Do PIB à FNB
Numa das edições da revista "Sábado", ainda de 2015, noticiava-se o seguinte: "A maior peculiaridade do Butão foi ter trocado o conceito tradicional de economia e o valor do PIB (Produto Interno Bruto) pelo indicador FNB (Felicidade Nacional Bruta), que mede o bem-estar dos súbditos..." Ou seja: este indicador, abandonando o teor economicista do sobejamente conhecido "PIB", procura colocar o foco na felicidade dos seus súbditos, ao que parece, com base "em quatro pilares: a conservação das tradições, o cuidado com o meio ambiente, o desempenho do governo e o crescimento económico". Tal e qual.
Ora aqui está, pensei, uma notícia simpática e curiosa de um pequeno país budista, localizado a sul da Ásia. Vai daí, apeteceu-me tecer alguns considerandos sobre a dita FNB (Felicidade Nacional Bruta).
Pareceu-me, aquela notícia da revista, uma mensagem de relevância pedagógica a ter em conta pelos nossos políticos, de modo a repensarem, também, a necessidade de substituir, ou mesmo erradicar, o nosso PIB. Afinal, em Portugal, ou não sobe, ou quando há uma tendência de subida, não se nota! Para que serve, então?! Eu até acho que andamos confundidos com o significado do PIB no nosso país. Para mim, O PIB português, significa, "Pobres e Infelizes Bastante". Se virmos bem, a nossa signa é mesmo a infelicidade. Vejamos o caso do IRS (Infelicidade Regular Suprema). Talvez, com jeitinho, poderíamos encontrar outros exemplos análogos. Mas chega de tanta infelicidade!
Sugiro, então, que num futuro próximo, os nossos políticos ponderem a substituição do nosso malogrado PIB pela FNB (Felicidade Nacional Bruta). Para o efeito, devem encetar os contactos com aquele pequeno país, a fim de se perceber melhor os contornos de tal indicador e, depois de bem inteirados, proceder à sua aplicação em Portugal. Poderíamos, enfim, convidar o monarca do Butão, a visitar regularmente o nosso país para ir monitorizando a eficácia da medida. Para quem está habituado, como os portugueses, a avaliadores externos, a vinda de mais um, não fará grande diferença!
Sem menosprezar os outros três pilares da FNB, julgo que seria de bom-tom, para começar, focarem-se apenas nos pilares do "desempenho do governo e crescimento económico". Não sei o que pensa o inventor da FNB! Em todo o caso, no final do mandato político, proceder-se-ia a uma consulta nacional para perceber a proficiência do governo e, consequentemente, o grau de felicidade dos portugueses. Se, eventualmente, e com base nos resultados apurados, se concluísse que os portugueses eram maioritariamente felizes; se se revelasse que a Felicidade Nacional Bruta (FNB) tinha crescido exponencialmente, então esse governo teria toda a legitimidade para continuar. Passaríamos, assim, a aferir a eficácia de um governo pela sua capacidade de aumentar a FNB e não o PIB. Creio, sem qualquer margem para dúvidas, que podíamos, em matéria de FNB, ser um país pioneiro na Europa, com forte probabilidades da experiência ser aí generalizada. Provavelmente não necessitaríamos de mais resgates. O Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia estariam, doravante, mais interessados em envidar esforços para que a nossa experiência tivesse êxito, do que controlar as nossas contas e fazer exigências ao nosso orçamento. Entraríamos, assim, numa era de um novo paradigma da economia e, inerentemente, do próprio conceito de crescimento económico.
Num país como Portugal que decidisse, a curto prazo, fazer da FNB a sua principal aposta política, a felicidade suplantaria e faria esquecer, com certeza, o anacrónico PIB; deixaríamos de ter meta orçamental, e passaríamos a ter, sei lá, uma espécie de metas de contentamento. E se tudo corresse bem, a influência da adoção da FNB poderia, quiçá, ter repercussão na felicidade do mundo inteiro, adotando por via disso, uma outra sigla: a FMB (Felicidade Mundial Bruta).
Jota Eme