A EQUAÇÃO EXISTENCIAL
Parte - III
Já vimos que o significado que damos à nossa existência depende, em grande parte, das nossas convicções religiosas, filosóficas ou científicas. Isso não pode ser pretexto para nos acomodarmos, como se tivéssemos alcançado a verdade definitiva; como se não houvesse motivo para nos interrogarmos sobre as razões das nossas escolhas, sobre a nossa existência e sobre aquilo que lhe dá sentido ou significado. A nossa existência requer o desafio da interrogação e reflexão constantes sobre o nosso trajeto, sob pena de resvalarmos para a sensação de vazio, de confusão e, muitas vezes, para o sentimento de impotência para enfrentarmos e superarmos as nossas dificuldades pessoais, familiares e profissionais.
O melhor, para enxergarmos o significado da nossa existência, é sermos capazes de o assumir criticamente; não nos deixarmos amestrar por pretensos “domadores de circo” (que não faltam!) ambicionando violentar a verdadeira nobreza dos seres humanos, a sua natureza pensante. Como muito bem dizia Kierkegaard, “ a multidão não é de fiar”! De facto, a profusão de memes pseudoculturais através dos meios de comunicação social e da Web (neste último caso, uma espécie de ciberdependência) cria-nos a ilusão de que a vida é pautada por prioridades viradas preferencialmente para o exterior: apelam, sobretudo, ao lado estético, à beleza exterior, à ditadura da juventude, à performance física e profissional; à lógica sedutora do mercado.
Gosto particularmente da expressão de Erich Fromm, citado por Carlo Strenger, e que expressa muito bem o que se promove nos dias de hoje: a “personalidade marketing”! Ora, o perigo mais eminente deste tipo de personalidade, é a possibilidade de nos reduzir à condição de autómatos. Parece, naquela perspetiva, que o significado da vida se resume a agradar, possuir bens materiais e ser o mais popular possível (um quase desejo narcísico da visibilidade!). Eis, basicamente, o sentido empobrecido da vida. E deste modo, sem quase nos darmos conta, capitulamos, inevitavelmente, nas malhas da economia, no quantificável, no superficial, numa estética exterior da vida; numa existência cuja lógica predominante é a do efémero. Todo o sentido existencial é condicionado e orientado pela voracidade económica que é bem evidente na priorização da renovação constante de estilo, na procura do novo modelo entre a multitude dos diversos gadgets e de outros bens de consumo. Tudo isto torna-se, muitas vezes, o fundamento da existência, contribuindo para fazer perigar aquilo a que Simone de Beuvoir chamou de “substância” do homem, ou seja, a sua liberdade.
Sabemos, através de alguma literatura nas áreas da psiquiatria e da psicologia, que as pessoas, hoje em dia, apesar do sucesso que logram nas suas carreiras profissionais e também na sua vida privada, sentem que o seu projeto existencial carece de significado; queixam-se do sentimento de vazio, de depressão, de ansiedade, de angústia; perdem, por vezes, a sua autoestima; não percebem, apesar do seu sucesso, os motivos de não se sentirem felizes. Nem os especialistas da “arqueologia da mente humana” conseguem dar-lhes respostas satisfatórias. Vemo-los, por isso, na busca desesperada de soluções que estão para além da dimensão economicista da vida na sua lógica marcadamente sedutora. Talvez porque reconheceram, finalmente, que se afastaram de si próprios; que perderam o seu bem mais precioso: a liberdade de pensar por si. E como afirmava Pitágoras, um filósofo da antiguidade grega, “ Não é livre o homem que não manda em si.” Já o homem que “manda em si” é aquele que ousa questionar, que se interroga sobre si e sobre aquilo que o rodeia; que procura contínua e sistematicamente a verdade, agindo em conformidade com ela; que valoriza a sua dimensão espiritual; que diz não à “personalidade marketing”. Carlo Strenger, que entre outras ocupações, se dedica à prática da psicoanálise existencial, refere, a propósito: “ Para muitos, o investimento no desenvolvimento intelectual marca uma grande diferença. As suas vidas tornaram-se mais equilibradas e a autoestima estabiliza quando começam a estudar filosofia, história da ciência ou história da religião.” Inferimos, sem surpresa para nós, que as pessoas se sentem melhor, menos vulneráveis, quando se preocupam, aprofundam e se interrogam sobre realidades fundamentais da sua existência; quando descortinam o que realmente é prioritário e/ou importante para as suas vidas; quando, como insistentemente temos referido, procuram o caminho da verdadeira sabedoria, a única que nos permite sermos nós próprios a esculpir o significado da nossa existência.
O exercício da liberdade requer em cada um de nós, a capacidade de colocar questões vitais na procura do significado da nossa existência. Quais? Podemos enumerar algumas: o que é a verdadeira sabedoria? O que é importante na minha vida? O que é para mim uma vida que valha a pena viver? O que é o bem? A minha vida tem-se pautado pela coerência entre o que digo e o que faço? Eu existo para quê? O que é que tem sustentado a minha existência? O que é a ética? O que são os valores? São imutáveis ou são relativos? Existe uma hierarquia de valores? Quais são os valores que eu privilegio? O que tenho feito para os preservar e para os difundir? Sou justo comigo e com os outros? O que devo esperar de mim e do outro? Qual o meu papel na comunidade onde me insiro? O que é para mim a justiça? O que é a verdade? Será que Deus existe? Sou um homem de fé ou prefiro fazer as minhas opções de acordo com critérios racionais? E o que é isso de razão e da fé? São distintas? Podem coexistir? Será que não passamos de seres finitos, ou espera-nos algo mais? E poderíamos, naturalmente, continuar. Alguns podem supor que são questões de fácil resposta ou, o que na minha modesta opinião é ainda pior, não têm qualquer importância; são coisas de filósofos, dirão, ainda, desdenhosamente, os orgulhosos “pragmáticos”. Para estes, como muito bem diz Carlo Strenger, “… uma procura intelectual pode ser uma opção muito pouco atrativa.” Diz ainda que há muitas pessoas, na tentativa de resolver os seus desequilíbrios emocionais e sentimentais que preferem “ procurar ajuda nos fármacos; sentem que não têm tempo, energia e, por vezes, dinheiro para investir mais no processo de autorreflexão.”
Perdendo a nossa capacidade de interrogar, desbaratamos a possibilidade de construir a verdadeira sabedoria e, consequentemente, diminuímos as possibilidades de construir sentido(s) para as nossas vidas; perdemos o que verdadeiramente nos carateriza enquanto seres humanos; tornamo-nos no que já dissemos anteriormente: autómatos! E as consequências, em vários domínios da vida e do mundo, são sobejamente conhecidas.
É através do exercício efetivo da liberdade que a nossa finitude pode ser saboreada, ganhar significado. Para tanto, impõe-se que reflitamos as nossas limitações e as nossas potencialidades; que consideremos a imperiosa necessidade de refletir as questões ligadas à nossa existência; que nos viremos para dentro de nós no verdadeiro sentido da famigerada máxima socrática: conhece te a ti mesmo.
Por estranho (ou aborrecido?) que possa parecer, vou priorizar, nas próximas reflexões, não só a morte como a questão da fé, a existência ou não de Deus, a ciência e a imortalidade. Vamos tentar perceber, nestes casos, por onde nos leva a razão, ou se preferirmos, o pensamento.
De um modo geral, receamos falar da morte. Porquê? Não faz parte indissociável da nossa vida? Pensá-la, pode, por exemplo, consciencializar-nos para a importância do valor da vida e para assumirmos um projeto existencial mais humano, mais solidário; para ganharmos maior consciência da nossa finitude e, desse modo, aprendermos a dar-lhe maior relevância, maior significado. Convoco, aqui, de novo, Carlo Strenger que, referindo-se ao conceito de “situação-limite” de K. Jaspers, refere que este pensador vê nesse tipo de situação, “…uma fonte de investigação filosófica e a consciência da liberdade (…) Ao serem lançados no malogro intrínseco à existência, como na finitude, na doença e na morte, os seres humanos também podem experimentar a liberdade (…) podemos escolher entre amar e odiar; entre enfrentar a realidade e evitá-la e entre a dignidade de enfrentar o sofrimento e evitá-lo.”
A tendência da nossa sociedade para negar a morte é tão evidente que, como alguém dizia, parece que vivemos numa “época pós-morte”. É como se quiséssemos escondê-la; como se não fizesse parte indissociável da nossa existência. Abandonou-se a prática da vigília aos mortos em casa. A própria igreja (a católica, por exemplo) criou uma espécie de “guetos” mortuários, e a cremação ganha cada vez mais adeptos. Já há casas especializadas em alternativas para as cinzas mortais: vende-se caixões biodegradáveis onde se plantam pequenas árvores; oferece-se, a preços exorbitantes, meios aéreos para lançar as cinzas em sítios recônditos como no mar ou nas montanhas dos himalaias. É como se, nestes casos, a fusão absoluta com a natureza acontecesse: uma espécie de “espiritualidade holística”. Dizem, alguns, que a Igreja católica não patrocina estas práticas por recear a tendência para valorizar a reencarnação. Ao mesmo tempo, os cemitérios deixariam, pouco a pouco, de se constituir como locais de culto dos mortos; tornar-mo-íamos mais amnésicos relativamente à nossa condição de seres mortais. Talvez, digo eu, o receio tenha algum fundamento.
Associado à morte está a negação ou afirmação de Deus, e a questão da imortalidade.
Na base das correntes filosóficas marcadamente ateístas há uma espécie de afirmação do triunfalismo da razão e do cientismo (o conhecimento científico é o único válido). Assim, não sendo possível provar, por esta via, a existência de Deus, este é simplesmente negado. Paralelamente, e comum mais ou menos aos vários tipos de ateísmo (“científico”, “conformista”, “sobranceiro”, “sofrido”…), subjaz uma conceção de natureza psicanalítica (Freud, por exemplo) que procura justificar a crença em Deus com base na frustração do homem: este terá tendência para atribuir caraterísticas a um Ser Superior (Deus) que ele próprio gostaria de ter e/ou partilhar (omnipotente, omnipresente, infinito…). Frustrado por reconhecer a impossibilidade de ter estas qualidades, tende a atribuí-las a um Ser Superior, esperando partilhá-las com Ele, quando morrer. E para as garantir aliena-se de si próprio, vivendo em função dessa esperança; uma esperança, segundo alguns, sem sentido, portanto. E todo o projeto de vida do homem é um projeto de alienação (Feuerbach, Marx), que o impele a existir virado “para cima”, em vez de se centrar em si próprio.
Como se sabe, para Marx, na sua visão política, a ideia do homem alienado pela religião serve os interesses da classe dominante, porque retira ao ser humano a capacidade de luta e de revolta; o homem “enreda-se” na religião por causa da miséria socioeconómica; se, depreende-se de Marx, as suas condições de vida forem melhoradas, se o sistema económico estiver ao serviço dos mais carenciados, dos que vivem na miséria, a religião desaparece. Pessoalmente, não concordo. Mas não vamos por aqui. Como ele também dizia, a religião é o “ópio do povo”, uma mera fantasia, digamos. Sem qualquer pretensão de refletir o marxismo, este preconizava, na esfera política, um paraíso na Terra (uma espécie de transcendência imanente!). Todavia, tal desiderato nunca veio a realizar-se, apesar de algumas experiências (políticas) nesse sentido (mal sucedidas, pelo menos para alguns).
Também há quem veja na religião uma espécie de doença esquizofrénica ou quase perturbação mental. Apenas com a diferença de que comparativamente ao doente esquizofrénico, o homem religioso ouve vozes que assume livremente como determinantes na sua conduta: no desespero e nos momentos de felicidade. Tudo é obra, portanto, de um Ser que exerce um poder incontornável na nossa existência. A par disso, o homem religioso ainda vê e acredita em milagres, outra ilusão. Este é um dos argumentos, por exemplo, de Richard Dawkins, um cientista ateu fundamentalista contemporâneo e autor de obras como “O Relojoeiro Cego”, “ A Desilusão de Deus”, entre outras.
Os não-crentes (sejam cientistas, filósofos…) veem Deus como um obstáculo à plena realização do ser humano; à construção de um projeto existencial com verdadeiro significado. O importante, por isso, é inverter a ideia de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Para que o homem se possa afirmar na precaridade da sua existência, impõe-se como princípio determinante, a consciência de que foi o homem que criou Deus à sua imagem e semelhança. Faz parte da sua própria criação, é um objeto cultural, como outro qualquer. E também não precisa Dele. Tem de assumir que está sozinho no mundo e que a sua existência é um projeto, cujo propósito não é agradar a Deus, mas, sobretudo, em primeiro lugar, agradar a si próprio.
Também já nos referimos ao facto de, especialmente na perspetival dos ateístas, a ciência, a arte, a filosofia, a literatura e toda a produção cultural ter apenas um único criador: o Homem. E através das suas criações (culturais) afirma igualmente a sua eternidade. No fundo, ele é o produtor e produto da cultura. As suas “produções” simbolizam a materialização da sua infinitude, do sentido ou do significado da sua vida, mas também da sua felicidade e do seu otimismo antropológico. A própria procriação tem, igualmente, como único propósito, assegurar a sobrevivência da espécie. Por isso, dizíamos, o não-crente tem a sua perspetiva de eternidade, a sua via de afirmar a dimensão humana de infinito. Em última instância, é este o único caminho para a negação da morte e da consequente confirmação da imortalidade, da “imortalidade simbólica”, assim preferem chamar-lhe.
A tragédia da existência do homem, porque condenado a ser livre e finito (causa de ansiedade), torna-se, paradoxalmente, profícua, positiva, construtiva; mesmo ganhando relevo numa dimensão materialista, redunda, afinal, num simulacro de espiritualidade; numa dimensão que está para além da pura matéria, do homem corpóreo.
Para continuar (Parte IV)
Jota Eme