A PEDAGOGIA DA(S) CRIANÇA(S)
Veio-me à memória, um destes dias, que, por ocasião do último Natal, numa conversa aparentemente banal, a educadora perguntou ao meu neto, de três anos, se ia visitar os avós.
Perante a resposta afirmativa, seguiu-se a pergunta habitual, quase automática, daquelas que esperamos que produzam respostas igualmente óbvias: — E onde vivem os teus avós? A criança, com a naturalidade e a limpidez que caracterizam a infância, respondeu: — Vivem no Planeta Terra!
O diálogo ficou por aí. Não houve explicações adicionais, nem intenção filosófica, nem qualquer desejo de surpreender. Apenas uma resposta espontânea, dita sem cálculo, sem artifício, sem consciência do seu alcance. E talvez por isso mesmo tão perturbadora.
Quando me contaram o sucedido, fiquei perplexo e pus-me a pensar. Que ilações importará extrair daqui? O que estará por detrás da espontaneidade desta resposta? Importa também dizê-lo desde já: não é vaidade de avô trazer esta frase à colação. Poderia ser a resposta de qualquer criança. O que aqui interessa não é quem a disse, mas o que nela se disse — e o que ela pode revelar sobre as crianças e sobre nós, adultos.
Estamos tão habituados a esperar respostas previsíveis que, muitas vezes, já não sabemos acolher o inesperado. Perguntamos como quem confirma rotinas, como quem valida mapas já traçados. É possível que tenhamos perdido, ou pelo menos amortecido, o encanto da surpresa, do espanto, dessa pequena rutura que nos obriga a repensar o mundo. A resposta da criança interrompeu essa expectativa automática — e foi nessa interrupção que algo se revelou.
“Vivem no Planeta Terra.” Antes de países, antes de fronteiras, antes de identidades rigidamente demarcadas, há este dado elementar: habitamos o mesmo planeta. A criança não nega lugares concretos, não apaga diferenças culturais ou geográficas; simplesmente não as absolutiza. O essencial, para ela, não é a divisão do mundo, mas o facto de nele estarmos todos.
Nessa frase singela está, ainda que de forma implícita, um cosmopolitismo originário — não o das teorias políticas ou dos tratados filosóficos, mas o da evidência primeira. Um rotundo não aos fanatismos nacionalistas, aos apetites devoradores de terras e de poder, às lógicas de conquista que transformam o outro em ameaça. Talvez seja precisamente esta evidência elementar que hoje falta aos novos imperadores da conquista — aqueles que, em nome de nações, mercados ou impérios, voltam a tratar a Terra como troféu e os outros como obstáculos.
Há ali, também, uma intuição ética fundamental: não temos a Terra, somos da Terra. O planeta não é teu, nem meu — é de todos. E não apenas dos que hoje o habitam, mas também dos que ainda não nasceram. Vista assim, a ganância perde sentido, a violência torna-se absurda e a ideia de posse absoluta revela-se uma ilusão perigosa.
Num tempo marcado por guerras, deslocações forçadas, crises ambientais e desigualdades gritantes, a resposta de uma criança de três anos soa quase como um apelo silencioso dirigido aos adultos — sobretudo àqueles que têm responsabilidades políticas. Há fortes razões para pensar que a tão falada cidadania global comece aqui: no reconhecimento simples de que partilhamos a mesma casa.
Esta frase encerra ainda uma outra lição, menos evidente, mas não menos decisiva: existe um modelo de sabedoria nas crianças a que devemos estar atentos. Um saber que não nasce da acumulação de conhecimentos, mas de uma relação ainda íntegra com o mundo, com os outros e consigo mesmas. As crianças não são apenas seres a educar; são, muitas vezes, aquelas que nos educam — discretamente, sem intenção, sem discurso — para valores essenciais que nós, adultos, fomos deixando atrofiar.
O desafio que se nos coloca, enquanto sociedade, parece ser este: criar condições para que essa sabedoria não seja silenciada. Na escola, na família, nos diversos contextos educativos, tantas vezes fazemos o contrário — apressamo-nos a corrigir, a normalizar, a enquadrar, a encaixar a criança em modelos rígidos, esquecendo que, nesse processo, podemos estar a amputar precisamente aquilo que nela há de mais valioso: a capacidade de espanto, de abertura, de pertença ao todo.
Se soubéssemos escutar, olhar e acompanhar as crianças, aprenderíamos com elas a viver melhor. Quem sabe se não reaprenderíamos a ser irmãos num planeta que não é de ninguém e é de todos. Talvez esta frase — “vivem no Planeta Terra” — nos convide a prestar atenção não apenas ao que elas escutam, mas também ao modo como dizem, pensam e perguntam; e, ao fazermos isso, redescobrir a simplicidade, a generosidade e a profundidade da vida que muitas vezes esquecemos.
Para concluir, recordo Edgar Morin, ao parafrasear Jaspers: “para que a humanidade consiga sobreviver, deve metamorfosear-se” (2020, p. 119). Essa metamorfose pode não passar apenas por novas teorias ou modelos civilizacionais, mas por uma reaprendizagem mais elementar: escutar as crianças e não silenciar aquilo que nelas ainda permanece inteiro. Talvez a metamorfose exija que saibamos, sem nostalgia nem ingenuidade, recuperar algo do seu modo de habitar o mundo — sob pena de não realizarmos o desiderato de um autêntico humanismo à escala planetária. Uma tarefa que parece, hoje, escapar à vontade — ou à capacidade — de muitos dos que detêm responsabilidades à escala global.
Jota Eme