O QUE UM BOM PRIMEIRO-MINISTRO NÃO DEVE DIZER
Como nota prévia gostaria de dizer que este texto não pretende afirmar uma posição político-partidária. A reflexão que aqui se propõe é de natureza ética e cívica e manter-se-ia válida independentemente do partido político que ocupasse o poder, pois questiona discursos e práticas que atravessam o espectro político contemporâneo.
Trazer Cristiano Ronaldo para um discurso de um Primeiro-Ministro dirigido ao país, no contexto em que o fez, é, no mínimo, patético. Trata-se de um gesto simbólico que encarna o pior do neoliberalismo exacerbado: a transferência da responsabilidade coletiva pelo destino de um país para o êxito individual, como se o sucesso fosse exclusivamente fruto do mérito pessoal, desresponsabilizando o poder político, as instituições e as condições estruturais.
Em vez de recorrer a figuras mediáticas como modelos de “superação”, por que não exigir a si próprio e ao seu governo exemplos de boa governação semelhantes aos da Noruega, Dinamarca, Finlândia ou Suíça? Países com baixos índices de corrupção, onde os impostos são efetivamente aplicados no bem comum, onde a justiça funciona e onde os sistemas educativos figuram entre os melhores do mundo.
Como lembra Michael J. Sandel, em A Tirania da Meritocracia, o mérito nunca é um ponto de partida puramente individual, mas o resultado de um conjunto complexo de fatores sociais, económicos, culturais e institucionais que se entrecruzam. O sucesso é sempre um percurso — mais ou menos coletivo — e não o triunfo isolado de um indivíduo. Atribuir o êxito ou o fracasso de um país aos seus cidadãos, individualmente considerados, é uma mistificação ideológica que oculta responsabilidades políticas concretas.
Podemos servir-nos, aqui, de Byung-Chul Han que aprofunda esta crítica ao mostrar como o neoliberalismo transforma o indivíduo num “empreendedor de si mesmo”, conduzindo-o à autoexploração sob a ilusão da liberdade. Quando o Estado abdica das suas funções estruturantes, a culpa desloca-se para o sujeito, que passa a carregar sozinho o peso de falhas que são, em larga medida, sistémicas.
Compete ao Estado garantir as condições materiais, sociais e institucionais para que os cidadãos possam exercer os seus deveres e ver os seus direitos efetivamente assegurados. Direitos não são recompensas atribuídas aos mais “meritórios”, nem a cidadania pode ser reduzida a uma prova permanente de desempenho individual.
Sem negar o talento desportivo de Cristiano Ronaldo, importa sublinhar que ele próprio não é um exemplo eticamente recomendável, na medida em que tem manifestado admiração e proximidade simbólica com líderes e regimes autoritários que desrespeitam direitos humanos fundamentais e promovem modelos de poder incompatíveis com os valores democráticos.
Um país não se constrói pela idolatria de figuras individuais — sobretudo quando estas legitimam, ainda que indiretamente, formas de poder moralmente questionáveis — mas pela solidez das instituições, pela qualidade da governação e por uma ética efetiva do bem comum.
JOTA EME