VAGUEANDO PELA CIDADE
Vagueava eu, há pouco tempo, pelas ruas de uma das cidades do país. Numa das avenidas dessa cidade fui-me apercebendo, para meu espanto, da existência de várias igrejas ou seitas, quase porta sim, porta sim! Dei por mim, de imediato, a lembrar-me de uma expressão que li recentemente e que, de algum modo, também carateriza estes fenómenos: a “espiritualidade pop”. Francamente, gostei da expressão. De facto, enquanto deambulava nessa avenida, reparei que havia naquelas igrejas de rés-do-chão, um denominador comum: tinham, à sua entrada, qualquer coisa que fazia lembrar uma casa comercial: montras com livros, postais alusivos à família, entre outras coisas que, num dos casos, me soou a uma espécie de “zara home” (passo a publicidade). Tudo com muita cor, alegre, agradável aos sentidos, vá lá. A omnipresença, portanto, do marketing. Numa das igrejas, ao fundo, ouvia-se alguém, com voz de homem e de sotaque brasileiro que, não sei se por dificuldades de audição dos que faziam parte da assembleia, gritava, pareceu-me, a verdade do amor, da fraternidade, da justiça, da igualdade, e por aí fora. Noutra igreja ouvia-se música e eloquentes slogans a fazer apelo ao caminho do Senhor. Fiquei com vontade de, por mera curiosidade, entrar numa daquelas igrejas. Desisti. Não se fosse dar o caso de ser imediatamente assediado como quando entramos num pronto-a-vestir e nos interpelam, desmesuradamente, sobre se precisamos de ajuda; ou, ainda, como naqueles restaurantes que nos perguntam a cada garfada que degustamos, se está tudo bem.Detesto.
Espantou-me a quantidade de pessoas que todas aquelas igrejas tinham. Muitas. E perguntei-me: que procuram todas estas pessoas? Será que a Igreja Católica, profundamente enraizada no nosso país, falhou tanto? Onde? No saber acolher quem precisa? Por falta de uma vivência exemplar? Por menosprezar quem procura ainda a essência da mensagem cristã? E outras questões se seguiram: será que desistimos de pensar por nós? Será que preferimos a transmissão da suposta verdade, arrumadinha, em vez de a procurarmos e construirmos por nós próprios? Que aconteceu (ou o que nos aconteceu) para, de repente, nos aparecerem tantas e variadas soluções para os nossos problemas e angústias? Claro que também me ocorreu que, na melhor das hipóteses, aquelas manifestações espirituais (chamemos-lhe assim) podem ajudar a colmatar um problema cada vez mais evidente na sociedade em geral: a falta de contacto direto, físico, entre as pessoas. As redes sociais e as novas tecnologias em geral são formas, sobretudo, de encurtar distâncias e não propriamente gestos de “aconchego”, sensação vital para a felicidade de qualquer ser humano. Lembremo-nos da felicidade de uma mãe quando lhe colocam nos braços, pela primeira vez, o seu filho recém-nascido. Este contacto é a chave da felicidade de ambos.
Parece que o mercado está saturado de soluções que pretensiosamente visam dar sentido às nossas vidas. No entanto, as pessoas, o país, o mundo em geral, vivem aturdidas com tantos problemas sem verdadeiras e autênticas propostas de resolução (os exemplos poderiam ser muitos).
A sapiência não está num conjunto de conceitos e verdades únicas e dogmáticas. A vida ganha sentido quando acreditamos que a verdadeira sabedoria está dentro de nós; quando nos interrogamos sobre os nossos problemas, e buscamos, por nós próprios, mas também solidária e cooperativamente com os outros, as respostas às nossas angústias, medos e dúvidas.
Temos de perceber que a verdade não mora à superfície. Se conhecer é poder, façamos da máxima socrática, o nosso lema de vida “ conhece-te a ti mesmo”. Não deixemos que os outros nos conduzam e nos ensinem a verdade, no seu sentido mais amplo, como se nós fossemos destituídos de razão, de sentido crítico, de autonomia, do poder de dar rumo às nossas vidas. Assumamos uma atitude de vigilância, uma postura análoga à dos suricatas, para não cairmos na tentação de nos deixarmos seduzir pelos pretensiosos donos da verdade, quer no local de trabalho, no quotidiano das nossas vidas, na política. Não contribuamos, pois, para legitimar o que teoricamente repugnamos: o fundamentalismo, o irracionalismo, o relativismo exacerbado.
Jota Eme