Pai, o que é a Filosofia?!
Confrontado com as inquietações e/ou dúvidas da minha filha face à disciplina de filosofia, por estar prestes a iniciar o 10.º ano de escolaridade, decidi tentar esclarecê-la sobre a “matéria”, digamos assim. Podia-lhe ter sugerido o “Google”! Pois, mas não o fiz.
Como é natural, fez-me algumas perguntas do género: o que é, afinal, a filosofia?, do que trata?, é verdade que é muito subjetiva?, para que serve?, temos que estudar as teorias dos filósofos?, etc. Estou convencido que esta curiosidade é comum a muitos outros colegas seus nas mesmas circunstâncias.
Podia ajudar-te a seres tu própria a chegar à noção de filosofia. Bastava que te fosse fazendo algumas perguntas. No entanto, vou optar por, da forma mais simples possível, tecer algumas considerações gerais.
Infelizmente, continua a existir uma série de ideias preconcebidas e enviesadas sobre a noção de filosofia. Antes de mais, convém lembrar que a filosofia é, à semelhança por exemplo, da física, matemática, biologia ou sociologia, um ramo do saber. Talvez em termos de similitude, poderíamos ainda ir um pouco mais longe e dizer que, tal como as ciências, tem um objeto de estudo, uma metodologia de investigação e um objetivo. No entanto, tem caraterísticas distintivas, tornando-a uma forma de saber diferente daquele tipo de conhecimento que vulgarmente apelidamos de científico.
Por uma questão metodológica tentei esclarecer, sucintamente, o contexto geográfico e histórico-social do aparecimento da filosofia, ao mesmo tempo que remeti para o seu significado etimológico: (philos = amor; sophia = sabedoria). Convém partir deste princípio básico: a filosofia tem origem na antiga Grécia e deriva daquele termo grego que significa, “amor ou amizade pela sabedoria”. E não é para confundir esta “sabedoria” com aquele tipo de cultura geral que é testada nos concursos televisivos. Nada disso. Tentarei, à frente, voltar a este conceito de sabedoria no seu sentido filosófico, claro.
Como referi anteriormente, a filosofia dispõe de um método de estudo, que não é o método experimental, como nas ciências, mas sim a reflexão crítica. E o suporte da sua metodologia, o seu instrumento privilegiado, é a razão. O conhecimento filosófico é, na sua essência, um conhecimento racional. Por outro lado, enquanto os outros ramos de saber têm um objeto de estudo específico (a física estuda e/ou aborda apenas fenómenos físicos, a biologia estudo os fenómenos biológicos …), a filosofia tem como objeto de estudo a totalidade do real. Já quanto ao objetivo, a filosofia visa, grosso modo, aprofundar o conhecimento da realidade, seja ela de natureza ética, estética, religiosa, política, existencial; numa palavra, tem como finalidade ir à raiz dos problemas (do mundo e da vida).
A filosofia, pela sua natureza metodológica, método de estudo e objetivo, distingue-se ainda de outras formas de conhecimento, como seja o senso comum ou o conhecimento religioso: do primeiro, porque assenta essencialmente nos sentidos, e do segundo, porque se fundamenta naquilo que comummente apelidamos de fé.
Temos, assim, em primeiro lugar, ainda que em sentido abstrato, os principais contornos identificativos de uma forma de conhecimento - a filosofia. É fundamental começar por aqui: saber o seu significado e do que trata. E assim, de forma elementar, tentei responder às duas primeiras questões. A outra forma de compreender a filosofia - com certeza, a melhor - é filosofando. Tal e qual. Ninguém aprende a andar de bicicleta, sabendo apenas, teoricamente, as suas principais caraterísticas.
Vamos agora à questão de algumas outras ideias feitas, como por exemplo: “isso da filosofia é muito subjetivo”. Não é inteiramente verdade. Claro que ao longo do tempo - nos nossos dias também - vemos vários pensadores que, sobre o mesmo assunto, apresentam ideias diferentes. Isso é verdade. De qualquer modo, se pensarmos um pouco, há um objetivo comum a todos esses filósofos: aprofundar o conhecimento da realidade. Ora, quanto a mim, aprofundar o conhecimento seja do que for (da ética, estética, política, valores, religião…), não é propriamente com a intenção de o tornar subjetivo ou de o complexificar. A intenção é, bem pelo contrário, conhecer melhor a realidade e, consequentemente, tornar o seu conhecimento mais claro e objetivo; desocultar grandes questões. E aqui reside a verdadeira sabedoria em relação à qual prometi, anteriormente, voltar a falar.
A verdadeira sabedoria é a consciência permanente de que não sabemos nada no sentido absoluto; de que não há um conhecimento único e definitivo. Por isso, a dúvida (a chamada dúvida metódica) surge como método de conhecimento da filosofia. Não se trata de duvidar por duvidar, mas da dúvida enquanto método de reflexão crítica, de questionamento, de procura da verdade. Só há disponibilidade e/ou predisposição para sabermos mais, se admitirmos que nunca sabemos tudo; se assumirmos aquilo que já o filósofo da antiguidade grega, Sócrates, chamou de “douta ignorância” ou sábia ignorância; se estivermos dispostos a perguntar pelos fundamentos daquilo que nos rodeia; se não quisermos fazer parte do rebanho conformado e conformista. A propósito, o filósofo Kierkegaard terá dito: “ a multidão não é de fiar”.
Amor pela sabedoria é, portanto, a busca da verdade através da reflexão crítica; da procura de respostas às nossas dúvidas sobre a vida e sobre o mundo, no sentido de aprofundar o seu conhecimento. E para que tal aconteça temos, em primeiro lugar, de questionar e de nos questionarmos. Não é por acaso que também se diz que a filosofia tem origem numa atitude de espanto, de admiração perante o que nos rodeia. E os filósofos, neste particular, são um exemplo paradigmático. Por isso, um pouco de estudo da história da filosofia também é necessária, pedagógica. Ler e analisar os seus textos, para além de te ajudar a conhecê-los melhor, desenvolves, entre outras capacidades, o teu espírito crítico. Útil, portanto.
Ora, para que serve, então, a filosofia? É uma questão legítima. No entanto, por vezes, os pretensos pragmáticos, concretamente os aduladores da ciência, colocam a mesma questão numa atitude de desdém e de inusitada superioridade intelectual em relação ao conhecimento filosófico. Claro que numa sociedade pautada pelos resultados imediatistas, a filosofia é vista, no mínimo, com desconfiança. Habituados que estamos a tomar como único critério de utilidade o que nos pode dar resultados palpáveis a curto prazo, mas também a tomar o conhecimento científico como único e verdadeiro, a filosofia não sai bem na fotografia, digamos. Ora, os conceitos de utilidade e de verdade merecem sempre alguns cuidados de análise, sob pena de cairmos numa espécie de atitude reducionista ou dogmática. E a filosofia é, no essencial, antidogmática. Sobretudo porque, para ela, não existem verdades absolutas. E nisso se distingue também da religião.
A utilidade da filosofia reside na possibilidade que dá a cada um de pensar crítica e fundamentadamente a sua ação com o intuito de agir melhor quer em relação a si, quer em relação àqueles que o rodeiam. Para além do apelo que faz a que seja cada um de nós a tentar refletir a sua vida, o seu significado, a encontrar soluções para os seus problemas, a filosofia induz também à reflexão individual sobre o significado do mundo no seu sentido mais amplo. A filosofia é, deste modo, um projeto existencial; a procura permanente de respostas a duas perguntas vitais para o ser humano: “porquê e “para quê”. Em última instância é uma prática de vida sustentada na verdadeira liberdade de escolha.
Os filósofos, de um modo geral, ao aprofundar o conhecimento, construíram ideias para serem (eventualmente) utilizadas: por eles próprios e pelos outros. Se refletirmos de forma interrogativa, com certeza que podemos encontrar e/ou construir as nossas ideias; agir em conformidade com o nosso pensamento, em vez de seguirmos cega e irrefletidamente o que os outros dizem ou pensam. Relembremos a já citada sábia frase do filósofo: a multidão não é de fiar. Portanto, a utilidade da filosofia reside, afinal, na possibilidade de procuramos, por nós próprios, o significado do nosso projeto de vida e do mundo; participar ativamente nele. Por isso, contrariamente ao que muitos pensam, a filosofia não deve ser confundida com uma espécie de saber contemplativo ou meramente especulativo. Nada disso. E porque exige que pensemos por nós próprios, numa atitude crítica, interrogativa, inconformista, a filosofia, nos dias de hoje, não se afigura fácil, nem uma tarefa imediatamente prazenteira. Num mundo que nos criou a ilusão de ter respostas para tudo, talvez tivéssemos perdido um pouco a capacidade de nos surpreender com aquilo que nos rodeia e, consequentemente, a aptidão para o questionamento. Como diria Aristóteles, Os homens começam e sempre começaram a filosofar movidos pela admiração.
Já sobre a sobrevalorização do conhecimento científico em detrimento de outras formas de conhecer, como a filosofia, por exemplo, isso decorre essencialmente de quatro motivos: (i) da sua maior divulgação pública; (ii) da necessidade de apresentar resultados imediatos; (iii) da convicção (infundamentada) de que detém a exclusividade do conhecimento verdadeiro; (iv) de algum provincianismo no modo de compreender o significado e alcance da filosofia. São motivos razoavelmente fáceis de contrariar. Como se sabe, o que ontem era considerado cientificamente válido, deixou, decorrido algum tempo, de o ser. Por outro lado, a ciência tem limites. Compete à filosofia refletir sobre os limites do conhecimento científico, designadamente de natureza ética. E existem, na atualidade, filósofos que têm essa preocupação.
A filosofia foi, durante séculos, a forma de conhecimento dominante da humanidade. Inclusivamente, ao longo do tempo, houve grandes filósofos que foram matemáticos, físicos e biólogos… Hoje, a filosofia continua, pela natureza do seu objeto de estudo (a totalidade do real), a fazer pontes entre os diferentes ramos do saber. Talvez seja a única forma de saber que promove, verdadeiramente, a interdisciplinaridade: a interpenetração e interdependência entre os diferentes ramos de conhecimento, dando-nos uma visão mais aprofundada e coerente da realidade. Também por aqui podes aquilatar da sua utilidade.
Por fim, queria ainda dizer-te que, independentemente da profissão que vieres a escolher, espero que procures a sabedoria no sentido filosófico: que respeites a opinião do outro, mas não abdicando de pensar sempre por ti; que não te deixes arrastar pelo rebanho, mas que questiones, interrogues e faças uso da dúvida metódica; que não te tornes dogmática na forma de encarar o mundo e a vida; que não te deixes guiar por supostas verdades absolutas; que encares o conceito de utilidade numa perspetiva abrangente; que aprendas a “espantar-te” com o que te rodeia; que busques sempre os fundamentos da realidade (física e humana).
Acredita que a filosofia é tão importante como as outras disciplinas, sejam elas a matemática, a economia ou outra qualquer. Ouves, com alguma frequência, falar da corrupção de diversos governos, de escândalos financeiros, de falência de grandes empresas, mas também da ausência de políticas sociais mais justas em vários países. Por vezes, isso resulta também (não só, claro) da falta de formação de cariz filosófico de alguns homens (banqueiros, empresários, gestores, políticos…) que descuraram valores fundamentais. Talvez nunca tiveram o prazer e a felicidade de aprender a refletir criticamente; nunca se empenharam em procurar a verdade; acreditaram obcecadamente nos valores materiais, como o do lucro imediato; foram escravos do “utilitarismo” do dinheiro; desprezaram a justiça e o bem. Estavam ou estão convencidos de que são os arautos da verdade única e absoluta, alicerçada na sua formação científica e técnica. Mas, como vês, isso pode não ser suficiente: falta-lhes, afinal, a verdadeira sabedoria, outra forma de interpelar a realidade.
Minha filha, muito mais teria a dizer-te sobre a filosofia. No entanto, a forma de melhor a compreender e dela gostar é, como já te disse, filosofando. Porque filosofar é também viver de forma mais autêntica.
JOTA EME