As Burkas Mentais da Nossa Democracia
Entre tantos temas urgentes — justiça, saúde, habitação — a burka também merece atenção. Condená-la é justo; fazê-lo sem reflexão é vestir a nossa própria burka mental.
Mais do que um pedaço de tecido, a burka é a antítese dos valores universais, revelando, ao mesmo tempo, as nossas próprias cegueiras ideológicas. Este texto não se limita a discutir vestuário: propõe uma reflexão sobre liberdade, dignidade e pensamento crítico, lembrando que a atenção aos temas culturais e sociais também é parte de um olhar ético e ponderado.
Como uma contaminação viral, a burka, desde que se soube da proposta em Assembleia da República para a sua proibição no nosso país, converteu-se num assunto amplamente difundido nos meios de comunicação social e, sobretudo, nas redes sociais. Como em muitos outros temas, também este redundou numa discussão assente na lógica binária do “nós contra eles”, atrofiando o pensamento crítico, a abertura e a discussão como instrumento de diálogo para um mundo melhor.
Houve quem viesse a terreiro, muito indignado, afirmar que havia assuntos muito mais importantes do que este e, portanto, que a burka era mais uma estratégia para desviar a atenção do povo para futilidades. Outros, os pseudoarautos de todas as liberdades, bradaram que a proibição dessa indumentária era uma intromissão abusiva nos hábitos e costumes dos povos!
Outros, ainda, cerraram fileiras contra qualquer manifestação de diferença que não se enquadre na nossa forma de pensar, considerando-a uma ameaça à integridade física e um insulto às nossas tradições, às quais todos os que cá estão terão de se adaptar; são os apologistas de uma espécie de aculturação forçada. Há também aqueles que consideram que a quantidade de mulheres que usam burka não justifica tamanho alarido, tornando a proposta inusitada e ridícula. Trata-se dos que medem a importância de um assunto por critérios radicalmente quantitativos.
É claro que o facto de a proposta ter origem num partido extremista de direita é, de algum modo, um pretexto para nos engalanarmos com todos os argumentos possíveis contra o projeto de lei. Certamente. Reconheço que o partido em causa procura protagonismo, falatório, atenção das massas. É verdade. Mesmo assim, a nossa postura deve ser a de uma análise equidistante das nossas tendências políticas.
Concordo, no essencial, com aqueles que defendem que há assuntos mais importantes para discutir: justiça, habitação, saúde e assim sucessivamente. Com certeza. Sem descurar os assuntos mais prementes, não devemos, contudo, ignorar outros que, pela sua natureza cultural, social ou simbólica, também merecem a nossa atenção — sobretudo num mundo inundado de informação, mas com pouco tempo para refletir e ponderar opções e decisões.
Talvez seja pertinente trazer à colação uma brevíssima história da burka. Não nos iremos alongar nem fazer uma análise exaustiva sobre esta peça de vestuário, até porque há seguramente intrincados motivos de natureza social, cultural, religiosa e até política bastante complexos.
Sempre diremos que a burka, em tempos mais recentes, foi, no regime talibã do Afeganistão, por exemplo, um símbolo de domínio religioso e de rejeição dos valores ocidentais. Ou seja: a burka surge como uma imposição religiosa e política que, em última instância, se torna um símbolo de opressão e de controlo do corpo da mulher — como se quisessem, por razões estapafúrdias, condenar a mulher à sua invisibilidade. É uma postura, aos olhos do mundo ocidental, deveras misógina e condenável.
Embora tenha havido ao longo da história algumas nuances na utilização da burka, no essencial ela traduziu sempre um certo ascendente do homem sobre a mulher, tornando-a vítima de vários tipos de segregação e discriminação — social, cultural e sexual. Bastaria esta visão simples da história desta indumentária para percebermos que, pese embora por cá, no nosso país, seja uma raridade, o seu uso não merece acolhimento numa cultura que defende direitos universais, como a dignidade, a justiça e a liberdade.
O relativismo cultural, que considera que não há culturas superiores nem inferiores, não pode servir de pretexto para concordar com hábitos e costumes que representam um atentado aos direitos universais. Quanto mais não seja, este assunto, pelos valores que estão em causa, não deixa de ser importante. Numa sociedade ocidental que pugna pelos direitos fundamentais do ser humano, a burka deve ser vista, pois, como um acessório cultural, no mínimo, dispensável. Devemos respeitar todas as culturas, desde que elas não simbolizem hostilidade a valores e princípios que defendem a dignidade humana.
A burka, em poucas palavras, simboliza um mundo monocromático, uma visão unilateral e radical do ser humano, uma postura que, ao tentar proteger, acaba por ocultar. Talvez o maior problema da burka não seja o tecido que cobre o rosto, mas o pano que cobre o pensamento.
E, sejamos francos, num país em que mal se suporta uma máscara cirúrgica durante uma gripe, a ideia de alguém andar de burka em pleno verão poderia até ser considerada uma questão de saúde pública: risco de desidratação, falta de oxigénio e — quem sabe — défice de vitamina D. Para os que argumentam que há assuntos mais importantes, como cuidar da saúde ou da habitação, talvez valha a pena notar que, de certo modo, a burka também entra nessa lista: toca em bem-estar, segurança e dignidade, ainda que de forma invulgar.
Mais do que o tecido que cobre o rosto, o que realmente merece atenção são os véus invisíveis que nos impedem de pensar, dialogar e ver para lá do óbvio. No fundo, talvez o verdadeiro perigo não esteja na burka que se veste, mas nas muitas burkas mentais que se usam — invisíveis, leves e muito mais difíceis de remover, aquelas que nos impedem de olhar, ouvir e refletir antes de condenar.
Jota Eme