Vivemos sob constantes ameaças — da guerra, incluindo a nuclear, do exacerbamento de posições nacionalistas e xenófobas, das alterações climáticas, com implicações no aumento da temperatura global e na poluição, sujeitos a ataques cibernéticos inesperados à nossa segurança e privacidade, e também sob o efeito da erosão de algumas instituições sociais, judiciais, políticas e religiosas, as quais, durante muito tempo, foram âncoras de orientação e segurança existenciais.
Vivemos tempos de crise, especialmente consubstanciados num mar de incertezas e de insegurança individual e coletiva.
Que soluções temos, então, para combater ou mitigar esses sentimentos negativos, para afastar o medo que, por vezes, nos oprime e paralisa? Eu diria que o antídoto, a solução, é, sem dúvida, a esperança!
Hoje, é não só importante abordar a esperança do ponto de vista teórico — compreender o conceito — como é sobretudo urgente interiorizá-la: como caminho de resistência às principais ameaças já identificadas; como ação em permanente busca de sentido; como estratégia de conhecimento enquanto processo de busca da verdade; como prática imprescindível à coesão social.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, a quem recorro, nas minhas modestas reflexões, com alguma regularidade, continua a espantar-me pela versatilidade e pertinência do seu pensamento sobre o mundo atual. Agora — depois de, nos seus mais de vinte livros (o primeiro, em 2010, com A Sociedade do Cansaço), nos ter dado a conhecer, de forma crítica, algumas das fragilidades da sociedade contemporânea — traz-nos um novo e breve ensaio intitulado, na versão espanhola que adquiri, El espíritu de la esperanza – Contra la sociedad del miedo (2024, Herder Editorial, S.L., Barcelona), ainda não editado em Portugal.
Não me vou deter nas críticas — favoráveis e menos favoráveis — que este livro tem suscitado. Pessoalmente, considero que, pela atenção peculiar que dedica à esperança, esta obra emerge como uma resposta regeneradora, capaz de abrir espaço para uma existência com sentido e plenamente humana.
A esperança surge como uma mensagem que pode oferecer algum consolo num mundo que, apesar dos inegáveis progressos nas mais diversas áreas, continua a provocar instabilidade emocional e existencial. Daí a necessidade premente de uma reflexão sobre a esperança enquanto possibilidade ética, humana e filosófica.
Apesar de Byung-Chul Han ter concentrado, até aqui, grande parte da sua reflexão numa sociedade profundamente alienada, marcada pela lógica neoliberal e pelo excesso de positividade, este novo livro parece representar uma viragem. Han propõe agora que, mesmo no meio do caos social e da alienação dominante, a esperança pode revelar-se como uma força de transcendência — uma capacidade própria do ser humano de se erguer para além das suas fragilidades existenciais e reencontrar um sentido que resista à desumanização.
Na perspetiva do filósofo, numa sociedade tendencialmente dominada pelo medo — designadamente o medo de pensar — vamos perdendo uma das características fundamentais do ser humano: a liberdade. Medo e liberdade são, por natureza, incompatíveis. Veja-se o exemplo das sociedades ditatoriais, onde aqueles que ousam pensar de forma diferente são perseguidos, silenciados ou presos. Nesses contextos, o medo serve como instrumento de domesticação das consciências.
Mas também nas sociedades democráticas se vão instalando formas mais subtis de controlo: o medo da exclusão social, do fracasso, da inadequação, da não conformidade. São medos mais silenciosos, mas igualmente eficazes a inibir o exercício da liberdade crítica. A esperança, neste contexto, é o que pode devolver ao sujeito a coragem de pensar e agir contra a corrente, de acreditar na possibilidade de transformação, mesmo quando tudo parece apontar para o conformismo ou a resignação.
Nos dias de hoje, segundo Byung-Chul Han, o medo tornou-se uma verdadeira epidemia. Ele próprio escreve que “lo verdaderamente preocupante es la propagación del clima de miedo”. Recordando o tempo da pandemia, refere que: El problema no es el miedo a la pandemia, sino la pandemia de miedo (El espíritu de la esperanza - Contra la sociedad del miedo, 2024, p. 16). O que está em causa não é apenas o medo enquanto reação ocasional, mas a sua disseminação como estado de espírito coletivo, como atmosfera dominante.
A esperança, por seu lado, combate o medo. Etimologicamente, a palavra “esperança” deriva do latim spes, que significa aguardar o futuro com confiança, numa atitude ativa e não resignada. Carrega em si a ideia de movimento, orientação e possibilidade. É uma força interior que nos impele a caminhar, mesmo quando as condições externas parecem adversas.
Han assinala também esse contraste etimológico: “Ya por la etimología del término, la esperanza es opuesta al miedo” (p. 17). De facto, a esperança redime a condição humana porque, como afirma o autor, “es la única que nos hace ponernos en camino. Nos brinda sentido y orientación, mientras que el miedo imposibilita la marcha” (p. 16).
A questão seguinte é talvez das mais importantes para percebermos o sentido, significado e alcance da esperança. Se vivemos um tempo conturbado a vários níveis, se nos sentimos sem uma bússola orientadora, qual é, em termos práticos, a importância da esperança? Melhor: como se dá a esperança num mundo aparentemente desesperançado? Como emerge a esperança numa situação de vivência individual e coletiva em desespero existencial?
Adentremos, uma vez mais, no pensamento de Han, que nos dá uma resposta aparentemente paradoxal: “Quanto más profunda sea la desesperación, más fuerte será la esperanza” (p. 17).
Independentemente dos nossos credos religiosos ou de outras convicções, atrevo-me, para ilustrar o que acabámos de referir, a começar por olhar para o exemplo da passagem bíblica a propósito do sacrifício de Isaac, o filho de Abraão. Que maior desespero existe do que o sacrifício violento de um filho? No entanto, há no mais profundo íntimo de Abraão a esperança de que aquele sacrifício não será em vão. Há um misto de esperança e de fé que ultrapassa o dilacerante desespero e angústia de sacrificar o único filho. No desespero radica a esperança, o sentido último daquela ação. Há em Abraão uma convicção inabalável de que aquilo que Deus lhe pede — por mais horrendo, incompreensível e dilacerante que seja — acabará por revelar um sentido maior, que ultrapassa a lógica humana e não se deixa apreender pelos sentidos nem pela razão imediata.
Em última instância, ainda dentro de uma visão religiosa, a esperança encontra o seu expoente máximo no desespero de Cristo na Cruz, que culmina, para os crentes, na sua Ressurreição. Cristo, que tinha tudo à sua disposição para se negar ao suplício daquele martírio, escolheu dar lugar à esperança na alegria da Ressurreição; paradoxalmente, esta encontra lugar na morte — para a vida. Cristo não prefere o martírio nem opta pela dor; privilegia a esperança na alegria de viver. O grito “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46) é o eco mais agudo do desespero. E, no entanto, é precisamente nesse abismo que ocorre o salto da esperança — não como fuga ao sofrimento, mas como fidelidade ao sentido, mesmo quando tudo parece perdido.
Tudo isto continua a iluminar o que Han quer dizer quando afirma: “Quanto más profunda sea la desesperación, más fuerte será la esperanza”.
No mundo contemporâneo, o caos, o sofrimento, a angústia, a ansiedade, o medo, o infortúnio, as inverdades e as incertezas — tudo aquilo que gera dor, individual ou coletiva — pode remeter-nos para o silêncio, para o vazio, para uma resignação triste e conformada. No entanto, se assim o quisermos, esses mesmos abismos podem tornar-se pretextos para uma elevação interior, para a regeneração, para o florescimento de algo novo que, enfim, vença o medo. Só a esperança como resistência pode levar a cabo esse desiderato.
Apresentemos alguns exemplos inspiradores que revelam não só a força da esperança, mas também a humanidade que nela radica, mesmo em situações extremas de desespero e adversidade. A esperança — reiteramos — é uma forma de resistência; não é apenas um conceito, mas sobretudo uma ação.
Há quem recorra a empréstimos bancários para custear viagens e outras despesas apenas para estar junto e apoiar os que mais sofrem — como aqueles que, na Palestina, lutam diariamente pela sua sobrevivência.
Muitas pessoas com doenças terminais vivem com uma serenidade surpreendente, desafiando todas as previsões médicas — um testemunho eloquente do poder da esperança que se mantém mesmo diante do fim iminente. De modo semelhante, em situações extremas de sofrimento — fome, luto, desespero absoluto — como as vividas pelos habitantes de Gaza, há quem ainda consiga olhar os filhos com ternura e um sorriso. Nesse caos, esses gestos humanos assumem um valor imenso: lutar por uma vida melhor, contra todas as probabilidades, revela a esperança como uma força que resiste mesmo na mais profunda adversidade.
Outros exemplos poderiam ser os dos pais que, ao enfrentar a tragédia de perder os seus filhos, escolhem não se resignar; criam grupos de apoio e interajuda entre pessoas que sofreram perdas semelhantes, carregando assim a semente da esperança, seja qual for o seu sentido — religioso ou outro. Migrantes vindos de várias partes do mundo, perseguidos e vítimas de inúmeras adversidades, ousam procurar novos horizontes. Buscam desafios e uma vida melhor para si e para os seus, mesmo conscientes dos perigos e dos medos que os espreitam. É a esperança que os move; resiste o ímpeto do futuro e do novo que há de chegar.
A esperança apresenta-se, assim, como força revigorante e transformadora. Como afirma Han: “No se puede recomenzar sin esperanza. El espíritu de la esperanza inspira para actuar. Infunde una pasión por lo nuevo [...] sin espíritu de la esperanza, la actividad se reduce a mero hacer o a resolver problemas [...] la esperanza presupone, además, un futuro abierto, que también traerá acontecimientos no pretendidos, no previsibles e incontrolables de antemano” (2024, pp. 64 e 67).
São igualmente admiráveis as pessoas que, vítimas de grandes catástrofes, perdem todos os seus bens e, ainda assim, conseguem mobilizar forças para reconstruir as suas vidas e projetos. É a esperança que fala mais alto.
Não menos importante é a luta empreendida por escritores, filósofos, cientistas e cidadãos anónimos que, num mundo muitas vezes dominado por inverdades, se dedicam à construção de um mundo mais verdadeiro e autêntico. Só na esperança se dá a liberdade — nas suas múltiplas manifestações.
Movimentos sociais, greves, protestos e ativismo emergem como expressões de inconformismo perante a realidade; leituras críticas e construtivas do presente que apontam para um projeto de mudança. A esperança não se limita ao diagnóstico; exige ação concreta e a consciência de que é necessário transcender o presente.
A esperança é, também, o exercício da liberdade. Como afirma Byung-Chul Han: “Tener esperanza es mucho más que aguardar pasivamente o desear. La esperanza se caracteriza fundamentalmente por su entusiasmo y su afán [...] Hay que distinguir entre la esperanza pasiva, inactiva y débil, y la esperanza dinámica, activa y fuerte [...] La esperanza no sabe lo que es darse por satisfecha ni quedarse contenta” (2024, pp. 46-47).
Num mundo em que a positividade é assumida como condição existencial, perde-se o vínculo com a esperança porque se perde também a noção multifacetada da vida. Confunde-se sobrevivência com vida verdadeiramente vivida — uma vida marcada pela inquietude e pela negatividade que lhe são intrínsecas.
Atualmente, tende a vigorar uma lógica que rejeita essa negatividade necessária: o questionamento, a pausa e a espera passam a ser vistos como sinais de fraqueza ou pessimismo, e, por isso, descartados. Nessas condições, não há esperança — existe apenas a gestão do presente. E a esperança não é passiva; implica rutura com o estado de coisas.
Han recorda a máxima de Martin Luther King: “I have a dream”. Esperança é esse sonho acordado de transformação, de acreditar, de confiar no futuro — e, de algum modo, de ter fé também.
Complementarmente, podemos dizer que esperança não se confunde com otimismo. O otimismo repousa numa expectativa positiva, quase automática, de que as coisas melhorarão por si mesmas. É uma disposição confortável, que tende a aceitar o presente como inevitável, confiando num progresso natural.
Já a esperança, segundo Han, é resistência: recusa conformar-se com o estado das coisas, mesmo quando a adversidade parece inamovível. É força que desnormaliza a realidade, abrindo espaço para pensar, agir e transformar. Assim, a esperança não se limita a esperar — ela questiona, incomoda, move e rompe com o presente.
Não nasce da segurança de um desfecho, mas da decisão de caminhar, mesmo sem garantias. Neste sentido, a esperança é uma escolha ética e política, que se projeta como ação e conhecimento, e não como mera disposição otimista; é a recusa de deixar que a dor ou a violência tenham a última palavra.
Para Byung-Chul Han, a negatividade é indissociável da esperança. Ele não a concebe sem o desafio da resistência, sem a vigilância crítica, sem a abertura ao imprevisível, ao novo. Aprecio as suas palavras, onde, de forma quase poética, afirma: “Desesperación y esperanza son como valle y montaña. La negatividad de la desesperación es inherente a la esperanza” (p. 18).
Sensibilizou-me, ainda recentemente, uma reportagem televisiva sobre um professor de um Instituto de Música de Gaza, destruído pelos bombardeamentos israelitas. Entre tendas improvisadas, ele ensinava crianças a tocar alguns instrumentos. A imagem é de uma força desarmante e brutal: aquelas crianças, martirizadas por perdas e horrores que não deveriam conhecer, deixavam que os sons e a dança brotassem como um grito de esperança. Era como se, naquele gesto, afirmassem silenciosamente que a guerra pode destruir paredes, mas não a música; pode roubar lares, mas não a dignidade; pode semear medo, mas não calar o que é profundamente humano. A esperança, aqui, não é um consolo passivo, mas um ato de resistência moral — um não à barbárie, dito com a coragem frágil e indomável da infância; a esperança, aqui, é radicalmente resistente.
Em contrapartida, num mundo dominado pela positividade, que afasta o sofrimento, a amargura da vida e o seu lado negativo, privilegiando o prazer imediato — consubstanciado na posse de bens materiais e no endeusamento das futilidades — não há lugar para a esperança.
Tudo se encerra no tempo curto do presente, sem qualquer narrativa; tudo se esvai no imediato, sem abertura a novas possibilidades ou à imprevisibilidade. A esperança não tem lugar numa existência onde prevalece a lógica do puro consumismo, onde passado, presente e futuro se rompem; onde não existe espera; onde o desconforto da falta não é tolerado; onde se nega a autenticidade da vida, que é sempre híbrida, feita de plenitude e ausência, luz e sombra.
Neste contexto, se a existência se limitar à mera sobrevivência — centrada sobretudo na satisfação imediata de desejos e necessidades — estaremos mais próximos de uma vida amorfa, carente de sentido, vazia de conteúdo e geradora de angústia e ansiedade. A esperança, enquanto atitude, confere sentido à existência. Como afirma Han: “Vida y esperanza son lo mismo. Vivir significa tener esperanza” (p.44).
Jota Eme
Nota: Esta reflexão, numa próxima oportunidade, terá continuidade, aprofundando a relação entre esperança e conhecimento, assim como a importância da esperança enquanto modo de vida.