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Bricolage da Escrita

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RADICALIZAR A POSITIVIDADE – UM FENÓMENO EXISTENCIAL TÓXICO

Vem o título a propósito de um artigo que li no jornal  Expresso.

O título era: Positividade tóxica. “Não há tempo para o amigo triste.”

Ora, a notícia remeteu-me para o filósofo que há muito tempo tem vindo a analisar e a refletir, e de forma magistral, esse fenómeno: Byung-Chul Han.  Aliás, o assunto é recorrente em alguns dos seus livros.

Num dos últimos, o autor termina assim: “o excesso de positividade constitui a patologia da sociedade atual. O que a enferma não é a carestia, mas a demasia.” Mas alguém diria melhor?! Duvido!

Ora, voltando à notícia, aí se referencia um artigo académico publicado pela Nacional Education Association (NNE) dos Estados Unidos, descrevendo os malefícios do que identifica como “positividade tóxica”: a imposição do pensamento positivo como única forma de resolver todos os problemas. Ou seja, a positividade está a atingir níveis particularmente preocupantes com repercussão negativa no bem-estar e saúde mental dos jovens.

É importante que vejamos o lado positivo das situações menos agradáveis ou menos favoráveis nas várias dimensões da nossa vida. Ou seja: não é propriamente o pensamento positivo visto nessa perspetiva que se questiona, mas, como se refere no artigo da NNE, a “… a atitude positiva das pessoas em todas as situações, levando-as a reprimir emoções naturais como a ansiedade e a tristeza, e a impedir, por exemplo, que peçam ajuda.”

A gravidade deste fenómeno é alimentada pelas redes sociais, designadamente pelo Instagram, onde tudo é perfeito e não há paciência nem tempo para o lado menos positivo da vida.  Tudo parece perfeito e divertido, dominado pela dimensão estética, onde são repudiadas e afastadas a tristeza e a infelicidade. “A dor é negatividade por excelência […] Os pensamentos negativos são de evitar, devendo ser imediatamente substituídos por pensamentos positivos […] a dor é interpretada como sinal de fraqueza […] não é compatível com o desempenho.” ( Byung- Chul-Han).

Todos os momentos são realizações de gente feliz e sem defeitos (lifestyle); é recusada qualquer forma que expresse sentimentos e/ou emoções que são naturalíssimas (como a tristeza, por exemplo), mas que pelo seu “incómodo” psicológico podem pôr em causa a “positividade absolutizada”. Na rede social Instagram, exibimo-nos como se o produto fossemos nós próprios, comparando-nos continua e obcecadamente com os outros.

Essa necessidade imperiosa que nos impele a exibir-nos, a obsessão para nos tornarmos visíveis aos outros, transforma-nos em produtos; produzimo-nos até à exaustão, como se no nosso íntimo quiséssemos suprir uma carência permanente: agradar especialmente aos outos.

Ora, comparar-nos com os outros arrasta consigo, muitas vezes, a ansiedade, a angústia, a depressão e, não raras vezes, a doença. Afinal, os outros apresentam-se-nos, ilusoriamente, como melhores que nós, desfrutando de tudo melhor que nós, etc. E é essa falsa ilusão que nos entristece e nos leva ao desgaste e/ou violência psicológica insuportável.

A experiência da positividade nas redes sociais tem, assim, esse paradoxal efeito pedagógico: mostrar-nos que não se pode viver, permanentemente, contente e feliz; a negatividade também faz parte estruturante da vida; o reino da positividade permanente, não existe.

Mesmo que pareça abusivo, não resisto, também aqui, a transcrever o filósofo B.- Chul Han: “A sociedade paliativa também é uma sociedade do Gosto, à mercê da ilusão do que é agradável. O Like é o sinal, o analgésico do presente […] nada deve magoar. Não só a arte, mas a própria vida, tem de ser instagramável, ou seja, livre de cantos e arestas. Esquece-se que a dor purifica, que produz um efeito catártico. Na cultura da agradabilidade não existe a possibilidade de catarse.  Assim, sufoca-se nas escórias da positividade que se acumulam sob a superfície da cultura da agradabilidade.”

Ao mesmo tempo, as redes sociais, das quais se destaca o Instagram, desagrega-nos especialmente dos mais vulneráveis; não há espaço e tempo para os que sofrem, para os menos felizes.

A ditadura da positividade, não é compaginável com as preocupações quotidianas, com a escuta ativa do outro, com a disponibilidade para com os que estão mais tristes; não existe o sentido de comunidade como espaço privilegiado da prática de valores como a solidariedade, a amabilidade e a cooperação.

Aliás, este sentido de comunidade, só é exequível na presença física da pessoa. Vejamos o que Byung Chul-Han tem a dizer nesta matéria: “A experiência dos cuidados curativos como a sensação de nos tocarem e falarem connosco está a tornar-se cada vez mais rara […] Vivemos numa sociedade com uma solidão e isolamento crescentes […] A solidão e a ausência da experiência da proximidade também atuam como amplificadores da dor.” Vejamos, por exemplo, como na pandemia, a ausência da proximidade,  apesar da ajuda dos meios digitais e tecnológicos, fez crescer em nós o desespero e a ansiedade.

Outro especto: a rapidez estonteante que carateriza as experiências nas redes sociais, desenvolve em cada um, o sentimento de incompletude; não há tempo para a demora. As redes sociais não se compadecem com a lentidão, com a pausa, com a experiência da duração. Como eu gostaria que as palavras que vou acrescentar, sobretudo para ilustrar o que acabo de dizer, fossem da minha autoria: “A paciência e a espera como estado de espírito também estão a sofrer uma erosão.” Pois é, são palavras, como alguns terão suspeitado, de Byung- Chul Han.

Tudo é consumido num registo fast food. Como muito bem se diz no artigo de Rui Gustavo a que aludi anteriormente, “Há um sentido de urgência que impele as pessoas de andarem de experiência em experiência, a engolir o dia sem se aperceberem.”

Esta aceleração existencial não permite qualquer tipo de interação social. O que existe são vários “eus” compenetrados compulsivamente em si próprios, na sua performance individual, menosprezando-se a dimensão holística da vida, bem como o contacto interpessoal, o encontro especialmente consubstanciado na reciprocidade da entrega. É caso para uma vez mais, nesta questão das redes sociais, estar em sintonia com Byung – Chul Han: “É óbvio que nos falta a mão curativa do outro. Nenhum analgésico pode substituir aquela cena primitiva da cura.”

Como dizia, recentemente, Paulo Rangel, num artigo no jornal - “Público”, “Precisamos […] de gente que se reveja na ordem do “estar” […] do estar presente, do fazer-se presente, do estar do lado dos outros, do estar na realidade, no terreno […]”. Precisamos, pois, diria eu, de uma existência mais comprometida com o outro, de compromisso com a dimensão do “ser”, em detrimento de uma existência comprometida com o vazio ético que nos tornará, pouco a pouco, mais infelizes connosco e mais afastados do outro. Concordo, em absoluto, com o político nacional quando, no fim da sua reflexão termina, acrescentando que […] a adesão a uma ordem do estar pode ser uma revolução ontológica.” Porque [acrescenta, ainda] “[…] nós não “somos” vivos, “nós estamos vivos”! E este estar é essência, mas é projeto […]”. Dificilmente, como se vem demostrando, poderemos construir este projeto nas redes sociais.

É altura de, a partir do que se vem dizendo, concluir que uma exposição desmedida nas redes sociais pode, especialmente nalgumas circunstâncias, levar a que se esbata a fronteira entre a realidade e a ficção, a perder-se a “capacidade de distinguir a realidade da perceção.”

Como vamos, então, resolver o problema da utilização e/ou consumo abusivo, especialmente nos jovens, das redes sociais?

Como podemos evitar a positividade tóxica e mitigar a tendência da nossa sociedade para a algofobia que abrange, inclusive, várias dimensões da vida (social, afetiva, política…?

 Como podemos crescer na disponibilidade para o outro, na amabilidade, na empatia, mas também na resiliência enquanto atitude capaz de integrar, como natural, a adversidade, o desagradável, a negatividade?

Voltando ao artigo que me estimulou para esta pequena reflexão, aí se diz que, concretamente em relação ao problema da utilização abusiva das redes sociais, se afigura difícil encontrar uma resposta.

Pois bem, não sendo especialista na matéria, apraz me dizer, em primeiro lugar, que estamos perante um problema complexo, que exige, naturalmente, uma solução complexa. Deve envolver, de forma articulada e concertada, os pais, os jovens, os governos, a escola, e, até, as próprias redes sociais. Sendo um problema transnacional, pode envolver, ainda, outras organizações e/ou instituições internacionais. Estamos perante uma questão que deve ser abordada, não só em relação ao presente, mas tendo igualmente em consideração o futuro de outras gerações. Deve ser encontrada, então, uma solução, tanto quanto possível,  transgeracional.

Correndo riscos de ser acusado de algum simplismo ou, até, de ingenuidade, atrever-me-ia, mesmo assim, a elencar algumas soluções: (i) encontrar estratégias de doseamento da utilização da rede social. Ultimamente, tem vindo a lume notícias que dão conta de que a China pretende limitar, aos jovens, o tempo dispensado para jogos online, por exemplo; (ii) Consciencializar os jovens em casa e nas escolas para os perigos da utilização indiscriminada das redes sociais; (iii) Envolver, ativamente, os jovens em projetos intencionalmente orientados para a sensibilização de valores de solidariedade, cooperação, amabilidade e disponibilidade; (iv) Fazer do processo de ensino e de aprendizagem, uma oportunidade de crescimento autónomo, onde os alunos, enquanto sujeitos ativos na construção do conhecimento, possam  desenvolver uma atitude de resiliência, nomeadamente em relação às dificuldades e/ou adversidades com que se vão deparando, sem descurar, contudo, a alegria, o humor, o otimismo, a esperança, etc.; (v) Exigir, num claro exercício de cidadania democrática, que os meios de comunicação social, designadamente a TV, mas também os próprios jogos de computador, não banalizem a violência e a morte, sob pena de, com essa “pornografia de violência”, nos tornarmos, cada vez mais, anestesiados e indiferentes à dor dos outros.

Terminava, a propósito, com mais umas palavras de B. Chul Han: “A crescente perda de empatia aponta para a ocorrência profunda de o outro estar a desaparecer. A sociedade paliativa elimina o outro como dor […] O que o ego narcisista, cada vez mais forte, encontra no outro, é, acima de tudo, a si mesmo.”  Pensemos, seriamente, nisso.

 

Jota Eme

 

Nota final: Esta reflexão teve como especial referência bibliográfica, A Sociedade Paliativa, de Byung- Chul Han.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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