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Bricolage da Escrita

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PLATÃO, KANT E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: QUE RELAÇÃO?!

Que tem, afinal, em comum a trilogia Platão, Kant e a Inteligência Artificial (IA)?! Parece pouco provável a existência de alguma semelhança. Mas talvez consigamos descortinar nas conceções filosóficas dos dois pensadores, algo muito próximo da IA. Por outras palavras: para uma melhor inteligibilidade da IA, revela-se importante conhecermos alguns pontos da filosofia dos dois ilustres pensadores.

Para ajudar a dar sustentabilidade a este ponto de vista, talvez seja oportuno trazer aqui os autores do livro - A Era da Inteligência Artificial, onde, a determinada altura, se afirma: “As premonições dos filósofos gnósticos de uma realidade intrínseca para além da experiência humana comum poderão ganhar novo relevo” (p. 202).  Há dúvidas sobre o que começámos por afirmar?

Quer Platão, quer I. Kant, apesar de separados por séculos, são dois filósofos, cada um a seu modo, que privilegiam o conhecimento adquirido através da razão humana, reconhecendo, no entanto, a existência de um outro conhecimento, o da verdade absoluta, que ultrapassa a capacidade da razão; será o conhecimento puro, autêntico, cujo principal instrumento de conhecimento, a razão humana, não poderá atingir. Ou seja: embora confiantes nas capacidades de conhecimento humano, os dois filósofos revelam algum ceticismo em relação à possibilidade de acesso a um conhecimento de nível superior, chamemos-lhe assim.

Começando do mais recente para o mais antigo, Immanuel Kant (Séc. XVIII-XIX), por exemplo, fala do “númeno” ou “coisa em si”, para se reportar ao conhecimento que está para além do domínio humano, para além da realidade meramente subjetiva. Kant coloca essa realidade da coisa em si ou “númeno”, a um nível superior, como se a equiparasse ao puro conhecimento a que o homem, pelas suas inúmeras limitações, designadamente racionais, não consegue aceder; essa realidade existe por si mesma, não precisando do homem (sujeito de conhecimento) para existir; está para além de qualquer tipo de experiência humana, da realidade enquanto “fenómeno”, assim lhe chama Kant, contrapondo-a à verdadeira realidade.

Complicado? Confuso? Penso que não. Kant, alerta, sobretudo, para os limites da razão humana. Em última instância, representa uma crítica aos filósofos mais otimistas sobre o poder da razão, como Descartes (Séc. XVI-XVII) por exemplo. Para este último, pela via da razão, poder-se-ia chegar às provas da existência de Deus e da alma, realidades já do domínio da chamada metafísica. Assim, para um, a razão, enquanto instrumento de conhecimento, tem limites, enquanto para este último, tem um alcance ilimitado.

E quanto a Platão? Bom, Platão (Séc. IV a.c.) preanuncia, de certo modo, o ponto de vista que acabamos de explanar em Kant. Todos conhecemos a sua teoria das “Ideias”, as “Ideias Platónicas”. Estas são, também, para Platão, a verdadeira realidade que está acima das capacidades de conhecimento do comum dos mortais. As Ideias correspondem a um tipo de conhecimento puro, um conhecimento que está para além do que ele designou de “mundo sensível”, pois este é um mundo enganador porque, basicamente, é acessível através dos sentidos. E, segundo Platão, os sentidos enganam-nos! Na verdade, de certo modo, somos tentados a concordar com ele! 

Ainda que de forma muito sumária e simples, e recorrendo apenas a dois filósofos escolhidos ao acaso, reconhece-se que, para ambos, existe um outro conhecimento que em consequência das reconhecidas limitações cognoscitivas do ser humano, é assumida e inexoravelmente, inalcançável. É, pois, expectável a existência de um conhecimento que ultrapassa as capacidades e/ou faculdades de compreensão do ser humano; que é, à luz da razão humana, inatingível!

Pois bem. E, então?! Onde entra, nisto tudo, a Inteligência Artificial?!

A IA vem emergindo, também, como instrumento de exploração da realidade no sentido mais amplo da palavra, tendo como escopo alcançar um conhecimento cada vez mais perfeito; em última instância, propõe-se chegar onde os humanos jamais julgariam chegar: a um conhecimento da realidade que ultrapassa o poder da razão.  Talvez a IA se venha a configurar como um recurso capaz de atingir um tipo de conhecimento, no sentido figurado, cada vez mais próximo das ideias platónicas e do designado “númeno” de Kant. Ou seja: a razão, por si só, deixou de ser o único instrumento de descoberta da verdade. A IA contribui, assim, para descentrar o papel da razão como instrumento único na descoberta e construção do conhecimento.

Estabelecendo uma análise comparativa dos dois filósofos com a IA, depreende-se que, talvez, estejamos próximos de ter de reequacionar outras formas de conhecimento que estão para além daquelas que estavam legitimadas para o efeito, como sejam as que nos chegavam, sobretudo, pelas vias da razão e da experiência. Doravante, a IA configura-se como uma forma emergente de conhecer com impactos diversos na conceção e transformação do mundo que nos rodeia, na nossa mundividência, digamos assim.

Se percorrermos a história do conhecimento, podemos, como defendem alguns, falar da era da fé, da era da razão e, agora, deveremos passar a falar da era da IA! É, para o melhor e para o pior, lembrando Byung- Chul Han, o advento de uma nova era do saber!

Aqui chegados propomo-nos abordar - não exaustivamente, claro - algumas limitações e potencialidades da IA.

Já se percebeu que a IA pode levar-nos a descobrir outras realidades, atingir outros patamares de conhecimento que a razão humana, por si só, não lograria alcançar. E isso é bom, ou é mau? Depende.

Para começar, dir-se-ia que a IA ainda não reflete sobre si própria, isto é, não tem capacidade de análise e/ou reflexão crítica sendo, para já, uma das suas limitações. Claramente.

A IA não faz retrospetivas críticas de erros que eventualmente possa cometer, muito menos com base em conceções filosóficas, religiosas ou culturais. Não faz a contextualização das informações, de modo que possam adquirir o estatuto de sabedoria e construir uma personalidade com base em convicções. Percebe-se, por tudo isto, então, que a IA exige supervisão humana.

O que se pretende afirmar é que a IA ainda tem um longo caminho a percorrer, sobretudo porque a sua eficiência e eficácia depende de um conjunto de dados que lhe são “fornecidos” pelo ser humano, bem como do treino de situações multifacetadas que podem não responder a todas as especificidades e imprevisibilidade das situações. Pensemos apenas no exemplo do carro autónomo. Poderá a IA treinar todas as situações extraordinárias a que eventualmente poderá ter de responder, garantindo, em absoluto, a segurança e confiança do utente? Poderíamos, com certeza, dar outros exemplos elucidativos das limitações, neste âmbito, da IA.

A IA também pode ser atingida por estados de confusão que não corrige, pelo menos de forma imediata. Carece daquilo que denominamos “senso comum”: pode confundir, com facilidade, por exemplo, um carro com um animal. No conjunto destas duas imagens, a IA pode detetar características comuns que escapam ao ser humano.

Uma IA também não é senciente: não tem propriamente consciência da incompletude do conhecimento, da necessidade de procura.

Certamente que para além do condicionalismo que identificámos, há, naturalmente, outros.

O incontornável filósofo coreano radicado na Alemanha, Byung- Chul Han coloca-nos perante, no fundo, a principal limitação da IA, quando a propósito refere: “O afetivo é essencial para o pensamento humano […] a inteligência artificial não pode pensar, porque não fica com pele de galinha. Falta-lhe a dimensão afetivo-analógica, a emoção, que os dados e a informação não conseguem reter […] A inteligência artificial pode calcular com muita rapidez, mas falta-lhe o espírito. Para o cálculo, a emoção só seria um estorvo” (in Não-Coisas, p. 44 e 46).

E que dizer das potencialidades da IA??

Não poderemos falar das potencialidades da IA, sem refletir, paralelamente, algumas questões de natureza ética que a sua utilização pode suscitar.

Na verdade, o maior perigo da inteligência artificial é tornar o pensamento humano dependente e análogo a ela no seu modus operandi, isto é, especialmente empenhado e determinado pelo cálculo e pela previsão utilitarista e economicista da vida e do mundo. Vemos já, inclusivamente, evidências dessa realidade. 

Há quem receie, talvez legitimamente, que a inteligência artificial, presente nas plataformas em rede, caminhe, a passos largos, para “dentro” do próprio ser humano, rumo ao que alguns designam de transumanismo! O ser humano dotado de tecnologia, numa simbiose de homem-máquina, híbrido, perdendo o que o autor Gerd Leonhard, no seu livro “Tecnologia versus Humanidade…” chama de “androrritmos”, ou seja, abdicando do que faz parte da sua essência: o pensamento criativo, crítico, as emoções, os sentimentos, etc., para se tornar numa espécie de autómato, mas também com uma longevidade maior. É a procura obsessiva da eternidade, como se ética e humanamente fosse, inquestionavelmente, uma solução milagrosa e vantajosa para a humanidade!!   

Talvez, segundo os mais implacáveis defensores da IA, caminhemos para uma sociedade de humanos que, semelhantes a máquinas, dotados de software e hardware, bastará reparar e atualizar. O principal desiderato é respondermos aos supostos verdadeiros desafios: agilidade, rapidez, eficiência, eficácia. 

Os transumanistas, de costas voltadas para qualquer preocupação de natureza ética, almejam a melhoria de técnicas viradas para os implantes e/ou dispositivos no nosso organismo, designadamente no cérebro, que o torne mais ágil, que nos leve para além das nossas limitações biológicas; que nos dê poderes “sobrenaturais”, à procura de uma pseudo felicidade coletiva e, até, da eternidade.

Coloca-se, no entanto, uma questão: queremos mesmo que a felicidade seja sinónimo de uma cada vez maior semelhança a uma máquina? Estaremos prontos para abdicar dos androrrítmos, como lhe chamou o autor já aqui referido?  

Admitimos, como é natural, que o caminho do progresso tecnológico seja irreversível. Contudo, afigura-se importante monitorizar esse caminho através de uma “ética digital” que salvaguarde, sobretudo, a nossa dignidade enquanto pessoas; que a tecnologia seja sempre uma ferramenta que não descure a dimensão antropológica: os valores, os princípios, a cultura que nos torna verdadeiramente singulares, únicos; que possamos, enfim, garantir que o progresso tecnológico esteja ao serviço da prosperidade humana e não ao serviço de interesses perversos e nocivos.  

Tanto Platão como Kant, não imaginariam, provavelmente, que para “além da razão” (até eles, o instrumento privilegiado de domínio da realidade), emergiria, num determinado tempo, a ubiquidade da IA, através da qual se poderão esconder, como tesouros avidamente procurados, “conhecimentos” com poder incomensurável, talvez de natureza “divina” ou satânica”, dependendo da escolha que o homem deles fizer. Ou dependerá de opções de algum ser cada vez mais  híbrido, situado ali na fronteira entre "meio humano" e  "meio máquina"?!

Perante esta e outras questões que se foram aqui colocando, a ética digital é uma realidade cada vez mais premente. Não podemos continuar a pensar que os perigos das tecnologias em geral, e da IA em particular, são meras externalidades, uma retórica de quem não tem mais nada que fazer, ou que pretende diabolizar o progresso. Nada disso. “Esperar para ver” não é uma máxima que nesta matéria, devemos seguir, pois significa dar ainda mais protagonismo à IA, em detrimento da decisão humana. Temos de fazer a aprendizagem da competência que nos nossos tempos se exige cada vez mais: a capacidade de antecipação dos problemas e da sua resolução atempada, numa perspetiva assumidamente transgeracional.

Terminava, sem mais delongas, convocando o autor (Gerd Leonhard) que já lembrei, aqui, neste texto: “A futura confluência Homem-máquina dará vitórias incríveis à Humanidade, ameaçando-a simultaneamente. Temos de tornar-nos melhores gestores das nossas invenções e das suas consequências, se quisermos prosperar […] chegámos a um momento em que […] a ética digital, os contratos sociais e acordos globais sobre humanizar esta tecnologia exponencial serão tão importantes como os tratados de não-proliferação nuclear.”

Talvez, dizemos nós, seja urgente passar da teoria à prática, elevando à categoria do interesse e/ou do bem comum a cidadania ativa, criando condições educativas  e  políticas para o empoderamento cívico dos cidadãos.  Como muito bem diz o filósofo Daniel Innerarity, " As sociedades contemporâneas têm de desenvolver a competência para solucionar problemas, mas também a capacidade de reagir adequadamente perante o inesperado [...] O debate democrático do futuro [...] girará  em torno do modo como se articulam as decisões individuais com aquilo que consideramos uma vida valiosa e com a proteção dos bens comuns" ( in Uma Teoria da Democracia Complexa). 

Jota Eme

 

 

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