica rutura com o estado de coisas.

Han recorda a máxima de Martin Luther King: “I have a dream”. Esperança é esse sonho acordado de transformação, de acreditar, de confiar no futuro — e, de algum modo, de ter fé também.

Complementarmente, podemos dizer que esperança não se confunde com otimismo. O otimismo repousa numa expectativa positiva, quase automática, de que as coisas melhorarão por si mesmas. É uma disposição confortável, que tende a aceitar o presente como inevitável, confiando num progresso natural.

Já a esperança, segundo Han, é resistência: recusa conformar-se com o estado das coisas, mesmo quando a adversidade parece inamovível. É força que desnormaliza a realidade, abrindo espaço para pensar, agir e transformar. Assim, a esperança não se limita a esperar — ela questiona, incomoda, move e rompe com o presente.

Não nasce da segurança de um desfecho, mas da decisão de caminhar, mesmo sem garantias. Neste sentido, a esperança é uma escolha ética e política, que se projeta como ação e conhecimento, e não como mera disposição otimista; é a recusa de deixar que a dor ou a violência tenham a última palavra.

Para Byung-Chul Han, a negatividade é indissociável da esperança. Ele não a concebe sem o desafio da resistência, sem a vigilância crítica, sem a abertura ao imprevisível, ao novo. Aprecio as suas palavras, onde, de forma quase poética, afirma: “Desesperación y esperanza son como valle y montaña. La negatividad de la desesperación es inherente a la esperanza” (p. 18).

Sensibilizou-me, ainda recentemente, uma reportagem televisiva sobre um professor de um Instituto de Música de Gaza, destruído pelos bombardeamentos israelitas. Entre tendas improvisadas, ele ensinava crianças a tocar alguns instrumentos. A imagem é de uma força desarmante e brutal: aquelas crianças, martirizadas por perdas e horrores que não deveriam conhecer, deixavam que os sons e a dança brotassem como um grito de esperança. Era como se, naquele gesto, afirmassem silenciosamente que a guerra pode destruir paredes, mas não a música; pode roubar lares, mas não a dignidade; pode semear medo, mas não calar o que é profundamente humano. A esperança, aqui, não é um consolo passivo, mas um ato de resistência moral — um não à barbárie, dito com a coragem frágil e indomável da infância; a esperança, aqui, é radicalmente resistente.

Em contrapartida, num mundo dominado pela positividade, que afasta o sofrimento, a amargura da vida e o seu lado negativo, privilegiando o prazer imediato — consubstanciado na posse de bens materiais e no endeusamento das futilidades — não há lugar para a esperança.

Tudo se encerra no tempo curto do presente, sem qualquer narrativa; tudo se esvai no imediato, sem abertura a novas possibilidades ou à imprevisibilidade. A esperança não tem lugar numa existência onde prevalece a lógica do puro consumismo, onde passado, presente e futuro se rompem; onde não existe espera; onde o desconforto da falta não é tolerado; onde se nega a autenticidade da vida, que é sempre híbrida, feita de plenitude e ausência, luz e sombra.

Neste contexto, se a existência se limitar à mera sobrevivência — centrada sobretudo na satisfação imediata de desejos e necessidades — estaremos mais próximos de uma vida amorfa, carente de sentido, vazia de conteúdo e geradora de angústia e ansiedade. A esperança, enquanto atitude, confere sentido à existência. Como afirma Han: “Vida y esperanza son lo mismo. Vivir significa tener esperanza” (p.44).

 

Jota Eme

 

Nota: Esta reflexão, numa próxima oportunidade, terá continuidade, aprofundando a relação entre esperança e conhecimento, assim como a importância da esperança enquanto modo de vida.

UMA LEITURA QUE VALE A PENA: "A HORA DOS PREDADORES"

Há livros que nos deixam uma sensação de nostalgia, como se fosse imperioso continuar o diálogo com o autor; como se não quiséssemos que ele partisse; como se ainda houvesse tanto para aprender com ele. "A Hora dos Predadores" é um desses livros. Pequeno no tamanho, mas vasto no alcance, abre um campo de reflexão urgente sobre o poder no mundo contemporâneo, em especial sobre a influência crescente dos empreendedores digitais e das novas oligarquias tecnológicas. Ao fechá-lo, permanece a inquietação e o desejo de regressar às suas páginas, como quem não quer perder de vista uma conversa essencial para compreender o nosso tempo.

Giuliano da Empoli, o autor, revela, com precisão cirúrgica, como estes novos predadores moldam a economia, a política e até as narrativas coletivas, explorando a nossa dependência tecnológica e a fragilidade das democracias. Não são apenas empresários ou visionários: são engenheiros de perceções, estrategas de dados e arquitetos de futuros que servem sobretudo os seus próprios interesses. O ensaio, ao expor essas dinâmicas, convoca-nos a pensar para além do óbvio e a questionar o que está em jogo quando entregamos tanto do nosso presente — e do nosso futuro — a tão poucos.

JOTA EME

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