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Bricolage da Escrita

Bricolage da Escrita

A Idade da Reforma: O Desafio de Pensar em Contracorrente

 

Há uma inquietação pessoal que tenho sentido crescer — quase silenciosa, mas persistente. Sempre que ouço ou leio, nas notícias, nos debates ou nos relatórios, o mesmo refrão repetido como um dogma — a ideia de que a sustentabilidade das pensões exige prolongar a idade da reforma — sinto que estamos a avançar em piloto automático. Como se pensar de outro modo fosse uma espécie de heresia. Mas será mesmo assim? Ou estaremos apenas a reproduzir uma ideologia dominante que molda a nossa visão do mundo sem que disso tenhamos plena consciência?

Vivemos, como descreve Byung-Chul Han, numa sociedade do desempenho, onde deixámos de ser sujeitos livres para nos tornarmos “empresários de nós próprios”. A lógica produtivista infiltrou-se nas nossas mentes a tal ponto que trabalhar mais, durante mais tempo e até mais tarde surge como exigência natural, quase moral. Segundo o filósofo Han, este paradigma não cria sociedades mais eficazes, mas sociedades exauridas, esgotadas por uma positividade excessiva que transforma cada vida num projeto de otimização infinita.

O prolongamento da idade da reforma inscreve-se exatamente nesta lógica: a existência humana medida pelo contributo económico. E paradoxalmente, ocorre num tempo em que as tecnologias — incluindo a inteligência artificial — prometem libertar-nos de tarefas repetitivas. Não deveria esta libertação aproximar-nos de mais tempo livre, mais criação, mais convivência e presença? Que sentido faz prolongar a vida laboral como se fôssemos engrenagens de uma máquina industrial do século XX?

Talvez devêssemos ousar pensar ao contrário.

Aumentar a idade da reforma reduz a disponibilidade para apoiar os filhos e os netos, num contexto de natalidade dramaticamente baixa. Que sustentabilidade é esta, se agravamos o problema demográfico que pretendemos resolver? E que futuro projetamos para gerações que enfrentarão não só o envelhecimento, mas também a escassez de recursos naturais? A ideia de “sustentabilidade” revela-se estreita, refém de um pensamento económico que ignora a complexidade humana.

O Japão — um dos países mais envelhecidos do mundo, com cerca de 30% da população estimada em 2025 com 65 anos ou mais — apresenta um espelho desconfortável: tecnologicamente avançado, mas marcado pela solidão, pelo isolamento e por problemas de saúde mental. A extensão da vida laboral não evitou a fragmentação comunitária; ao contrário, acentuou a sensação de isolamento que Han descreve como o mal-estar das sociedades hipercapitalizadas.

Há ainda a dimensão negligenciada da disponibilidade interior. Edgar Morin lembra-nos que a vida humana exige tempo para pensar, criar, contemplar, cuidar — dimensões sacrificadas pela obsessão da produtividade. A reforma poderia ser o espaço fértil para reencontrar esta qualidade de vida: cultivar arte, aprofundar a cultura, participar na comunidade e fortalecer laços familiares. Para resgatar aquilo que a sociedade do desempenho destrói: um sentido de mundo e de pertença.

Por que razão normalizamos que a vida se resuma ao útil, ao rentável, ao mensurável? Será este realmente o horizonte que queremos transmitir às gerações futuras?

Talvez o caminho não seja prolongar a idade da reforma como regra, mas restituir às pessoas a liberdade de escolher. Há quem queira continuar a trabalhar; há quem precise de outro tempo de vida. Uma sociedade madura reconhece esta pluralidade e distribui tempo, cuidado e valor com justiça e humanidade.

Neste sentido, Daniel Innerarity propõe a ideia de democracia complexa: um pensamento que antecipa soluções, que não se deixa escravizar pela simplicidade das respostas fáceis, mas que abraça a diversidade, a reflexão crítica e a construção coletiva de alternativas. Esta abordagem fortalece precisamente aquilo que defendemos aqui: a capacidade de imaginar futuros diferentes e de criar condições para que a vida humana não se resuma a métricas de desempenho ou inevitabilidades económicas.

No fundo, esta discussão não é sobre contas, mas sobre visão. Entre insistir num modelo centrado no desempenho — que, como alerta Han, conduz à fadiga, à solidão e à perda de sentido — ou construir uma sociedade que valorize o cuidado, a criação e a presença, a escolha deveria ser clara. Mas para isso é preciso coragem intelectual para romper com a ideologia dominante e recuperar a capacidade de imaginar um futuro diferente.

E talvez seja aqui que a pergunta de Nietzsche se revela mais urgente do que nunca: seremos capazes de pensar para lá do que todos pensam — ou continuaremos, docilmente, a seguir aquilo que nos dizem ser inevitável?

 

Jota Eme

 

O JANTAR QUE NÃO IMPORTA (Mas Todos Veem)!

 

Na Casa Branca, nos EUA, sentaram-se recentemente à mesa — em amena cavaqueira —, entre outros, a ostentação, o narcisismo, o materialismo, o belicismo, o populismo, a demagogia, a charlatanice e a tecnocracia. Parte do mundo assistiu, num misto de admiração e de subserviência reverencial, ao grande espetáculo dessas vedetas, como se ali, naquele refúgio dourado e principesco, estivesse acantonado o centro vital do destino humano.

Mas será que o mundo se reconhece neste desfile de vaidades? E até que ponto não estaremos a confundir poder com protagonismo, influência com ruído, liderança com teatralidade? Talvez a verdadeira questão seja outra: quem nos habituou a olhar para a mesa errada?

Por mim, gostaria de ver, com a mesma projeção mundial, um jantar em que os protagonistas fossem a justiça, a paz, a ética, a amizade, a solidariedade, a esperança… Talvez então começássemos a compreender que o futuro não se decide apenas nas salas douradas, mas também — e sobretudo — na consciência desperta de cada um.

Jota Eme

O Tutor Artificial do Nosso (Des)Contentamento

 

Hoje em dia, a indignação tem, geralmente, vida curta, porque tem assumido, sobretudo, o nosso lado mais emocional. E, de um modo geral, sabemos como essa indignação, nestes casos, se desfaz como bolinhas de sabão. Vemo-lo em várias dimensões da realidade que nos envolve. Eu também me penitencio por isso. O mais importante, porém, é que a indignação resulte do equilíbrio entre emoção e razão e que perdure como atitude crítica e construtiva.

Vem isto a propósito – podia ser outro tema qualquer – do alegado programa do Ministério da Educação que propõe, dizem, um tutor de IA para cada aluno. Honestamente, esta notícia deixou-me, num primeiro momento, inquieto e, simultaneamente, angustiado. Serenando depois, a indignação de natureza emocional foi dando lugar ao lado mais racional. E foi nesse estado que decidi ponderar alguns aspetos que me parecem merecedores de reflexão e de cautela.

Convém, como nota introdutória, sublinhar que não sou um ludita tecnológico. Reconheço o papel determinante das tecnologias no desenvolvimento científico e social, e o contributo decisivo que têm dado para o bem-estar humano. Isso é inquestionável. Mas, no caso em apreço, mantenho sérias dúvidas — fundamentadas, creio — de que um tutor artificial para cada aluno seja, no essencial, uma mais-valia. Não, não acredito.

Enquanto pensava nisto, li no jornal Público um artigo muito interessante de Pacheco Pereira, com o qual me revejo por inteiro. Em síntese, o que afirma ele sobre esta matéria? Que este programa vem, antes de mais, “minimizar o papel do professor”. Certíssimo. Na verdade, a educação — especialmente a relação pedagógica — é radicalmente humana. Uma relação pedagógica amputada da dimensão humana reduz-se a um ato mecânico. É precisamente nessa relação humana entre alunos, e destes com o professor, que se educa para aquilo que é indissociável da condição humana: a sociabilidade e a capacidade de viver com os outros.

A escola é, em última instância, uma microssociedade, alimentada por relações humanas onde se adquire um conjunto de soft skills socioemocionais, hoje absolutamente determinantes na formação da personalidade multidimensional do ser humano. E aqui, uma vez mais, Pacheco Pereira é elucidativo ao lembrar que “[…] o que acontece é que [as tecnologias] são usadas com escassa vantagem, com efeitos negativos que vêm do modo como se inserem na sociedade, acentuando o individualismo, a solidão, o conflito, a ignorância: nenhuma destas coisas vem das máquinas, vem do modo como estamos a construir o nosso viver…”. Parafraseando os mais jovens: TOP.

O tutor artificial parece resultar mais de um deslumbramento emocional generalizado — e, admitamos, de uma certa moda — do que de uma reflexão ponderada. O ser humano sempre foi (e continuará a ser) produtor de cultura. As tecnologias são expressão disso. Mas, ao mesmo tempo, somos também produto das nossas próprias criações. E as mais recentes, particularmente a IA, têm uma dimensão potencialmente intrusiva na própria essência humana: o pensamento, a reflexão, o sentido crítico. A IA pode condicionar a forma de pensar; pode atrofiar aquilo que ainda nos distingue das máquinas. Como tão bem disse Paul Valéry: “Quanto mais a máquina nos parece útil, mais útil se torna; quanto mais útil se torna, mais nos tornamos incompletos, incapazes de nos privarmos dela” (2024, p. 30). E nisto Pacheco Pereira é igualmente claro ao afirmar que o “tutor” artificial pode “criar habituação, dependência (…) acentuar formas de solidão modernas e de sociabilidade pobre”.

Se ao ritmo da transição digital houvesse também uma transição das humanidades, talvez pudéssemos encontrar o equilíbrio necessário para nos protegermos do que as tecnologias têm de menos positivo. Talvez. E aqui, inevitável regressar a Pacheco Pereira: “É a sociedade que manda nas máquinas, e não o contrário, e é a sociedade que está mal. Não façam um upgrade tecnológico desse mal, porque fica pior.”

Não podemos clamar aos quatro ventos que devemos evitar o facilitismo gerador de populismos, e depois, perante as tecnologias, cair na demagogia do solucionismo imediato, como se estivéssemos perante um apocalipse educativo que exigisse respostas urgentes. Não é por essa via que melhoramos práticas pedagógicas ou a qualidade das aprendizagens. Precisamos, sim, de respostas complexas, que combinem saberes, inconformismo e esperança. Sobretudo isso. Talvez assim, como diria a filósofa Marina Garcés, “o progresso se torne […] prosperidade”. Porque, lembra ela, “hoje, a prosperidade já é insustentável, é a nossa ameaça” (2023, pp. 23-24).

Sem menosprezar a importância das novas tecnologias, avancemos com parcimónia, sem deslumbramentos bacocos, e façamos uma abordagem séria e honesta. Que a tecnologia, especialmente na escola, seja uma oportunidade não para nos tornarmos mais autómatos, mas para crescermos como pessoas: empáticas, solidárias, livres, em busca do “aperfeiçoamento moral” que tanta falta nos faz.

Muito mais haveria a dizer, mas ficará para outra oportunidade. No entanto, uma coisa me parece certa: não podemos continuar a confundir aceleração tecnológica com progresso humano. A escola não precisa de tutores artificiais que prometem soluções rápidas para problemas complexos; precisa, isso sim, de humanidade, de presença, de relação, de sentido. Se deixarmos que a tecnologia ocupe o lugar que pertence ao encontro humano, estaremos a educar alunos mais eficientes, talvez — mas seguramente menos livres, menos empáticos e menos capazes de pensar por si próprios. E isso, convenhamos, seria o maior retrocesso pedagógico dos últimos tempos.

Jota Eme

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