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Bricolage da Escrita

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ACHATAR A CURVA DA SOLIDÃO – UM DESAFIO PERMANENTE

Quem nunca viu (ou ouviu) nos vários órgãos de comunicação social, a referência à necessidade de “achatamento da curva”, como uma das melhores evidências da diminuição do novo coronavírus e da consequente e desejável diminuição do índice de transmissibilidade.

Além disso, o achatamento da curva significava, também, que a COVID -19 estava a entrar num nível de contaminação controlável, facilitando as respostas atempadas e adequadas às vítimas do vírus e a todos os que, por outros motivos, necessitavam de recorrer aos cuidados de saúde.

Mesmo admitindo as limitações ou, eventualmente, a possível inadequabilidade da analogia, estamos, hoje, quanto a mim, perante um dos grandes desafios: achatar a curva da solidão.

De acordo com vários estudos e investigações internacionais, a solidão assume, na atualidade, uma dimensão, atrever-nos-íamos mesmo a dizer, pandémica. Provavelmente por andarmos distraídos com as nossas vidas, não nos damos conta da gravidade do “fenómeno.”  

A solidão, enquanto estado subjetivo, mas também como fenómeno sistémico, exige, à semelhança do novo coronavírus, respostas concertadas, globais e complexas que, por um lado, a previnam, e, por outro, a possam, no mínimo, mitigar.

Importa que tenhamos a noção de que a solidão, quando não é uma opção (é dessa que falamos), não é apanágio apenas das pessoas idosas; é extensiva a todas as faixas etárias, independentemente do género, raça ou estrato social. Ninguém, como acontece com o novo coronavírus, está imune. Por diferentes fatores e/ou motivos, qualquer um de nós pode cair nas garras da solidão.

A Solidão – Um Estado Existencial de Desespero

Quando aqui falamos de solidão, queremos reportar-nos a uma condição existencial de desespero, com origem multifatorial, que nos torna desligados dos outros; em que deixámos de nos sentir integrados numa comunidade e, consequentemente, desconectados, desapoiados e isolados dos que nos são particularmente próximos: dos amigos, da família, dos empregadores, dos políticos, dos governos, dos nossos superiores hierárquicos, etc., etc.

Os vários estudos sobre a solidão referem que já antes da pandemia ela se vinha manifestando, tendo-se agravado particularmente com o advento desse dramático acontecimento. Evito o conceito pós-pandémico, uma vez que, por esta altura, infelizmente, ainda não saímos propriamente do flagelo.

Em vários países dos diferentes continentes, há percentagens consideravelmente elevadas de pessoas que se consideram sós. A solidão, à semelhança de tantos outros, é um problema à escala global. Por isso, as respostas à crise da solidão, também devem ser, naturalmente, de dimensão global.

No Reino Unido, atendendo à proporção que atingiu o problema, foi nomeado, a partir de 2018, um ministro da solidão! Mais recentemente, no Japão, também foi criado o Ministério da Solidão. As elevadas taxas de suicídio, particularmente nas mulheres, pode ser, também, uma consequência da solidão. E a propósito, no livro recentemente publicado em Portugal, de Noreena Hertz, “O Século da Solidão – Como Restaurar as Ligações Humanas”, refere-se que muitas japonesas fazem da prisão “uma escolha ativa”. Por outras palavras, a prisão surge a um número cada vez maior de pessoas, nomeadamente mulheres, naquele país, como uma solução para cortar as amarras com a solidão, de sair de um insuportável isolamento; como uma oportunidade de socialização, de interação física com as pessoas.

Naturalmente que os crimes reincidentemente cometidos pelas pessoas ( japonesas idosas) com o claro propósito de irem parar à prisão são, geralmente, leves. Esta prática, que noutro contexto seria inequivocamente reprovável e objeto de censura, leva-nos, mediante as circunstâncias, a sermos complacentes e tolerantes para com estas pessoas. E essa benevolência deve-se, provavelmente, ao facto de compreendemos a importância vital, para cada um de nós, do sentido de pertença a uma comunidade. Mais: também sabemos reconhecer que a nossa natureza é essencialmente social, sendo a sua realização uma das condições determinantes para a construção do nosso bem-estar geral; porque sabemos, diria, por fim, que a solidão, em última instância, pode matar.

No Japão, por exemplo, há “profissionais” que se alugam a si próprios para fazer companhia a pessoas profundamente desesperadas com a sua condição de solitárias, pretendendo tão-somente, desses “profissionais do afeto”, um mero afago.

Algumas das Possíveis Causas da Solidão

Pois bem. Chegados aqui, é legítimo e expectável que tentemos perceber o que nos trouxe até aqui. Dito de outra forma: quais serão as principais causas da solidão?

Não querendo assumir uma explicação simplista, também não quero ter a pretensão de ser propriamente exaustivo sobre as causas da solidão. Vou tentar falar daquelas que, na minha opinião, podem assumir maior relevância para a crise da solidão, independentemente da especificidade de alguns contextos geográficos.

Todos reconhecemos que, com o surgimento da COVID-19, se deu uma acentuada aceleração do recurso às novas tecnologias e ao mundo digital que provocou diversas alterações e/ou transformações nas várias dimensões da nossa vida: na economia, no mundo laboral, na educação, mas também no modo de nos relacionarmos uns com os outros, ou seja, a nível social.

Já antes da pandemia, vínhamos acusando algumas carências de socialização em resultado, sobretudo, não só da hiperaceleração que caraterizava o nosso quotidiano, como do recurso exacerbado ao mundo digital, especialmente patente na utilização, muitas vezes sem critério, das redes sociais.

Deste modo, a nossa interação eminentemente física foi cedendo, cada vez mais, à relação virtual que, queiramos ou não, tende para, quase sem darmos por isso, um crescendo de exibicionismo e egocentrismo, com influência, naturalmente, no afastamento físico entre as pessoas. E a COVID -19, fruto da imposição de algumas medidas, concretamente do distanciamento físico, agravou a situação. Resultado: o isolamento das pessoas acentuou-se.  

Dir-me-ão, alguns, que as novas tecnologias, durante a fase dos confinamentos mais rigorosos, serviram para estabelecer contacto entre as pessoas, aproximando-as. Que se conseguiu superar dificuldade a vários níveis, nomeadamente de natureza laboral. É verdade. Isso é inegável. Com certeza. E depois?! Mesmo admitindo esse lado positivo, a “resposta” virtual não deve nem pode ser a única estratégia, nem a definitiva, nem a mais adequada, para prevenir e/ou combater a solidão.

O problema da solidão é demasiado complexo. Não são as inovações tecnológicas que, por si só, o vão resolver. Mais à frente, para que não se fique a pensar, erroneamente, que se é contra as novas tecnologias, voltarei aqui.

A Pandemia vs. Solidão

Fizemos referência anteriormente ao facto de que a pandemia agravou a solidão. Na verdade, contribuiu para o quase desaparecimento de formas de convívio presencial que, outrora, estavam, diríamos, institucionalizadas, sendo determinantes no sentimento de pertença a uma comunidade: os rituais festivos, as reuniões familiares alargadas, os diversos tipos de reuniões (laborais, sindicais…), algumas associações de voluntariado, as próprias cerimónias religiosas, alguns espaços públicos…

Acrescentaríamos, como fatores entrecruzados responsáveis pela crise da solidão, de forma sumária, os seguintes: i) o neoliberalismo como política dominante manifestamente favorável a uma lógica de mercado, do utilitarismo e do individualismo; (ii) os vários tipos de discriminação; (iii) a mudança e instabilidade laboral frequentes; (iv) a própria organização das grandes cidades; (v) as debilidades e condicionalismos existentes ao nível do livre exercício de uma cidadania global; (vi) a sobrevalorização de valores relacionados com o ter, em detrimento de qualidades e princípios de índole humanista (domínio do ser). 

Como acabámos de assumir, são inúmeros os motivos que têm contribuído para que a solidão assuma particular relevo e dimensão, numa sociedade profundamente egoísta, individualista.

Não percamos, contudo, o otimismo. Certamente que, apesar do contexto atual adverso à interação humana, há esperança de que consigamos restabelecer laços entre nós, que revigorem o sentido de pertença a uma comunidade, seja ela de natureza familiar, ou de âmbito mais diverso e/ou mais alargado.

Não há salvação autónoma

Sabemos que a pandemia, apesar dos seus dramáticos efeitos especialmente ao nível socioeconómico e da saúde, também nos deixou, é verdade, uma mensagem positiva e profundamente pedagógica: não há salvação autónoma. Todos estamos dependentes uns dos outros; a salvação de cada um de nós dá-se, constrói-se na interdependência, na interação, em comunidade.

A solidão tem, segundo alguma investigação na matéria, implicações na saúde física e mental. O isolamento forçado a que estivemos sujeitos durante a pandemia, por exemplo, tem apontado para consequências nefastas a esse nível. Na vertente comportamental, há também o receio de a solidão poder espoletar, entre outros estados mentais, a ansiedade e a depressão, aumentando exponencialmente o risco de comportamentos agressivos. O suicídio, para qual nem sempre é fácil encontrar uma explicação, pode, nalguns casos, como defendem alguns especialistas na área da psiquiatria, levar a essa opção extrema. É uma possibilidade a considerar, portanto.

Há cada vez menos dúvidas em relação ao assunto: a solidão, especialmente quando é crónica ou se instala por períodos mais ou menos longos, debilita o nosso sistema imunitário, tornando-nos mais débeis e mais vulneráveis. Se, pelo contrário, fortalecermos os laços ou vínculos entre nós, desenvolvendo um sentimento profundo de comunidade, prevenimos mais facilmente determinadas doenças e, por essa via, também, aumentamos e prolongamos a nossa qualidade de vida.

Solidão vs. Oportunismo Político

Também há quem se aproveite da solidão para fins e/ou objetivos meramente políticos. O estado de vulnerabilidade em que se encontram as pessoas que sofrem de solidão, é, infelizmente, aproveitado por políticos sem escrúpulos que as aliciam para causas populistas, com a promessa de que lhe resolverão todos os problemas.

É conveniente não esquecer que a solidão, resulta, quase sempre, de fatores que se intercetam e relacionam, nomeadamente de natureza económica, cultural e social.  Não há respostas simplistas para realidades complexas, como é, aqui, o caso da solidão.

Quando naqueles que sofrem a solidão, especialmente por motivos manifestamente de natureza socioeconómica, há lugar para um sentimento profundo de abandono, de exclusão, de marginalização, de discriminação por parte dos governos, escancaram-se as portas a oportunistas políticos, quase sempre xenófobos, racistas, fundamentalistas e com aspirações politicamente totalitárias.

A este propósito, Noreena Herz, no seu livro a que anteriormente aludimos, diz que para a filósofa Hannah Arendt, o totalitarismo “baseia-se na solidão […]  que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o Homem pode ter.” São palavras que, para além de atuais, exortam à reflexão.

A solidão, enquanto processo existencial humano densamente “habitado” por vulnerabilidades e/ou fragilidades de isolamento social involuntário, pode ser pretexto para oportunismos políticos, vindos, sobretudo, dos políticos sem preocupações éticas e com tendências, como já se disse anteriormente, totalitárias. São esses que, para conseguirem os seus intentos, normalmente o poder, prometem soluções quase sempre “milagrosas”, identificando, injusta e infundadamente, culpados.  

E, agora, duas questões: como combater, então, a solidão? Quais são, nesse combate, os principais desafios?

Para já, ficam as perguntas. Procurarei, numa próxima oportunidade, refletir algumas possíveis respostas.

Jota Eme

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